Mulher, 79 anos, com de hipertensão arterial e diabetes melito tipo 2, apresenta creatinina sérica de 1,6 mg/dL em exames de rotina. Encontra-se assintomática do ponto de vista urinário, mas a equipe discute a possibilidade de doença renal crônica associada ao envelhecimento. Sobre a função renal no idoso, assinale a alternativa INCORRETA.
AO envelhecimento fisiológico cursa com redução progressiva da taxa de filtração glomerular, mesmo na ausência de doença renal estrutural.
BA redução da massa muscular no idoso pode mascarar a gravidade da disfunção renal quando se avalia apenas a creatinina sérica isoladamente.
CFórmulas estimativas de TFG, como CKD-EPI, são mais adequadas do que a creatinina isolada para avaliação da função renal em idosos.
DAlterações na regulação hidroeletrolítica tornam o idoso mais suscetível à desidratação, hiponatremia e toxicidade medicamentosa.
EA presença de divertículos tubulares renais é achado patognomônico de DRC avançada no idoso e indica necessidade de abordagem cirúrgica.
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GabaritoE — A presença de divertículos tubulares renais é achado patognomônico de DRC avançada no idoso e indica necessidade de abordagem cirúrgica.
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Função renal no idoso: fisiologia do envelhecimento e DRC
Gabarito: letra E. A alternativa incorreta afirma que "divertículos tubulares renais" são achado patognomônico de DRC avançada no idoso e indicam abordagem cirúrgica — isso não corresponde a nenhuma entidade clínica real; o envelhecimento renal cursa com alterações estruturais como esclerose glomerular, atrofia tubular e fibrose intersticial, mas não há "divertículos tubulares" como marcador patognomônico de DRC, muito menos indicação cirúrgica. As demais alternativas (A, B, C e D) descrevem corretamente aspectos da fisiologia renal no idoso.
A função renal sofre alterações fisiológicas com o envelhecimento, mesmo na ausência de doença renal estrutural. O declínio da taxa de filtração glomerular (TFG) é progressivo a partir da terceira década de vida, estimando-se uma perda média de cerca de 1 mL/min/1,73 m² por ano após os 40 anos. Esse declínio é atribuído a múltiplos mecanismos: redução do número de néfrons funcionantes (esclerose glomerular), diminuição do fluxo plasmático renal, atrofia tubular e fibrose intersticial. É importante destacar que, embora o declínio seja "fisiológico", ele torna o rim do idoso mais vulnerável a agressões adicionais (hipertensão, diabetes, nefrotoxinas), e a distinção entre envelhecimento normal e doença renal crônica (DRC) incipiente é frequentemente difícil na prática clínica.
Um ponto crucial na avaliação do idoso é a limitação da creatinina sérica isolada como marcador de função renal. A creatinina é um produto do metabolismo muscular, e o idoso tipicamente apresenta sarcopenia (redução da massa muscular), o que resulta em menor geração de creatinina. Assim, um idoso pode ter creatinina sérica "normal" ou pouco elevada, mesmo com TFG significativamente reduzida. Por isso, as diretrizes recomendam o uso de fórmulas estimativas de TFG, como a CKD-EPI (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration), que incorporam idade, sexo e raça, além da creatinina, para uma estimativa mais acurada da função renal. A fórmula CKD-EPI é a recomendada pelas diretrizes brasileiras de hipertensão e nefrologia para avaliação da TFG em adultos e idosos.
Além da TFG, o envelhecimento compromete outros aspectos da função renal, especialmente a regulação hidroeletrolítica. O idoso apresenta redução da capacidade de concentração e diluição urinária, diminuição da sede, redução da resposta à aldosterona e ao hormônio antidiurético, e menor capacidade de excretar carga de sódio e água. Essas alterações tornam o idoso mais suscetível à desidratação, à hiponatremia (especialmente com uso de diuréticos tiazídicos ou SSRIs) e à hipercalemia ou hipocalemia, além de aumentar o risco de toxicidade medicamentosa, pois muitos fármacos e seus metabólitos são excretados por via renal. A polifarmácia, comum nessa faixa etária, agrava ainda mais esse risco.
A alternativa E, por sua vez, é um distrator que mistura conceitos de anatomia e fisiopatologia de forma incorreta. Não existe "divertículo tubular renal" como entidade clínica reconhecida, muito menos como achado patognomônico de DRC avançada. O que existe são alterações estruturais como cistos renais simples (frequentes no idoso, mas geralmente benignos e sem indicação cirúrgica), esclerose glomerular e atrofia tubular. A indicação de abordagem cirúrgica em nefrologia está relacionada a condições específicas como tumores renais, litíase complicada ou hidronefrose obstrutiva, nunca a "divertículos tubulares" associados à DRC. A banca explora aqui a confusão com o termo "divertículo" (que remete a outras estruturas do corpo, como divertículos intestinais ou vesicais) para induzir o candidato ao erro.
Guarde a fronteira entre o que é fisiológico no envelhecimento renal (declínio da TFG, alterações estruturais, distúrbios hidroeletrolíticos) e o que é patológico (DRC estabelecida, com critérios de TFG < 60 mL/min/1,73 m² ou lesão renal por ≥ 3 meses). É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem: as corretas descrevem alterações fisiológicas e a incorreta inventa uma entidade patológica inexistente.
Critério
Envelhecimento fisiológico renal
DRC estabelecida
TFG
Declínio progressivo, mas geralmente > 60 mL/min/1,73 m²
< 60 mL/min/1,73 m² por ≥ 3 meses
Creatinina sérica isolada
Pode estar "normal" ou pouco elevada (mascarada por sarcopenia)
Frequentemente elevada, mas pode ser normal em idosos com baixa massa muscular
Fórmula estimativa (CKD-EPI)
Recomendada para estimar TFG e acompanhar declínio fisiológico
Essencial para diagnóstico e estadiamento
Alterações estruturais
Esclerose glomerular, atrofia tubular, fibrose intersticial (difusas e degenerativas)
Lesão renal estrutural ou funcional persistente (mesmas alterações, porém com critérios de gravidade)
Regulação hidroeletrolítica
Redução da capacidade de concentração/diluição, menor sede, suscetibilidade a desidratação e hiponatremia
Distúrbios mais graves, com maior risco de toxicidade medicamentosa e complicações
Indicação cirúrgica
Nenhuma (alterações fisiológicas)
Apenas para complicações específicas (tumores, litíase complicada, hidronefrose obstrutiva) — nunca por "divertículos tubulares"
Função renal no idoso: Alterações fisiológicas (Declínio progressivo da TFG, Esclerose glomerular, Atrofia tubular e fibrose); Avaliação da função (Creatinina isolada (limitada), Fórmulas estimativas (CKD-EPI)); Regulação hidroeletrolítica (Suscetível à desidratação, Hiponatremia, Toxicidade medicamentosa); Distrator (inexistente) (Divertículos tubulares renais)
Alternativa A — ✅ Correta
A afirmativa está correta. O envelhecimento fisiológico cursa com redução progressiva da TFG, mesmo sem doença renal estrutural. Esse declínio é bem documentado na literatura e atribuído à perda de néfrons, esclerose glomerular e redução do fluxo plasmático renal. A própria definição de DRC considera que uma TFG persistentemente abaixo de 60 mL/min/1,73 m² é inferior ao esperado para o declínio fisiológico do envelhecimento, o que reforça que o declínio "normal" não atinge esse patamar.
Alternativa B — ✅ Correta
A afirmativa está correta. A redução da massa muscular no idoso (sarcopenia) leva a menor produção de creatinina, o que pode mascarar a gravidade da disfunção renal quando se avalia apenas a creatinina sérica. Um idoso pode ter creatinina dentro da faixa de referência, mas TFG já reduzida. Por isso, a creatinina isolada é um marcador inadequado de função renal no idoso, e o uso de fórmulas estimativas é essencial.
Alternativa C — ✅ Correta
A afirmativa está correta. As fórmulas estimativas de TFG, como a CKD-EPI, são mais adequadas que a creatinina isolada para avaliação da função renal em idosos. A CKD-EPI incorpora idade, sexo e raça, além da creatinina sérica, e é a fórmula recomendada pelas diretrizes brasileiras (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial e diretrizes de DRC) para estimar a TFG. A fórmula de Cockcroft-Gault, embora historicamente usada, não é mais recomendada por necessitar de correção para superfície corpórea e apresentar vieses.
Alternativa D — ✅ Correta
A afirmativa está correta. As alterações na regulação hidroeletrolítica no idoso incluem redução da capacidade de concentração urinária, diminuição da sede, menor resposta à aldosterona e ao ADH, e menor capacidade de excretar sódio e água. Isso torna o idoso mais suscetível à desidratação (especialmente em quadros febris ou com diarreia), à hiponatremia (frequentemente associada ao uso de diuréticos tiazídicos ou inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e à toxicidade medicamentosa, pois a excreção renal de fármacos está reduzida.
Alternativa E — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO
A afirmativa está incorreta. Não existe "divertículo tubular renal" como achado patognomônico de DRC avançada no idoso, nem há indicação de abordagem cirúrgica para tal condição. O envelhecimento renal cursa com alterações estruturais como esclerose glomerular, atrofia tubular e fibrose intersticial, mas não com "divertículos tubulares". O termo "divertículo" pode remeter a outras estruturas (divertículos intestinais, vesicais), mas não se aplica ao parênquima renal como marcador de DRC. A indicação cirúrgica em nefrologia está reservada a condições específicas (tumores, litíase complicada, hidronefrose obstrutiva), nunca a "divertículos tubulares" associados à DRC. A banca cria um distrator com terminologia inventada para testar o conhecimento do candidato sobre as reais alterações estruturais do rim senescente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inventa uma entidade clínica inexistente ("divertículos tubulares renais") e a apresenta como achado patognomônico de DRC avançada com indicação cirúrgica. O candidato que não domina as reais alterações estruturais do envelhecimento renal (esclerose glomerular, atrofia tubular, fibrose intersticial) pode ser induzido a aceitar o termo como plausível. Lembre-se: no idoso, as alterações renais são degenerativas e difusas, não "diverticulares" — e DRC não tem indicação cirúrgica por si só. Com treino, você identifica esses distratores de longe 💪.
Gabarito: letra E — a única alternativa incorreta, pois descreve uma condição inexistente como patognomônica de DRC avançada no idoso.