Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg691914
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Gravataí - RS
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico de Urgência e Emergência (SAMU)
Homem, 64 anos, em choque séptico, já recebeu reposição volêmica adequada (30 mL/kg) e encontra-se em uso de noradrenalina a 0,4 µg/kg/min, mantendo PAM de 58 mmHg. Apresenta lactato sérico elevado e sinais de hipoperfusão periférica. Ecocardiograma à beira-leito evidencia fração de ejeção preservada. Qual é a melhor conduta farmacológica adjuvante, segundo recomendações atuais, para atingir a meta de PAM ≥65 mmHg?
AAumentar a dose de noradrenalina.
BAssociar vasopressina em dose fixa.
CIniciar dobutamina em infusão contínua.
DSubstituir noradrenalina por adrenalina.
EIniciar fenilefrina como vasopressor principal.
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GabaritoB — Associar vasopressina em dose fixa.
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Choque séptico refratário: adição de vasopressina à noradrenalina
Gabarito: letra B. Em paciente com choque séptico que permanece hipotenso (PAM 58 mmHg) apesar de noradrenalina em dose moderada (0,4 µg/kg/min) e reposição volêmica adequada, a conduta recomendada pelas diretrizes atuais (Campanha de Sobrevivência à Sepse – SSC) é associar vasopressina em dose fixa (0,01–0,04 U/min), como estratégia poupadora de catecolaminas, em vez de simplesmente escalonar a noradrenalina. O ecocardiograma com fração de ejeção preservada afasta disfunção miocárdica, o que torna desnecessário o inotrópico (dobutamina) e reforça a indicação do segundo vasopressor.
O choque séptico é definido como sepse com necessidade de vasopressor para manter PAM ≥ 65 mmHg e lactato > 18 mg/dL (2 mmol/L) após ressuscitação volêmica adequada. A noradrenalina é o vasopressor de primeira linha, mas quando o paciente permanece hipotenso apesar de doses crescentes, a recomendação é adicionar um segundo agente. A vasopressina atua em receptores V1, promovendo vasoconstrição independente dos receptores adrenérgicos, o que permite reduzir a dose de noradrenalina e seus efeitos adversos (taquiarritmias, hiperlactatemia). O limiar sugerido para iniciar a vasopressina é quando a dose de noradrenalina está entre 0,25 e 0,5 µg/kg/min — exatamente o cenário do paciente (0,4 µg/kg/min).
A escolha entre aumentar a noradrenalina ou adicionar vasopressina é um ponto central das diretrizes. Embora o escalonamento da noradrenalina seja uma opção, as evidências atuais (revisão sistemática da SSC com 10 ECRs) mostram que a associação de vasopressina reduz a mortalidade em comparação à noradrenalina isolada, além de diminuir a carga adrenérgica. A vasopressina é considerada droga de segunda escolha, mas com indicação formal quando há hipotensão refratária a doses moderadas de noradrenalina. O desmame, quando ambos estão em uso, deve começar pela noradrenalina, mantendo a vasopressina por mais tempo, pois o desmame precoce da vasopressina associa-se a maior risco de hipotensão.
A dobutamina, por sua vez, é reservada para pacientes com evidência de baixo débito cardíaco ou disfunção miocárdica (ecocardiograma com fração de ejeção reduzida, baixa saturação venosa central, lactato elevado com sinais de hipoperfusão). No caso, a fração de ejeção está preservada, o que contraindica o uso rotineiro de inotrópico. A adrenalina é alternativa em choque refratário, especialmente com débito cardíaco reduzido, mas não é a primeira escolha adjuvante quando a vasopressina está disponível. A fenilefrina, vasopressor alfa-puro, não é recomendada como agente principal no choque séptico, sendo reservada para situações específicas (ex.: taquiarritmias graves).
A meta de PAM ≥ 65 mmHg deve ser individualizada: pacientes hipertensos crônicos podem se beneficiar de metas mais altas (75–80 mmHg), mas o estudo Sepsis-PAM não demonstrou redução de mortalidade com metas mais elevadas. A monitorização invasiva da pressão arterial é recomendada para guiar a titulação. A pegadinha da questão está em reconhecer que, com FE preservada, o problema é vasoplegia (resistência vascular reduzida), não disfunção contrátil — logo, a conduta é otimizar a vasoconstrição com um segundo vasopressor, e não adicionar inotrópico.
Guarde o critério decisivo: hipotensão refratária a noradrenalina em dose moderada + FE preservada = adicionar vasopressina; FE reduzida ou sinais de baixo débito = considerar dobutamina. É exatamente essa distinção que separa as alternativas.
Critério
Aumentar noradrenalina
Associar vasopressina
Iniciar dobutamina
Substituir por adrenalina
Iniciar fenilefrina
Indicação principal
Escalonamento isolado (não preferencial)
Hipotensão refratária a NA em dose moderada (0,25–0,5 µg/kg/min)
Agonista V1 (vasoconstrição independente de adrenérgicos)
Agonista β1 (inotrópico)
Agonista α e β (vasoconstrição + inotropismo)
Agonista α puro (vasoconstrição)
Efeito na carga adrenérgica
Aumenta
Reduz (poupador de catecolaminas)
Aumenta
Aumenta
Neutro (não adrenérgico)
Evidência de redução de mortalidade
Não comprovada
Sim (vs. NA isolada)
Não
Não
Não
Aplicabilidade no caso (FE preservada, NA 0,4 µg/kg/min)
Possível, mas não é a melhor conduta
✅ Conduta recomendada
❌ Contraindicada (FE preservada)
❌ Não é primeira escolha
❌ Não é recomendada como principal
Choque séptico refratário: FE preservada (vasoplegia) (Associar vasopressina, Escalonar noradrenalina, Dobutamina (sem disfunção contrátil)); FE reduzida (baixo débito) (Dobutamina, Adrenalina (alternativa)); Vasopressina (0,01–0,04 U/min) (Início: NA 0,25–0,5 µg/kg/min, Desmame: retirar NA primeiro)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Aumentar a dose de noradrenalina é uma opção, mas não é a melhor conduta adjuvante segundo as recomendações atuais. O paciente já está em dose moderada (0,4 µg/kg/min) e, com o limiar de 0,25–0,5 µg/kg/min, a diretriz sugere adicionar vasopressina para reduzir a carga adrenérgica, em vez de escalonar indefinidamente a noradrenalina. O escalonamento isolado aumenta o risco de taquiarritmias e hiperlactatemia sem benefício comprovado de mortalidade.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Associar vasopressina em dose fixa (0,01–0,04 U/min) é a conduta recomendada. A vasopressina atua em receptores V1, promovendo vasoconstrição independente dos receptores adrenérgicos, o que permite poupar catecolaminas e reduzir efeitos adversos. O limiar para início é quando a noradrenalina está entre 0,25 e 0,5 µg/kg/min — exatamente o caso (0,4 µg/kg/min). A revisão sistemática da SSC mostrou redução de mortalidade com a associação em comparação à noradrenalina isolada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Iniciar dobutamina está indicado apenas quando há evidência de baixo débito cardíaco ou disfunção miocárdica (FE reduzida, baixa saturação venosa central, sinais de hipoperfusão com ecocardiograma compatível). No caso, a fração de ejeção está preservada, o que afasta essa indicação. A dobutamina, por aumentar o consumo de oxigênio miocárdico, deve ser evitada sem indicação clara.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Substituir noradrenalina por adrenalina não é a conduta de primeira linha. A adrenalina é alternativa em choque refratário, especialmente com débito cardíaco reduzido, mas não é preferível à associação com vasopressina. Além disso, a adrenalina tem mais efeitos adversos (arritmias, hiperlactatemia, hipoperfusão esplâncnica) e não há evidência de superioridade sobre a noradrenalina no choque séptico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A fenilefrina (vasopressor alfa-puro) não é recomendada como vasopressor principal no choque séptico. Ela pode ser considerada em situações específicas (ex.: taquiarritmias graves que contraindiquem beta-agonistas), mas não substitui a noradrenalina como primeira escolha, nem é a melhor adjuvante quando a vasopressina está indicada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre vasoplegia (resistência vascular reduzida) e disfunção miocárdica (baixo débito). O candidato que vê lactato elevado e hipoperfusão pode pensar em dobutamina, mas o ecocardiograma com FE preservada é a chave: o problema é vascular, não contrátil. A conduta é adicionar vasopressina, não inotrópico. Fique atento ao limiar de noradrenalina (0,25–0,5 µg/kg/min) para iniciar o segundo vasopressor.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o raciocínio em etapas: 1) reposição volêmica adequada? 2) noradrenalina em dose moderada? 3) FE preservada? Se sim para os três, a resposta é vasopressina. Se FE reduzida, pense em dobutamina. Essa sequência resolve a maioria das questões de choque séptico refratário.