Questão de Medicina — Patologia Clínica — FUNDATEC 2026
Medicina›Patologia Clínica
Código
qg693752
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Genética Médica
No teste de triagem neonatal com análise do perfil de acilcarnitinas, níveis elevados de C3 (carnitina de 3 carbonos) isoladamente podem ocorrer devido a duas condições. Quais são elas?
AAcidemia isovalérica e defeito de betaoxidação de cadeia média.
BAcidúria glutárica tipo 1 e defeito de betaoxidação de cadeia média.
CAcidemia propiônica e acidemia metilmalônica.
DAcidemia metilmalônica e acidemia isovalérica.
EDefeito de betaoxidação de cadeia média e deficiência de CPT2.
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GabaritoC — Acidemia propiônica e acidemia metilmalônica.
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Triagem neonatal: perfil de acilcarnitinas e elevação isolada de C3
Gabarito: letra C. Níveis elevados de C3 (propionilcarnitina) isoladamente no teste de triagem neonatal por espectrometria de massas em tandem indicam, classicamente, duas condições: acidemia propiônica e acidemia metilmalônica. A elevação isolada de C3 reflete o acúmulo de propionil-CoA, que ocorre primariamente nessas duas acidemias orgânicas, sendo essa a base bioquímica que sustenta a alternativa correta.
A triagem neonatal ampliada, realizada por espectrometria de massas em tandem (MS/MS), analisa o perfil de acilcarnitinas no sangue seco coletado em papel-filtro. As acilcarnitinas são ésteres formados pela conjugação de ácidos graxos ou ácidos orgânicos com a carnitina, e seu perfil permite a detecção de diversos erros inatos do metabolismo. A carnitina de 3 carbonos (C3) corresponde à propionilcarnitina, que se acumula quando há bloqueio na via de degradação de aminoácidos de cadeia ramificada (valina, isoleucina, metionina, treonina) e de ácidos graxos de cadeia ímpar.
O propionil-CoA é um metabólito intermediário que, em condições normais, é convertido a metilmalonil-CoA pela enzima propionil-CoA carboxilase, e posteriormente a succinil-CoA, que entra no ciclo de Krebs. Quando há deficiência da propionil-CoA carboxilase, ocorre a acidemia propiônica; quando há deficiência da metilmalonil-CoA mutase ou do metabolismo da vitamina B12 (cofator), ocorre a acidemia metilmalônica. Em ambas as condições, o propionil-CoA acumula-se e é conjugado com carnitina, formando propionilcarnitina (C3), que é exportada para o sangue e detectada na triagem.
É importante distinguir a elevação isolada de C3 da elevação combinada com outros marcadores. Por exemplo, na acidemia isovalérica, o marcador característico é a elevação de C5 (isovalerilcarnitina), não de C3. Nos defeitos de beta-oxidação de cadeia média (como a deficiência de MCAD), o marcador é a elevação de C6, C8 e C10 (acilcarnitinas de cadeia média), não de C3. Na acidúria glutárica tipo 1, o marcador é a elevação de C5DC (glutarilcarnitina). A deficiência de CPT2 (carnitina palmitoiltransferase tipo 2) cursa com elevação de acilcarnitinas de cadeia longa (C16, C18), não de C3.
A distinção entre acidemia propiônica e acidemia metilmalônica é feita por exames complementares: dosagem de ácido metilmalônico na urina (elevado na metilmalônica, normal na propiônica), dosagem de homocisteína (elevada em alguns subtipos de metilmalônica), e teste de resposta à vitamina B12. Na triagem neonatal, ambas apresentam o mesmo perfil de acilcarnitinas com C3 elevado, sendo necessária a confirmação diagnóstica por métodos específicos.
A pegadinha desta questão está em associar a elevação de C3 a outras condições que, na verdade, apresentam marcadores diferentes. O candidato que memoriza apenas os nomes das doenças sem compreender a via metabólica tende a confundir acidemia isovalérica (C5) e acidúria glutárica tipo 1 (C5DC) com as condições que elevam C3. A compreensão da via bioquímica — onde o propionil-CoA se acumula — é o critério decisivo para separar as alternativas.
C3 elevado (propionilcarnitina)
1Acúmulo de propionil-CoA
Bloqueio da conversão a succinil-CoA
2Causas clássicas
Acidemia propiônica
Deficiência de propionil-CoA carboxilase
Acidemia metilmalônica
Deficiência de metilmalonil-CoA mutase
Defeito do metabolismo da vitamina B12
3Diagnóstico diferencial
Ácido metilmalônico urinário
Elevado na metilmalônica
Normal na propiônica
Homocisteína
Elevada em subtipos de metilmalônica
Teste de resposta à B12
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A acidemia isovalérica cursa com elevação de C5 (isovalerilcarnitina), não de C3. O defeito de beta-oxidação de cadeia média (MCAD) cursa com elevação de C6, C8 e C10. Nenhuma das duas condições eleva isoladamente o C3.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A acidúria glutárica tipo 1 cursa com elevação de C5DC (glutarilcarnitina), não de C3. O defeito de beta-oxidação de cadeia média eleva C6, C8 e C10. Ambas as condições apresentam marcadores diferentes de C3.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A acidemia propiônica (deficiência de propionil-CoA carboxilase) e a acidemia metilmalônica (deficiência de metilmalonil-CoA mutase ou do metabolismo da vitamina B12) são as duas condições que cursam com elevação isolada de C3 (propionilcarnitina). Em ambas, há acúmulo de propionil-CoA, que é conjugado com carnitina e detectado na triagem neonatal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A acidemia metilmalônica eleva C3, mas a acidemia isovalérica eleva C5 (isovalerilcarnitina), não C3. A combinação está incorreta porque inclui uma condição com marcador diferente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O defeito de beta-oxidação de cadeia média eleva C6, C8 e C10, e a deficiência de CPT2 eleva acilcarnitinas de cadeia longa (C16, C18). Nenhuma das duas eleva isoladamente o C3.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os marcadores de diferentes erros inatos do metabolismo. O candidato que decora nomes de doenças sem entender a via metabólica tende a associar C3 a condições que, na verdade, elevam outros marcadores (C5 na isovalérica, C5DC na glutárica tipo 1, C6-C10 nos defeitos de beta-oxidação de cadeia média). A chave é lembrar que C3 = propionilcarnitina, que se acumula apenas quando há bloqueio na conversão de propionil-CoA a succinil-CoA — exatamente o que ocorre na acidemia propiônica e na metilmalônica.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar os marcadores da triagem neonatal, monte uma tabela mental associando cada condição ao seu marcador característico: C3 (propiônica e metilmalônica), C5 (isovalérica), C5DC (glutárica tipo 1), C6-C10 (defeitos de beta-oxidação de cadeia média), C16-C18 (deficiência de CPT2). Essa associação direta entre o marcador e a doença é o que resolve a maioria das questões sobre perfil de acilcarnitinas.