Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2026
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qg693852
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Paliativa/Paliativismo
Mulher de 78 anos, portadora de câncer de mama com múltiplas metástases ósseas, em cuidados paliativos, frágil (ECOG 4), apresenta dor torácica intensa (EVA 9/10), refratária ao uso de dipirona em dose máxima. Exames laboratoriais mostram creatinina 1,6 mg/dL e TFG de 27 mL/min/1,73m² . Considerando o manejo da dor e a farmacologia dos opioides em pacientes com deterioração da função renal, assinale a alternativa correta em relação ao tratamento dessa paciente.
AFentanil deve ser evitado em idosos com função renal reduzida, porque a absorção transdérmica pode ser lenta e imprevisível, dificultando o controle da dor em pacientes frágeis.
BCodeína é uma alternativa segura, pois tem metabolismo hepático predominante e menor risco de neurotoxicidade em insuficiência renal.
CMorfina é preferível devido à potência e facilidade de titulação, devendo-se ajustar a dose conforme idade e peso.
DTramadol não gera metabólitos ativos significativos, sendo seguro para uso em qualquer grau de disfunção renal e boa alternativa para idosos frágeis.
EBuprenorfina é a opção mais segura e eficaz, por ter eliminação predominantemente hepática, baixo risco de acúmulo de metabólitos ativos e perfil previsível de titulação em idosos frágeis.
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GabaritoE — Buprenorfina é a opção mais segura e eficaz, por ter eliminação predominantemente hepática, baixo risco de acúmulo de metabólitos ativos e perfil previsível de titulação em idosos frágeis.
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Manejo da dor oncológica em paciente idosa com insuficiência renal
Gabarito: letra E. Em paciente idosa, frágil (ECOG 4), com dor oncológica intensa e TFG de 27 mL/min/1,73 m² (insuficiência renal moderada a grave), a buprenorfina é a opção mais segura e eficaz, pois tem eliminação predominantemente hepática, baixo risco de acúmulo de metabólitos ativos e perfil previsível de titulação — características que a tornam preferível à morfina, codeína e tramadol nesse cenário.
A questão aborda um dilema clínico frequente em cuidados paliativos: como tratar dor intensa em paciente com função renal comprometida. A insuficiência renal altera profundamente a farmacocinética dos opioides, pois muitos deles (ou seus metabólitos ativos) são eliminados por via renal. O acúmulo desses metabólitos pode causar neurotoxicidade, sedação excessiva, mioclonia e até depressão respiratória — eventos graves que precisam ser evitados, especialmente em idosos frágeis.
A buprenorfina é um opioide agonista parcial dos receptores μ, disponível em formulações transdérmicas e sublinguais. Sua principal vantagem em pacientes com disfunção renal é a eliminação predominantemente hepática (metabolismo via CYP3A4 e glucuronidação), com excreção renal de apenas cerca de 30% da droga inalterada e de seus metabólitos. Isso significa que, mesmo em insuficiência renal avançada, não há acúmulo significativo de metabólitos ativos, o que reduz o risco de neurotoxicidade. Além disso, seu perfil de segurança em idosos é bem documentado, com menor incidência de constipação e sedação em comparação à morfina. A titulação, embora mais lenta que a de opioides de ação curta, é previsível e segura, especialmente com o adesivo transdérmico, que mantém níveis plasmáticos estáveis.
Em contrapartida, a morfina é o opioide de referência, mas seus metabólitos ativos (morfina-6-glucuronídeo e morfina-3-glucuronídeo) são eliminados por via renal. Em pacientes com TFG < 30 mL/min, esses metabólitos se acumulam, causando neurotoxicidade (mioclonia, alucinações, sedação). A codeína é uma pró-droga que depende da conversão hepática em morfina (via CYP2D6), e seu metabólito ativo também se acumula na insuficiência renal, além de ter eficácia analgésica imprevisível. O tramadol é um opioide fraco que também gera metabólitos ativos (O-desmetiltramadol) eliminados por via renal, com risco de acúmulo e convulsões em altas doses; sua segurança em disfunção renal é limitada. O fentanil é um opioide potente, mas a absorção transdérmica é lenta e variável, especialmente em idosos frágeis com baixa perfusão cutânea, o que dificulta o controle rápido da dor aguda — embora seja uma opção válida para dor crônica estável.
A Escada Analgésica da OMS orienta o tratamento da dor oncológica em degraus: (1) não opioides (paracetamol, AINEs), (2) opioides fracos (codeína, tramadol) e (3) opioides fortes (morfina, oxicodona, fentanil, buprenorfina). Em dor intensa (EVA 9/10) refratária a não opioides, o paciente já está no terceiro degrau. A escolha do opioide forte deve considerar a função renal, a idade e a fragilidade. A buprenorfina, por seu perfil farmacocinético favorável, é frequentemente recomendada em diretrizes de geriatria e cuidados paliativos para idosos com disfunção renal.
A pegadinha desta questão está em associar "potência" e "titulação" à morfina (alternativa C), que é o opioide mais conhecido, mas que é justamente o mais problemático na insuficiência renal. O candidato que não conhece a farmacocinética dos metabólitos ativos tende a escolher a morfina por ser o padrão-ouro, ignorando o risco de acúmulo. A banca explora exatamente essa confusão entre eficácia analgésica e segurança em populações especiais.
Guarde a distinção central: opioides com metabólitos ativos eliminados por via renal (morfina, codeína, tramadol) são de alto risco na insuficiência renal; opioides com eliminação predominantemente hepática (buprenorfina, fentanil, metadona) são mais seguros. É esse critério que separa as alternativas corretas das incorretas.
Opioide
Eliminação
Metabólitos ativos
Risco na insuficiência renal (TFG 27)
Adequação ao caso
Buprenorfina (correta)
Predominantemente hepática
Baixo risco de acúmulo
Seguro; baixo risco de neurotoxicidade
✅ Ideal para idoso frágil
Morfina
Renal (metabólitos)
M6G e M3G acumulam
Alto risco de neurotoxicidade, mioclonia, sedação
❌ Evitar
Codeína
Pró-droga → morfina (renal)
Morfina acumula
Alto risco de depressão do SNC; eficácia imprevisível
❌ Evitar
Tramadol
Renal (metabólito ativo)
O-desmetiltramadol acumula
Risco de convulsão e síndrome serotoninérgica
❌ Evitar
Fentanil
Hepática
Sem metabólitos ativos significativos
Seguro quanto à função renal, mas via transdérmica é lenta/imprevisível em frágeis
⚠️ Limitado pela via, não pela droga
Opioides na insuficiência renal: Alto risco (metabólitos renais) (Morfina, Codeína, Tramadol); Mais seguros (eliminação hepática) (Buprenorfina, Fentanil, Metadona); Fentanil transdérmico (Absorção lenta em idosos frágeis, Bom para dor crônica estável)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o fentanil deve ser evitado em idosos com função renal reduzida porque a absorção transdérmica é lenta e imprevisível. O erro está na justificativa: o fentanil não é contraindicado na insuficiência renal, pois sua eliminação é predominantemente hepática e não há acúmulo significativo de metabólitos ativos. A preocupação com a absorção transdérmica lenta e imprevisível é válida em idosos frágeis, mas isso não torna o fentanil "evitado" por causa da função renal — é uma limitação da via de administração, não da droga em si. Em dor aguda intensa, a via transdérmica não é ideal pela demora no início de ação, mas o fentanil pode ser usado por via parenteral ou transmucosa. A alternativa mistura dois conceitos: a farmacocinética da droga (segura no renal) com a farmacodinâmica da via (lenta na pele).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a codeína é segura na insuficiência renal por ter metabolismo hepático predominante. A codeína é uma pró-droga que precisa ser convertida em morfina no fígado (via CYP2D6), e a morfina gerada é eliminada por via renal. Além disso, a própria codeína e seus metabólitos (codeína-6-glucuronídeo) também se acumulam na disfunção renal, aumentando o risco de depressão do SNC. A eficácia analgésica da codeína é imprevisível (depende da atividade do CYP2D6, que varia geneticamente), e seu uso em idosos frágeis é desencorajado. A alternativa ignora que o metabólito ativo (morfina) é justamente o problema na insuficiência renal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a morfina é preferível devido à potência e facilidade de titulação, ajustando a dose conforme idade e peso. A morfina é, de fato, potente e de fácil titulação, mas é contraindicada (ou de altíssimo risco) em pacientes com TFG < 30 mL/min, como o caso (27 mL/min). Seus metabólitos ativos (M6G e M3G) se acumulam, causando neurotoxicidade, sedação excessiva e mioclonia. Ajustar a dose conforme idade e peso não resolve o problema do acúmulo de metabólitos. A alternativa desconsidera a farmacocinética renal, que é o ponto central da questão.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que o tramadol não gera metabólitos ativos significativos e é seguro em qualquer grau de disfunção renal. Isso é falso: o tramadol é metabolizado no fígado em O-desmetiltramadol, que é o principal responsável por sua ação analgésica e é eliminado por via renal. Em insuficiência renal, há acúmulo desse metabólito, aumentando o risco de convulsões e síndrome serotoninérgica. Além disso, o tramadol é um opioide fraco, inadequado para dor intensa (EVA 9/10) refratária a não opioides. A alternativa contém dois erros: nega a existência de metabólitos ativos e superestima sua segurança em disfunção renal.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A buprenorfina é a opção mais segura e eficaz para esta paciente. Sua eliminação é predominantemente hepática (metabolismo via CYP3A4 e glucuronidação), com excreção renal de apenas cerca de 30% da droga e metabólitos inativos. Isso significa baixo risco de acúmulo de metabólitos ativos na insuficiência renal, reduzindo o risco de neurotoxicidade. Em idosos frágeis, seu perfil de segurança é bem estabelecido, com menor incidência de constipação e sedação em comparação à morfina. A titulação, embora mais lenta que a de opioides de ação curta, é previsível e segura, especialmente com o adesivo transdérmico, que mantém níveis plasmáticos estáveis. A alternativa espelha exatamente as características farmacocinéticas e clínicas que a tornam a escolha ideal nesse cenário.