Questão de Medicina — Oftalmologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Oftalmologia
Código
qg691909
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico de Urgência e Emergência (SAMU)
Homem, 73 anos, hipertenso e diabético, procura o pronto-socorro por perda visual súbita, indolor e completa em olho direito, iniciada há cerca de 2 horas. Fundoscopia evidencia retina pálida, adelgaçamento arterial difuso e mancha vermelho-cereja na região macular. Segundo a melhor evidência disponível e as recomendações atuais, qual é a conduta mais adequada no serviço de urgência?
AMassagem ocular e redução da pressão intraocular.
BTrombolítico sistêmico imediato.
CEncaminhamento urgente para avaliação neurológica e investigação etiológica.
DCorticoterapia sistêmica em alta dose.
EObservação clínica, pois não há tratamento efetivo comprovado.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Encaminhamento urgente para avaliação neurológica e investigação etiológica.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Oclusão da Artéria Central da Retina (OACR)
Gabarito: letra C. O quadro descrito — perda visual súbita, indolor e completa, com retina pálida e mancha vermelho-cereja na mácula — é a apresentação clássica da oclusão da artéria central da retina (OACR), uma emergência que, na prática, funciona como um equivalente de acidente vascular cerebral (AVC) ocular. A conduta mais adequada no serviço de urgência, segundo as recomendações atuais, é o encaminhamento urgente para avaliação neurológica e investigação etiológica, pois a OACR compartilha os mesmos fatores de risco e mecanismos fisiopatológicos do AVC isquêmico, e a prioridade é identificar e tratar a causa sistêmica subjacente.
A oclusão da artéria central da retina é uma emergência oftalmológica que resulta na interrupção abrupta do fluxo sanguíneo para a retina, levando à isquemia retiniana. O quadro clínico é típico: perda visual súbita, indolor e profunda (frequentemente descrita como "cortina" ou "apagão"), geralmente unilateral. Na fundoscopia, os achados característicos são a retina pálida (devido ao edema isquêmico), o adelgaçamento arterial difuso (artérias retinianas finas e com reflexo aumentado) e a mancha vermelho-cereja na mácula, que ocorre porque a fóvea, sendo avascular, não sofre o mesmo edema e permite visualizar a coroide subjacente, criando um contraste com a retina pálida ao redor.
A principal questão clínica é que a OACR não é apenas uma doença ocular local: ela é um marcador de doença aterosclerótica sistêmica e está fortemente associada a eventos cerebrovasculares e cardiovasculares. Estudos mostram que pacientes com OACR têm risco aumentado de AVC, infarto do miocárdio e morte vascular. Por isso, a abordagem moderna não se limita a tentar reperfundir a retina, mas sim a investigar e tratar a causa de base, como hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, fibrilação atrial, estenose carotídea e outras fontes embólicas.
Historicamente, tentativas de tratamento agudo da OACR incluíam massagem ocular, paracentese de câmara anterior, redução da pressão intraocular com medicamentos e até trombolíticos. No entanto, a evidência atual é limitada e não demonstra benefício claro dessas intervenções na recuperação visual. A janela terapêutica para reperfusão retiniana é extremamente curta (estimada em menos de 6 a 12 horas, com a maioria dos estudos sugerindo que a recuperação significativa é rara após esse período), e mesmo dentro dessa janela, as intervenções mecânicas ou farmacológicas não mostraram eficácia consistente. O trombolítico sistêmico, embora teoricamente atraente, carrega risco significativo de hemorragia e não é recomendado rotineiramente sem evidência robusta de benefício.
A conduta mais aceita e baseada em evidências é tratar a OACR como um evento isquêmico transitório ou AVC, com encaminhamento imediato para avaliação neurológica. Isso permite:
Investigação etiológica completa: ecocardiograma, Holter, Doppler de carótidas, exames laboratoriais (perfil lipídico, glicemia, hemograma, coagulação), entre outros.
Início de terapia antiagregante ou anticoagulante, conforme a causa identificada.
Controle agressivo dos fatores de risco cardiovascular.
Detecção precoce de estenose carotídea significativa, que pode exigir intervenção (endarterectomia ou stent).
A distinção crucial que a banca explora é entre o tratamento da OACR em si (que tem eficácia limitada) e o manejo do paciente como um todo (que é a prioridade). O candidato que se fixa na tentativa de reperfundir a retina pode escolher massagem ocular ou trombolítico, mas a abordagem correta é reconhecer a OACR como um sinal de alerta para doença vascular sistêmica e agir de acordo. A alternativa E, que afirma não haver tratamento efetivo, é parcialmente verdadeira no que diz respeito à recuperação visual, mas incorreta ao sugerir que nada deve ser feito — a investigação e o tratamento da causa são fundamentais.
Guarde a fronteira entre "tratar a oclusão" e "tratar o paciente": é exatamente nela que as alternativas se dividem. A OACR é um evento sentinela, e a conduta no pronto-socorro deve refletir isso.
A massagem ocular e a redução da pressão intraocular são manobras historicamente propostas para tentar deslocar o êmbolo e aumentar a perfusão retiniana. No entanto, não há evidência robusta de que melhorem o prognóstico visual, e podem até causar danos (como descolamento de retina ou hemorragia). A redução da PIO, seja com medicamentos ou paracentese, também não demonstrou benefício consistente. A conduta atual não recomenda essas manobras como tratamento padrão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O trombolítico sistêmico imediato é uma opção teoricamente atraente para dissolver o trombo, mas não é recomendado rotineiramente. Os estudos não mostraram benefício claro na recuperação visual, e o risco de hemorragia intracraniana ou sistêmica é significativo, especialmente em um paciente idoso hipertenso e diabético. A janela terapêutica é muito curta e a evidência é insuficiente para justificar o risco. A trombólise não é a conduta padrão no serviço de urgência para OACR.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta mais adequada. A OACR é um equivalente de AVC, e o paciente deve ser encaminhado com urgência para avaliação neurológica. Isso permite investigar a etiologia (embólica, trombótica, por vasculite, etc.) e iniciar medidas preventivas secundárias, como antiagregantes, estatinas e controle rigoroso da pressão arterial e glicemia. O encaminhamento neurológico é essencial para reduzir o risco de eventos vasculares futuros, que são a principal ameaça à vida e à saúde do paciente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A corticoterapia sistêmica em alta dose não é indicada para OACR. Ela pode ser considerada em casos específicos de arterite de células gigantes (que causa neuropatia óptica isquêmica anterior, não OACR típica), mas não é o tratamento da oclusão da artéria central da retina. O uso de corticoides sem indicação clara pode causar efeitos adversos significativos, especialmente em um paciente diabético, piorando o controle glicêmico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Embora seja verdade que não há tratamento que reverta de forma consistente a perda visual na OACR, a afirmação de que "não há tratamento efetivo comprovado" e que a conduta é apenas observação clínica é incorreta. Há tratamento para a causa subjacente e para prevenção de novos eventos. A observação clínica sem investigação e sem medidas preventivas é negligente, pois o paciente tem alto risco de AVC e outras complicações cardiovasculares. A conduta correta é a investigação etiológica e o manejo agressivo dos fatores de risco.