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Questão de Medicina — Geriatria — FUNDATEC 2026

MedicinaGeriatria
Código
qg693766
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Geriatria
Paciente idosa de 82 anos, hipertensa e diabética, independente para atividades básicas, mas com redução progressiva da velocidade de marcha e da tolerância ao esforço nos últimos 12 meses. Refere fadiga frequente, perda de 5 kg não intencional no último ano e duas quedas sem fraturas. Avaliação mostra força de preensão manual abaixo do percentil esperado para sexo e idade, sem déficit cognitivo ou depressão maior. À luz dos conceitos contemporâneos de fragilidade em geriatria, assinale a alternativa correta.
  1. AA simples coexistência de múltiplas comorbidades crônicas caracteriza fragilidade, independentemente de alterações na força muscular, desempenho físico ou funcionalidade.
  2. BA fragilidade corresponde a um estado irreversível do envelhecimento, representando sua fase terminal, não havendo evidência de benefício com intervenções direcionadas.
  3. CO fenótipo de fragilidade proposto por Fried descreve uma síndrome biológica associada à redução da reserva fisiológica e à maior vulnerabilidade a estressores, podendo ser prevenida e parcialmente revertida por intervenções multidimensionais.
  4. DO diagnóstico de fragilidade baseia-se exclusivamente em escalas de atividades de vida diária, como Katz e Lawton, sendo desnecessária a avaliação de força muscular ou desempenho físico.
  5. EA identificação da fragilidade tem valor apenas prognóstico, não influenciando decisões terapêuticas, definição de metas de cuidado ou planejamento de intervenções clínicas.
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GabaritoC — O fenótipo de fragilidade proposto por Fried descreve uma síndrome biológica associada à redução da reserva fisiológica e à maior vulnerabilidade a estressores, podendo ser prevenida e parcialmente revertida por intervenções multidimensionais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fragilidade no idoso: fenótipo de Fried e conceitos contemporâneos

Gabarito: letra C. O fenótipo de fragilidade descrito por Fried define uma síndrome biológica caracterizada pela redução da reserva fisiológica e maior vulnerabilidade a estressores, sendo potencialmente prevenível e parcialmente reversível com intervenções multidimensionais — exatamente o que a alternativa C afirma. As demais alternativas distorcem o conceito: fragilidade não se confunde com comorbidade, não é irreversível, não se diagnostica apenas por escalas funcionais e tem impacto direto nas decisões terapêuticas.

A fragilidade é um dos conceitos centrais da geriatria contemporânea. Diferentemente do envelhecimento normal ou da simples presença de doenças crônicas, a fragilidade representa um estado de vulnerabilidade aumentada, no qual o organismo perde a capacidade de manter a homeostase diante de estressores — uma infecção, uma cirurgia, uma mudança de medicação —, resultando em desfechos adversos como quedas, hospitalização, institucionalização e morte. O modelo mais difundido é o fenótipo de Fried, que identifica cinco critérios: perda de peso não intencional, fadiga autorreferida, redução da força de preensão manual, baixa velocidade de marcha e baixo nível de atividade física. A presença de três ou mais critérios caracteriza fragilidade; um ou dois, pré-fragilidade.

A paciente do enunciado apresenta vários elementos que se encaixam nesse fenótipo: perda de 5 kg não intencional no último ano, fadiga frequente, redução da velocidade de marcha e da tolerância ao esforço, força de preensão abaixo do esperado e duas quedas. A ausência de déficit cognitivo e depressão maior afasta confundidores importantes, reforçando o quadro de fragilidade física. É importante destacar que a fragilidade não é sinônimo de comorbidade: embora idosos frágeis frequentemente tenham múltiplas doenças, a fragilidade é um constructo distinto, que se sobrepõe, mas não se confunde, com a multimorbidade. Um idoso pode ser frágil sem ter múltiplas comorbidades, e vice-versa.

A fragilidade também não é um estado irreversível. Estudos demonstram que intervenções multidimensionais — exercício físico (especialmente treino de força e equilíbrio), otimização nutricional, revisão de medicações (desprescrição), manejo de comorbidades e suporte social — podem prevenir a progressão e, em alguns casos, reverter parcialmente o quadro. Essa reversibilidade é a base da abordagem clínica: identificar precocemente o idoso frágil permite instituir medidas que alteram a trajetória de declínio. A identificação da fragilidade tem, portanto, valor prognóstico e terapêutico, influenciando metas de cuidado, escolha de intervenções e até mesmo limiares de tratamento de condições como hipertensão — como visto nas diretrizes, que recomendam metas pressóricas menos rígidas para idosos frágeis.

A avaliação da fragilidade não se resume a escalas de atividades de vida diária (AVD), como Katz e Lawton. Embora essas escalas avaliem a funcionalidade — um componente importante —, elas não capturam a vulnerabilidade fisiológica subjacente. A avaliação da fragilidade envolve medidas objetivas de desempenho físico (velocidade de marcha, força de preensão, teste de levantar e sentar), além de instrumentos específicos como o índice de Fried, a escala FRAIL e a Escala Clínica de Fragilidade. A velocidade de marcha, por exemplo, é um marcador simples e poderoso: valores abaixo de 0,8 m/s indicam risco de fragilidade e pior prognóstico.

A pegadinha central desta questão é a confusão entre fragilidade e outros conceitos geriátricos — comorbidade, incapacidade e envelhecimento normal. A banca explora justamente essa sobreposição: o idoso com múltiplas doenças não é necessariamente frágil, e o idoso frágil pode ter poucas comorbidades. Além disso, a ideia de que a fragilidade é irreversível ou apenas prognóstica contraria a evidência atual, que sustenta a prevenção e a reversibilidade parcial. Guarde a fronteira: fragilidade é uma síndrome biológica de reserva reduzida, distinta de comorbidade e incapacidade, e é modificável por intervenções.

Critério

Fragilidade (fenótipo de Fried)

Comorbidade (multimorbidade)

Conceito

Síndrome biológica de redução da reserva fisiológica e maior vulnerabilidade a estressores

Coexistência de múltiplas doenças crônicas no mesmo indivíduo

Critérios diagnósticos

Perda de peso não intencional, fadiga, redução da força de preensão, baixa velocidade de marcha, baixa atividade física (≥3 critérios)

Presença de ≥2 doenças crônicas (não exige alterações funcionais ou de desempenho)

Reversibilidade

Potencialmente prevenível e parcialmente reversível com intervenções multidimensionais

Não é um estado reversível em si; manejo visa controle das doenças

Relação com funcionalidade

Exige alterações fisiológicas e funcionais (força, marcha, atividade)

Pode existir sem comprometimento funcional ou de desempenho físico

Impacto clínico

Orienta decisões terapêuticas, metas de cuidado e planejamento de intervenções

Influencia o manejo de cada doença, mas não define isoladamente vulnerabilidade

Fragilidade (Fried)
  • 15 critérios
    • Perda de peso não intencional
    • Fadiga autorreferida
    • Força de preensão reduzida
    • Baixa velocidade de marcha
    • Baixo nível de atividade física
  • 2Classificação
    • 3+ critérios: frágil
    • 1-2 critérios: pré-frágil
  • 3Distinções
    • ≠ comorbidade
    • ≠ incapacidade (AVD)
  • 4Intervenção
    • Exercício físico
    • Suporte nutricional
    • Desprescrição
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que a simples coexistência de múltiplas comorbidades caracteriza fragilidade, independentemente de alterações na força muscular, desempenho físico ou funcionalidade. Isso confunde fragilidade com multimorbidade. Embora a multimorbidade seja comum em idosos frágeis e possa contribuir para a fragilidade, são constructos distintos: a fragilidade exige a presença de alterações fisiológicas e funcionais (perda de peso, fadiga, fraqueza, baixa velocidade de marcha, baixa atividade física), não apenas a presença de doenças. Um idoso com várias doenças crônicas bem controladas pode não ser frágil, e um idoso com poucas comorbidades pode ser frágil.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que a fragilidade é um estado irreversível do envelhecimento, representando sua fase terminal, sem evidência de benefício com intervenções. Isso contraria a literatura: a fragilidade é potencialmente prevenível e parcialmente reversível. Intervenções multidimensionais — exercício físico, suporte nutricional, revisão de medicações, manejo de comorbidades — demonstram benefícios na prevenção da progressão e na melhora de desfechos. A fragilidade não é uma fase terminal inevitável, mas um estado de vulnerabilidade que pode ser modificado.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Descreve corretamente o fenótipo de fragilidade de Fried: uma síndrome biológica associada à redução da reserva fisiológica e à maior vulnerabilidade a estressores, podendo ser prevenida e parcialmente revertida por intervenções multidimensionais. Essa é a definição contemporânea aceita, e o enunciado da paciente — perda de peso, fadiga, fraqueza, baixa velocidade de marcha, quedas — ilustra exatamente esse fenótipo. A alternativa amarra os três elementos-chave: a natureza sindrômica, a fisiopatologia (reserva reduzida) e a possibilidade de intervenção.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que o diagnóstico de fragilidade baseia-se exclusivamente em escalas de AVD (Katz, Lawton), sendo desnecessária a avaliação de força muscular ou desempenho físico. Isso é falso: as escalas de AVD avaliam funcionalidade, mas não capturam a vulnerabilidade fisiológica. A avaliação da fragilidade exige medidas objetivas de desempenho físico (força de preensão, velocidade de marcha) e instrumentos específicos (fenótipo de Fried, FRAIL, Clinical Frailty Scale). A força muscular e o desempenho físico são componentes centrais do fenótipo de Fried.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que a identificação da fragilidade tem valor apenas prognóstico, não influenciando decisões terapêuticas, metas de cuidado ou planejamento de intervenções. Isso é incorreto: a fragilidade influencia diretamente as decisões clínicas — por exemplo, metas pressóricas em hipertensos idosos, indicação de cirurgias, escolha de medicamentos, planejamento de cuidados paliativos e definição de metas de cuidado centradas no paciente. A avaliação da fragilidade é parte da avaliação geriátrica ampla e orienta a abordagem terapêutica individualizada.

Gabarito: letra C

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