Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2026

MedicinaFarmacologia e Anestesiologia
Código
qg693831
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Paliativa/Paliativismo
Paciente de 71 anos, portador de câncer de pâncreas metastático, em cuidados paliativos, apresenta náuseas persistentes há 5 dias e dois episódios de vômitos na manhã. Refere que a náusea piora após comer, tem sensação constante de estômago cheio e arroto frequente. Nega dor intensa, constipação grave ou vômitos em jato. Ao exame: abdome levemente distendido, com ruídos hidroaéreos presentes, sem defesa. História relevante: uso recente de opioides e hipercalcemia leve corrigida com hidratação. O médico suspeita de náusea relacionada à gastroparesia e lentificação do esvaziamento gástrico, secundária ao próprio tumor e ao uso de opioide. Considerando o mecanismo principal envolvido e seu tratamento apropriado, qual é a conduta mais adequada?
  1. AIniciar ondansetrona, pois antagonistas serotoninérgicos são primeira linha para qualquer causa de náuseas, devido ao seu perfil de poucos efeitos adversos.
  2. BIntroduzir metoclopramida em horários fixos, pois seu efeito procinético e antagonismo dopaminérgico são adequados para náuseas por gastroparesia.
  3. CUtilizar dexametasona como monoterapia, já que corticosteroides são eficazes em todas as causas de náuseas no câncer avançado.
  4. DPrescrever haloperidol em dose baixa, pois é a melhor opção quando a náusea é por lentificação gástrica e retardo do trânsito.
  5. EAumentar a dose do opioide associando à butilescopolamina, pois náuseas relacionadas ao câncer respondem melhor à analgesia multimodal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Introduzir metoclopramida em horários fixos, pois seu efeito procinético e antagonismo dopaminérgico são adequados para náuseas por gastroparesia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Náuseas e vômitos em cuidados paliativos: abordagem por mecanismo

Gabarito: letra B. A metoclopramida é a conduta mais adequada porque o quadro descrito — náusea pós-prandial, empachamento, saciedade precoce e arrotos — aponta para gastroparesia, e a metoclopramida combina efeito procinético (acelera o esvaziamento gástrico) com antagonismo dopaminérgico, atacando exatamente o mecanismo envolvido. A abordagem correta em cuidados paliativos é tratar a náusea pelo mecanismo mais provável, e não por um antiemético genérico.

A náusea e o vômito em pacientes com câncer avançado são sintomas multifatoriais, mas a avaliação clínica permite identificar o mecanismo predominante em cerca de 2/3 dos casos. Os principais mecanismos envolvidos são: (1) ativação da zona de gatilho quimiorreceptora (ZGQ) — estimulada por toxinas, drogas (como opioides), uremia, hipercalcemia e radioterapia; (2) estimulação de receptores do trato gastrointestinal — via vagal e esplâncnica, ativada por distensão, irritação ou lentificação do trânsito; (3) sistema vestibular — receptores H1 e muscarínicos M1, estimulados por movimento; e (4) centros corticais superiores — relacionados a odores, emoções e aumento da pressão intracraniana.

No caso apresentado, o paciente tem câncer de pâncreas metastático, usa opioides (que lentificam o esvaziamento gástrico e estimulam a ZGQ) e apresenta sintomas clássicos de gastroparesia: náusea que piora após comer, sensação constante de estômago cheio (empachamento) e arrotos frequentes. A hipercalcemia leve já foi corrigida, e não há sinais de obstrução mecânica (vômitos em jato, constipação grave, ausência de ruídos hidroaéreos). Portanto, o mecanismo mais provável é a lentificação do esvaziamento gástrico, e o tratamento deve ser dirigido a esse mecanismo.

A metoclopramida é um antagonista dopaminérgico (bloqueia receptores D2 na ZGQ) e um procinético (aumenta a motilidade gástrica e acelera o esvaziamento). Essa dupla ação a torna a droga de escolha para náuseas por gastroparesia, tanto em cuidados paliativos quanto no pós-operatório. A recomendação é administrá-la em horários fixos (não apenas quando o paciente sentir náusea), pois a prevenção é mais eficaz que o tratamento do sintoma já instalado.

A alternativa correta espelha exatamente essa lógica: a metoclopramida é indicada para náuseas por gastroparesia, e seu mecanismo (procinético + antagonista dopaminérgico) é o que a torna adequada. As demais alternativas erram ao indicar drogas cujo mecanismo não corresponde ao quadro, ou ao fazer afirmações genéricas incorretas sobre a abordagem das náuseas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os mecanismos de náusea. O candidato que decora "ondansetrona para náusea de quimioterapia" e "haloperidol para náusea por opioide" pode marcar a letra A ou D, mas o quadro clínico aqui é de gastroparesia — e o tratamento correto é o procinético. A chave é ler os sintomas: náusea pós-prandial + empachamento + arrotos = esvaziamento gástrico lento = metoclopramida.

Náuseas em cuidados paliativos
  • 1Mecanismos
    • Zona de gatilho (ZGQ)
      • Toxinas, opioides, uremia, hipercalcemia
    • Trato gastrointestinal
      • Distensão, irritação, lentificação do trânsito
    • Vestibular
      • H1 e M1, movimento
    • Cortical
      • Odores, emoções, PIC elevada
  • 2Tratamento por mecanismo
    • Gastroparesia
      • Metoclopramida (procinético + D2)
    • Quimioterapia
      • Ondansetrona (5-HT3)
    • Opioide/ZGQ
      • Haloperidol (D2)
    • PIC elevada/obstrução
      • Dexametasona
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A ondansetrona é um antagonista do receptor 5-HT3, eficaz para náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia e pós-operatórios, mas não é primeira linha para qualquer causa de náuseas. No caso de gastroparesia, ela não acelera o esvaziamento gástrico e, portanto, não trata o mecanismo principal. Além disso, a afirmação de que é "primeira linha para qualquer causa" é uma generalização incorreta — a abordagem correta é dirigida ao mecanismo mais provável.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A metoclopramida é um antagonista dopaminérgico (bloqueia D2 na ZGQ) e um procinético (aumenta a motilidade gástrica). Essa dupla ação a torna a droga de escolha para náuseas por gastroparesia, pois ataca tanto o componente central (dopamina) quanto o componente periférico (esvaziamento gástrico lento). A administração em horários fixos é recomendada para prevenir a náusea recorrente, em vez de tratar apenas episódios agudos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A dexametasona é um corticosteroide útil para náuseas e vômitos associados a aumento da pressão intracraniana, obstrução intestinal maligna e alguns casos de náusea induzida por quimioterapia. No entanto, não é eficaz em todas as causas de náuseas no câncer avançado — e, especificamente, não trata a gastroparesia, pois não tem efeito procinético. A afirmação de que é eficaz em "todas as causas" é uma generalização incorreta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O haloperidol é um antagonista dopaminérgico que atua na ZGQ e é útil para náuseas induzidas por opioides e por toxinas metabólicas. No entanto, não é a melhor opção para lentificação gástrica, pois não tem efeito procinético — ele bloqueia a dopamina na ZGQ, mas não acelera o esvaziamento gástrico. Para gastroparesia, a metoclopramida é superior por combinar o antagonismo dopaminérgico com o efeito procinético.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Aumentar a dose do opioide pioraria a gastroparesia, pois os opioides lentificam ainda mais o esvaziamento gástrico. A butilescopolamina é um antiespasmódico (anticolinérgico) que, na verdade, pode piorar a lentificação do trânsito gastrointestinal. A analgesia multimodal é uma estratégia válida para dor, mas não é o tratamento da náusea por gastroparesia — e aumentar a dose do opioide é exatamente o oposto do que se deve fazer.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/qg693831