Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FUNDATEC 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg693841
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Paliativa/Paliativismo
Paciente de 67 anos, portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em estágio avançado, encontra-se internado em UTI por insuficiência respiratória aguda, foi intubado há 10 dias e agora apresenta falência ventilatória irreversível, sem possibilidade de desmame. A família solicita extubação paliativa, em conformidade com o plano de cuidados previamente discutido com o paciente quando ainda era capaz de expressar suas preferências. O paciente está sedado com propofol em infusão contínua (40 µg/kg/min) e utiliza fentanil (50 µg/h). Após a decisão colegiada e documentação completa, planeja-se realizar extubação paliativa à beira-leito. Considerando as melhores práticas de extubação paliativa, assinale a alternativa correta.
AA suspensão imediata de todos os sedativos antes da extubação é recomendada, pois permite melhor avaliação do estado de consciência e reduz risco de depressão respiratória medicamentosa durante o processo de morte.
BA administração de bólus pré-extubação de opioides e sedativos deve ser evitada, pois pode acelerar o processo de morrer e configuraria eutanásia, devendo-se manter apenas as infusões já em curso.
CApós a retirada do tubo, a taquipneia e o uso de musculatura acessória são esperados e não devem ser tratados, pois decorrem do processo fisiológico de morte por hipóxia terminal.
DO uso de opioides em doses tituladas antes e após a extubação, visando alívio de dispneia e sofrimento, é prática recomendada e eticamente distinta de eutanásia, mesmo que possa ocorrer redução da ventilação.
EA decisão de extubação paliativa deve ser seguida de Ventilação Não Invasiva (VNI) como ponte, para evitar desconforto imediato, exceto em casos de contraindicação absoluta documentada.
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GabaritoD — O uso de opioides em doses tituladas antes e após a extubação, visando alívio de dispneia e sofrimento, é prática recomendada e eticamente distinta de eutanásia, mesmo que possa ocorrer redução da ventilação.
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Extubação paliativa: princípios e prática
Gabarito: letra D. A extubação paliativa é um procedimento ético e legalmente aceito, e o uso de opioides em doses tituladas para alívio de dispneia e sofrimento é prática recomendada, sendo eticamente distinto de eutanásia, mesmo que possa ocorrer redução da ventilação. O princípio do duplo efeito fundamenta essa prática: a intenção é aliviar o sofrimento, não acelerar a morte, e a dose é titulada para o conforto, não para a supressão respiratória.
A extubação paliativa é um procedimento complexo que visa aliviar o sofrimento de pacientes com falência ventilatória irreversível, quando a ventilação mecânica se torna fútil e o objetivo do cuidado muda para o conforto. O processo envolve a retirada do tubo orotraqueal e a suspensão da ventilação mecânica, com o objetivo de permitir uma morte digna e sem dor. A decisão deve ser colegiada, documentada e, sempre que possível, alinhada com a vontade previamente expressa do paciente, como no caso de diretivas antecipadas de vontade.
O manejo farmacológico é crucial. O objetivo é manter o paciente confortável, prevenindo e tratando sintomas como dispneia, dor e agitação. Opioides (como morfina ou fentanil) e sedativos (como midazolam ou propofol) são utilizados em doses tituladas, ou seja, ajustadas conforme a necessidade do paciente, para aliviar o desconforto. A dose é aumentada gradualmente até que o paciente esteja confortável, sem o objetivo de acelerar a morte. Essa prática é eticamente distinta da eutanásia, pois a intenção é aliviar o sofrimento, não causar a morte. O princípio do duplo efeito é a base ética: uma ação boa (aliviar a dor) pode ter um efeito secundário previsível e indesejado (depressão respiratória), mas que não é intencionado.
Na prática, a extubação paliativa envolve: 1) suspender a ventilação mecânica e retirar o tubo; 2) administrar opioides e sedativos em doses tituladas para controlar dispneia, dor e agitação; 3) fornecer oxigênio e cuidados de conforto, como aspiração de secreções e posicionamento adequado; 4) monitorar o paciente e ajustar as medicações conforme necessário. A taquipneia e o uso de musculatura acessória podem ocorrer após a extubação, mas devem ser tratados com opioides e sedativos, pois são sinais de desconforto respiratório, não um processo fisiológico a ser ignorado. A ventilação não invasiva (VNI) geralmente não é indicada após a extubação paliativa, pois o objetivo é o conforto, não o suporte ventilatório.
A distinção entre extubação paliativa e eutanásia é fundamental. Na extubação paliativa, a intenção é aliviar o sofrimento, e a morte ocorre como consequência natural da doença de base. Na eutanásia, a intenção é causar a morte para aliviar o sofrimento. O princípio do duplo efeito é o que diferencia as duas práticas: na primeira, o efeito bom (alívio do sofrimento) é intencionado, e o efeito ruim (morte) é apenas tolerado; na segunda, o efeito ruim (morte) é intencionado como meio para atingir o fim (alívio do sofrimento).
A pegadinha desta questão está em confundir o manejo farmacológico da extubação paliativa com eutanásia. A banca explora o receio de que o uso de opioides e sedativos possa ser interpretado como uma forma de acelerar a morte. No entanto, a prática correta é usar essas medicações em doses tituladas para o conforto, e isso é eticamente aceito. A alternativa D é a única que reflete corretamente essa prática.
Extubação paliativa
1Objetivo
Conforto e alívio do sofrimento
Morte digna e natural
2Manejo farmacológico
Opioides e sedativos
Doses tituladas
Antes e após extubação
Alívio de dispneia e dor
3Princípio do duplo efeito
Intenção: aliviar sofrimento
Efeito tolerado: depressão respiratória
4Distinção da eutanásia
Intenção de conforto
Eutanásia: intenção de causar morte
5Condutas
Bólus pré-extubação
Tratar taquipneia e desconforto
Suspender sedativos abruptamente
VNI como ponte
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A suspensão imediata de todos os sedativos antes da extubação é contraindicada. O paciente pode estar em sofrimento, e a suspensão abrupta pode causar agitação, dor e desconforto. A recomendação é manter ou ajustar a sedação e a analgesia para garantir o conforto durante o processo. A avaliação do estado de consciência não é o objetivo principal na extubação paliativa; o foco é o conforto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A administração de bólus pré-extubação de opioides e sedativos é recomendada, não evitada. Esses bólus ajudam a garantir que o paciente esteja confortável antes da retirada do tubo, prevenindo o desconforto agudo. A prática não configura eutanásia, pois a intenção é aliviar o sofrimento, não acelerar a morte. Manter apenas as infusões em curso pode não ser suficiente para controlar a dor e a dispneia durante o procedimento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A taquipneia e o uso de musculatura acessória após a retirada do tubo são sinais de desconforto respiratório e devem ser tratados com opioides e sedativos. Não são um processo fisiológico de morte que deva ser ignorado. O objetivo é aliviar o sofrimento, e esses sinais indicam que o paciente está em desconforto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O uso de opioides em doses tituladas antes e após a extubação, visando alívio de dispneia e sofrimento, é prática recomendada e eticamente distinta de eutanásia, mesmo que possa ocorrer redução da ventilação. Essa é a essência do princípio do duplo efeito: a intenção é aliviar o sofrimento, e a possível depressão respiratória é um efeito secundário tolerado, não intencionado. A dose é titulada para o conforto, não para a supressão respiratória.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ventilação não invasiva (VNI) não é recomendada como ponte após a extubação paliativa. O objetivo é o conforto, não o suporte ventilatório. A VNI pode causar desconforto e prolongar o processo de morte, o que vai contra os princípios dos cuidados paliativos. A extubação paliativa visa permitir uma morte natural e digna, sem intervenções que possam causar sofrimento adicional.