Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2026
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg693825
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Paliativa/Paliativismo
Paciente de 82 anos, com insuficiência cardíaca avançada (NYHA IV), demência vascular moderada, múltiplas internações por congestão e perda funcional progressiva, vive com a filha, que é sua cuidadora principal. Nas últimas semanas, apresenta anorexia marcada, dispneia em repouso, agitação noturna e episódios de recusa alimentar. A filha está exausta, relata culpa por não “conseguir fazer o pai comer” e insiste que a equipe “faça tudo” para reverter o quadro. Durante a reunião familiar, emergem conflitos, descritos abaixo:• O fisioterapeuta acredita que o foco deve ser em mobilidade passiva e prevenção de dor por imobilidade.• A psicóloga identifica sofrimento intenso da filha, com risco de colapso emocional.• A enfermeira aponta sinais de sobrecarga do cuidador e risco de erros no manejo medicamentoso.• O cardiologista defende manter betabloqueador e IECA, apesar da hipotensão e piora funcional.• A geriatra sugere revisão profunda de metas de cuidado e possível transição para cuidados de fim de vida.A equipe solicita avaliação do especialista em Cuidados Paliativos para conduzir o processo. Considerando as melhores práticas em funcionamento de equipe multidisciplinar/interdisciplinar, assinale a alternativa correta.
AA equipe deve atuar de forma multidisciplinar, com cada profissional mantendo sua autonomia e definindo condutas separadas para a família escolher qual prefere, evitando interferência entre as áreas.
BO especialista em Cuidados Paliativos deve assumir decisão final, pois a condução de metas de cuidado é centralizada neste profissional, que integra e hierarquiza as opiniões dos demais.
CA atuação mais adequada é interdisciplinar, com integração das avaliações dos diferentes profissionais, construção conjunta de plano de cuidados e alinhamento de objetivos, incluindo suporte ao cuidador e revisão de terapias fúteis.
DA melhor abordagem é focar no conforto físico do paciente, uma vez que questões emocionais e sociais acabam sendo secundárias em contexto de fim de vida e não devem interferir nas condutas.
EA decisão deve ser tomada com base no ponto de vista prevalente entre os profissionais de saúde, ainda que não haja consenso interdisciplinar, pois evitar a demora na tomada de decisão é essencial.
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GabaritoC — A atuação mais adequada é interdisciplinar, com integração das avaliações dos diferentes profissionais, construção conjunta de plano de cuidados e alinhamento de objetivos, incluindo suporte ao cuidador e revisão de terapias fúteis.
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Cuidados Paliativos e trabalho em equipe interdisciplinar
Gabarito: letra C. A atuação mais adequada em cuidados paliativos é a interdisciplinar, que integra as avaliações dos diferentes profissionais, constrói conjuntamente o plano de cuidados e alinha objetivos, incluindo suporte ao cuidador e revisão de terapias fúteis. Essa é a essência do cuidado paliativo moderno, que valoriza a comunicação, o trabalho em equipe e o foco na qualidade de vida do paciente e sua família.
O caso apresentado é um clássico de cuidados paliativos: paciente idoso com doença avançada e progressiva, múltiplas comorbidades, declínio funcional, sintomas refratários e uma família sobrecarregada. A equipe multidisciplinar já está presente (fisioterapeuta, psicóloga, enfermeira, cardiologista, geriatra), mas cada um traz uma perspectiva fragmentada. O que se espera, segundo as melhores práticas, é a transição para um modelo interdisciplinar, no qual as diferentes visões são integradas em um plano único, centrado no paciente e na família, com objetivos compartilhados e revisão constante das condutas.
A diferença entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade é crucial. Na multidisciplinaridade, cada profissional atua de forma paralela, com suas próprias metas, sem necessariamente integrar as informações. Na interdisciplinaridade, há uma integração real: os profissionais compartilham informações, discutem casos, constroem um plano conjunto e tomam decisões de forma colaborativa. Em cuidados paliativos, a interdisciplinaridade é o padrão-ouro, pois a complexidade do paciente exige uma visão holística, que considere aspectos físicos, psicológicos, sociais e espirituais.
No caso, a filha está exausta e com culpa, o que configura sobrecarga do cuidador — um problema real e frequente em cuidados paliativos. O suporte ao cuidador é parte essencial do cuidado, e a equipe interdisciplinar deve acolher a filha, oferecer suporte emocional, orientação e, se necessário, auxílio prático. Além disso, a revisão de terapias fúteis (como manter betabloqueador e IECA em um paciente com hipotensão e piora funcional) é uma decisão que deve ser tomada em conjunto, considerando os objetivos do cuidado: conforto, dignidade e qualidade de vida, e não a mera sobrevida.
A alternativa C captura exatamente isso: integração das avaliações, construção conjunta do plano, alinhamento de objetivos, suporte ao cuidador e revisão de terapias fúteis. É a resposta que reflete a prática recomendada pelas diretrizes de cuidados paliativos, como as da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).
Agora, vamos analisar cada alternativa, destacando o erro específico de cada uma.
Trabalho em equipe em cuidados paliativos: Multidisciplinar (Atuação paralela, Metas próprias, Fragmenta o cuidado); Interdisciplinar (Integra avaliações, Plano conjunto, Alinhamento de objetivos, Padrão-ouro); Decisão compartilhada (Envolve equipe e família, Busca consenso, Não é decisão da maioria)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A propõe uma atuação multidisciplinar com condutas separadas e a família escolhendo entre elas. Isso é exatamente o oposto do que se espera: a multidisciplinaridade sem integração leva à fragmentação do cuidado, confusão para a família e decisões conflitantes. Em cuidados paliativos, a abordagem deve ser interdisciplinar, com construção conjunta do plano, e não uma "oferta de opções" para a família escolher. A família não deve ser colocada na posição de arbitrar entre profissionais; ela deve ser incluída no processo de tomada de decisão compartilhada, mas com a equipe integrada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B centraliza a decisão no especialista em Cuidados Paliativos, hierarquizando as opiniões. Isso contraria o princípio da interdisciplinaridade, em que as decisões são tomadas de forma colaborativa, com a contribuição de todos os membros da equipe. O especialista em cuidados paliativos é um facilitador do processo, mas não um decisor autoritário. A hierarquização de opiniões é incompatível com a filosofia paliativa, que valoriza a horizontalidade e a construção coletiva.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa C descreve com precisão a atuação interdisciplinar: integração das avaliações, construção conjunta do plano de cuidados, alinhamento de objetivos, suporte ao cuidador e revisão de terapias fúteis. É exatamente o que o caso pede: a equipe deve se reunir, discutir o caso, integrar as perspectivas (fisioterapia, psicologia, enfermagem, cardiologia, geriatria) e construir um plano único, centrado no paciente e na família. O suporte à filha é essencial, e a revisão de terapias fúteis (como manter betabloqueador e IECA) é parte do cuidado paliativo de qualidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que questões emocionais e sociais são secundárias em fim de vida. Isso é um erro grave: em cuidados paliativos, o sofrimento emocional, social e espiritual é tão importante quanto o físico. A abordagem deve ser biopsicossocial, e não apenas focada no conforto físico. A filha está em sofrimento, e isso impacta diretamente o cuidado do paciente. Ignorar essas dimensões é negar a essência dos cuidados paliativos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E sugere que a decisão deve ser tomada com base no ponto de vista prevalente, mesmo sem consenso. Isso é perigoso: em cuidados paliativos, a tomada de decisão deve ser compartilhada, com discussão aberta e busca de consenso sempre que possível. A pressa em decidir não justifica ignorar o dissenso. O processo de decisão deve ser deliberativo, envolvendo a equipe e a família, e não simplesmente a opinião da maioria.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre multidisciplinar e interdisciplinar. A alternativa A parece plausível, mas propõe uma atuação fragmentada, que é justamente o que se deve evitar. Lembre-se: em cuidados paliativos, a palavra-chave é integração. Se a alternativa falar em "condutas separadas", "hierarquização" ou "decisão pela maioria", desconfie.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de cuidados paliativos, lembre-se dos pilares: controle de sintomas, comunicação, suporte à família e trabalho em equipe interdisciplinar. Quando a questão falar de equipe, procure a alternativa que mencione "integração", "construção conjunta" e "alinhamento de objetivos".