Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FUNDATEC 2026
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qg693861
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina de Família
Sobre a doença de Chagas, analise as seguintes assertivas:I. Pode ser transmitida, embora de forma menos frequente, por via oral, incluindo a ingestão de alimentos ou carne de caça contaminados pelo Trypanosoma cruzi.II. Em indivíduos com a doença na forma crônica, o esôfago é o órgão mais comumente afetado.III. O sinal de Romaña, o achado clássico na forma aguda da doença, consiste em edema indolor das pálpebras e dos tecidos perioculares e pode aparecer quando a conjuntiva for a porta de entrada dos parasitas.Quais estão corretas?
AApenas I.
BApenas II.
CApenas III.
DApenas I e III.
EApenas II e III.
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GabaritoD — Apenas I e III.
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Doença de Chagas: transmissão, formas clínicas e sinais clássicos
Gabarito: letra D — estão corretas as assertivas I e III. A transmissão oral é uma via reconhecida e cada vez mais relevante (especialmente na Amazônia Legal, com surtos por açaí e caldo de cana), e o sinal de Romaña é o achado clássico da porta de entrada ocular na fase aguda. A assertiva II está incorreta porque, na forma crônica, o órgão mais comumente afetado é o coração, não o esôfago — a forma digestiva, embora importante, é menos frequente que a cardíaca.
A doença de Chagas, ou tripanossomíase americana, é uma infecção persistente causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido ao ser humano por diversas vias: vetorial (fezes do triatomíneo, o "barbeiro"), transfusional/transplante, vertical (mãe para filho), oral e acidental. A via vetorial é a mais clássica, mas a oral ganhou destaque epidemiológico nas últimas décadas, sendo responsável pela maioria dos casos agudos recentes no Brasil, principalmente na Região Norte, por ingestão de alimentos contaminados como açaí, caldo de cana, sopas e carne de caça semicrua.
A doença apresenta duas fases clínicas: a aguda, identificada em apenas cerca de 5% dos casos, e a crônica, que pode permanecer na forma indeterminada (sem manifestações clínicas, a mais frequente) ou evoluir para formas determinadas, que surgem após anos ou décadas da infecção inicial. As formas determinadas mais comuns são a cardíaca (10% a 40% dos casos) e a digestiva (5% a 10%), sendo a cardíaca a de maior morbimortalidade. É exatamente essa prevalência que a assertiva II inverte.
Na fase aguda, os sinais de porta de entrada são fundamentais para o diagnóstico clínico. Quando a porta de entrada é a conjuntiva ocular, surge o sinal de Romaña: edema elástico, unilateral e indolor das pálpebras, frequentemente acompanhado de reação de linfonodo satélite (principalmente pré-auricular) e que pode se propagar à hemiface correspondente. Quando a porta de entrada é a pele, surge o chagoma de inoculação, uma lesão cutânea pouco saliente, endurecida e avermelhada. Esses sinais são clássicos da transmissão vetorial, mas podem estar ausentes em outras vias de transmissão, como a oral.
A banca explora aqui a confusão entre a prevalência das formas clínicas crônicas: o candidato que sabe que o esôfago é um órgão acometido na forma digestiva pode ser levado a marcar a assertiva II como correta, mas a frequência da forma cardíaca é muito maior. Guarde a hierarquia: na fase crônica, coração é o órgão mais afetado; o esôfago e o cólon vêm em segundo plano, na forma digestiva.
Doença de Chagas (T. cruzi): Transmissão (Vetorial (barbeiro), Oral (açaí, caldo de cana, carne de caça), Vertical (mãe-filho), Transfusional/transplante, Acidental); Fase aguda (Sinal de Romaña (porta ocular), Chagoma de inoculação (porta cutânea)); Fase crônica (Indeterminada (mais comum), Cardíaca (10-40%), Digestiva (5-10%: esôfago e cólon))
Item I — ✅ Correto
A transmissão oral é uma via reconhecida e, embora menos frequente que a vetorial em termos históricos, tornou-se a principal via de transmissão aguda no Brasil nos últimos anos, especialmente na Amazônia Legal. A ingestão de alimentos contaminados pelo Trypanosoma cruzi — como açaí, caldo de cana, sopas, leite e carne de caça semicrua — é uma forma documentada de transmissão, responsável por surtos e casos isolados. A assertiva está correta ao afirmar que a via oral é menos frequente (em comparação com a vetorial clássica) e que inclui alimentos ou carne de caça contaminados.
Item II — ❌ Incorreto
Na forma crônica da doença de Chagas, o órgão mais comumente afetado é o coração, não o esôfago. A forma cardíaca ocorre em 10% a 40% dos casos, enquanto a forma digestiva (que pode acometer esôfago e cólon) ocorre em 5% a 10%. A assertiva inverte a prevalência: o esôfago é um órgão-alvo da forma digestiva, mas não é o mais comumente afetado na fase crônica. A forma indeterminada, sem manifestações clínicas, é a mais frequente (50% a 70%), e entre as formas determinadas, a cardíaca predomina.
Item III — ✅ Correto
O sinal de Romaña é o achado clássico da fase aguda quando a porta de entrada é a conjuntiva ocular. Consiste em edema elástico, unilateral e indolor das pálpebras e tecidos perioculares, frequentemente com reação de linfonodo satélite (pré-auricular) e propagação à hemiface correspondente. A assertiva descreve corretamente o sinal e sua relação com a porta de entrada conjuntival.
Conclusão: corretos os itens I e III → gabarito: letra D.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca a prevalência dos órgãos afetados na forma crônica: afirma que o esôfago é o mais comumente afetado, quando na verdade é o coração. O candidato que sabe que o esôfago é acometido na forma digestiva pode marcar a assertiva II como correta, mas a frequência da forma cardíaca é muito maior. Fique atento à hierarquia: coração > esôfago/cólon na fase crônica.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar as formas clínicas da doença de Chagas, lembre-se da ordem de frequência: forma indeterminada (mais comum, assintomática) > forma cardíaca (10-40%) > forma digestiva (5-10%). Na fase aguda, os sinais de porta de entrada são o sinal de Romaña (ocular) e o chagoma de inoculação (cutâneo).