Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qg693849
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Paliativa/Paliativismo
Paciente em caquexia, albumina 2,0 g/dL, síndrome hepatorrenal, em uso de morfina subcutânea contínua para dor generalizada, desenvolve mioclonias, alucinações e hiperalgesia. Sobre a melhor conduta, assinale a alternativa correta.
AReduzir a dose de morfina e manter o mesmo opioide.
BIntroduzir benzodiazepínico e manter esquema de morfina.
CRotacionar para fentanil ou buprenorfina, ajustando via e dose.
DSubstituir por oxicodona em dose equianalgésica menos 50%.
ESuspender opioides imediatamente.
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GabaritoC — Rotacionar para fentanil ou buprenorfina, ajustando via e dose.
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Rotação de opioides na toxicidade por morfina
Gabarito: letra C. O paciente apresenta síndrome de toxicidade por morfina (mioclonias, alucinações e hiperalgesia), agravada por insuficiência renal e hipoalbuminemia, e a conduta correta é a rotação para outro opioide (fentanil ou buprenorfina), com ajuste de via e dose. A rotação de opioides é a estratégia recomendada quando há efeitos adversos intoleráveis ou falha analgésica, e deve ser feita com redução da dose equianalgésica (em torno de 25–50%) devido à tolerância cruzada incompleta.
A toxicidade por opioides é um quadro clínico que ocorre quando há acúmulo do fármaco ou de seus metabólitos ativos, especialmente em pacientes com insuficiência renal, desnutrição (como na caquexia) e hipoalbuminemia. A morfina é metabolizada no fígado em dois metabólitos principais: morfina-3-glicuronídeo (M3G) e morfina-6-glicuronídeo (M6G). O M6G é um potente analgésico e também causa efeitos adversos, enquanto o M3G, embora não tenha ação analgésica significativa, está associado a neurotoxicidade — mioclonias, alucinações, hiperalgesia e convulsões. Ambos são excretados pelos rins, e na insuficiência renal (como na síndrome hepatorrenal) há acúmulo desses metabólitos, exacerbando a toxicidade. Além disso, a hipoalbuminemia aumenta a fração livre do fármaco, potencializando seus efeitos.
A conduta diante desse quadro não é simplesmente reduzir a dose do mesmo opioide (alternativa A), pois a toxicidade é causada pelos metabólitos acumulados e a redução pode não resolver o problema, além de comprometer a analgesia. Também não se deve introduzir benzodiazepínico e manter a morfina (alternativa B), pois os benzodiazepínicos podem piorar a sedação e a depressão respiratória, e não tratam a causa. A suspensão imediata dos opioides (alternativa E) é contraindicada, pois causaria síndrome de abstinência e dor não controlada. A substituição por oxicodona em dose equianalgésica menos 50% (alternativa D) é uma opção de rotação, mas a oxicodona também tem metabólitos ativos que se acumulam na insuficiência renal, e a redução de 50% pode ser insuficiente ou inadequada nesse contexto. A melhor escolha é a rotação para fentanil ou buprenorfina, que são opioides com perfil farmacocinético mais favorável em insuficiência renal, pois não possuem metabólitos ativos significativos que se acumulam. A via e a dose devem ser ajustadas, com redução da dose equianalgésica (geralmente 25–50%) devido à tolerância cruzada incompleta.
A rotação de opioides é uma prática baseada em evidências, recomendada por diretrizes de cuidados paliativos e tratamento da dor oncológica. O princípio é trocar o opioide atual por outro, mantendo a analgesia e reduzindo os efeitos adversos. A dose do novo opioide é calculada com base na dose equianalgésica do opioide anterior, mas com uma redução de 25–50% para compensar a tolerância cruzada incompleta e evitar superdosagem. No caso de insuficiência renal, prefere-se opioides que não dependam da excreção renal de metabólitos ativos, como fentanil, buprenorfina e metadona (esta última com cautela). A via de administração também deve ser reconsiderada: a via subcutânea contínua pode ser mantida, mas a dose deve ser ajustada.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que a toxicidade por morfina em paciente com insuficiência renal e hipoalbuminemia não é resolvida com simples redução de dose ou manutenção do mesmo opioide, mas sim com a troca para um opioide mais seguro nesse contexto. A alternativa D (oxicodona) parece plausível, mas a oxicodona também tem metabólitos ativos que se acumulam na insuficiência renal, e a redução de 50% pode não ser suficiente. A alternativa C é a mais correta porque fentanil e buprenorfina são opioides com menor risco de acúmulo de metabólitos tóxicos em disfunção renal.
Toxicidade por morfina
1Causas
Acúmulo de metabólitos (M3G, M6G)
Insuficiência renal
Hipoalbuminemia
2Manifestações
Mioclonias
Alucinações
Hiperalgesia
3Conduta
Rotação de opioide
Fentanil ou buprenorfina
Ajustar via e dose
Reduzir 25–50% (tolerância cruzada)
Manter morfina
Suspender opioides
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Reduzir a dose de morfina e manter o mesmo opioide não resolve a toxicidade, pois os metabólitos acumulados (M3G e M6G) continuarão presentes e podem manter os sintomas neurotóxicos. Além disso, a redução da dose pode comprometer o controle da dor. A conduta correta é a rotação para outro opioide.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Introduzir benzodiazepínico e manter a morfina é inadequado, pois os benzodiazepínicos podem piorar a sedação e a depressão respiratória, e não tratam a causa da toxicidade (acúmulo de metabólitos). A morfina deve ser substituída, não mantida.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A rotação para fentanil ou buprenorfina é a conduta recomendada, pois esses opioides não possuem metabólitos ativos que se acumulam na insuficiência renal, sendo mais seguros nesse contexto. A via e a dose devem ser ajustadas, com redução da dose equianalgésica (25–50%) devido à tolerância cruzada incompleta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A oxicodona também tem metabólitos ativos que se acumulam na insuficiência renal, podendo perpetuar a toxicidade. Embora a rotação seja uma estratégia válida, a escolha do opioide deve considerar o perfil farmacocinético em disfunção renal, e a redução de 50% pode não ser suficiente ou adequada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Suspender opioides imediatamente é contraindicado, pois causaria síndrome de abstinência e dor não controlada. A conduta é a rotação, não a suspensão abrupta.