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Questão de Medicina — Hematologia — FUNDATEC 2026

MedicinaHematologia
Código
qg693863
Banca
FUNDATEC
Órgão
UNIMED - Santa Maria
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina de Família
Mulher, 67 anos, acompanhada na Atenção Primária, com antecedentes de hipertensão arterial sistêmica há 30 anos, diabetes melito tipo 2 há 28 anos e tabagismo ativo, possui diagnóstico conhecido de doença renal crônica estágio 4, com TFG estimada de 24 mL/min/1,73 m², sem indicação atual de diálise. Em consulta de rotina, apresenta hemoglobina de 10,5 g/dL, hematócrito de 34,8%, VCM de 89 fL, HCM de 28 pg, CHCM de 33 g/dL e RDW de 13,6%. A investigação complementar demonstra ferritina sérica de 180 ng/mL, saturação de transferrina de 28%, ferro sérico normal, contagem de reticulócitos normal, bilirrubinas e DHL normais, além de teste de Coombs direto negativo. Nega sangramentos, não apresenta icterícia ou esplenomegalia ao exame físico e não faz uso de medicações mielotóxicas. Diante do quadro apresentado, a principal hipótese diagnóstica é de anemia
  1. Ahemolítica autoimune.
  2. Bassociada à insuficiência renal crônica.
  3. Cpor deficiência de ferro.
  4. Dmegaloblástica.
  5. Eaplásica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — associada à insuficiência renal crônica.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Anemia na Doença Renal Crônica: diagnóstico diferencial

Gabarito: letra B. A paciente apresenta anemia normocítica e normocrômica (VCM 89 fL, HCM 28 pg, CHCM 33 g/dL) em contexto de doença renal crônica estágio 4 (TFG 24 mL/min/1,73 m²), com ferritina e saturação de transferrina adequadas, reticulócitos normais e Coombs direto negativo — o que afasta as demais hipóteses e aponta para a anemia da doença renal crônica, causada principalmente pela deficiência relativa de eritropoietina. O diagnóstico de anemia é confirmado pela hemoglobina de 10,5 g/dL, abaixo do limiar de 12 g/dL para mulheres na pós-menopausa.

A anemia é uma complicação frequente e precoce da doença renal crônica (DRC), presente em cerca de 40% dos pacientes com TFG entre 30 e 59 mL/min/1,73 m² e em mais de 75% daqueles com TFG inferior a 30 mL/min/1,73 m². Sua fisiopatologia é multifatorial, mas o mecanismo central é a produção inadequada de eritropoietina pelos rins doentes — hormônio responsável por estimular a eritropoiese na medula óssea. À medida que a TFG cai, a síntese de eritropoietina diminui progressivamente, resultando em anemia tipicamente normocítica e normocrômica (VCM e HCM normais), com contagem de reticulócitos normal ou baixa, pois a medula não é adequadamente estimulada. Outros fatores contribuintes incluem deficiência de ferro funcional, inflamação crônica (que eleva a hepcidina e bloqueia a liberação de ferro dos macrófagos), redução da meia-vida das hemácias pelo ambiente urêmico e sangramentos ocultos.

O diagnóstico da anemia da DRC é essencialmente clínico-laboratorial e de exclusão. O Ministério da Saúde, em seu Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia na Doença Renal Crônica, estabelece que a avaliação deve incluir hemograma completo, dosagem de ferritina e saturação da transferrina, justamente para afastar a deficiência de ferro — a principal causa concorrente. No caso apresentado, a ferritina de 180 ng/mL e a saturação de transferrina de 28% indicam reservas de ferro adequadas (o protocolo considera adequadas ferritina > 100 ng/mL e saturação > 20% em tratamento conservador), o que praticamente exclui a anemia ferropriva. A normalidade dos reticulócitos afasta a resposta medular compensatória esperada na hemólise, e o Coombs direto negativo, somado a bilirrubinas e DHL normais, exclui a anemia hemolítica autoimune. A ausência de macrocitose (VCM 89 fL) e a normalidade do RDW afastam a anemia megaloblástica, e a ausência de pancitopenia ou de medicações mielotóxicas torna a anemia aplásica improvável.

A distinção fundamental que esta questão explora é entre a anemia da doença crônica (que inclui a anemia da DRC) e as anemias carenciais (ferropriva e megaloblástica). Enquanto a ferropriva é microcítica e hipocrômica (VCM baixo, HCM baixo, RDW elevado) com ferritina e saturação de transferrina reduzidas, a anemia da DRC é normocítica e normocrômica, com índices hematimétricos normais e ferro sérico normal ou baixo, mas com ferritina normal ou elevada (marcador de fase aguda). A anemia megaloblástica, por sua vez, é macrocítica (VCM > 100 fL) por deficiência de B12 ou folato. A anemia hemolítica autoimune cursa com reticulocitose, aumento de bilirrubinas e DHL, e Coombs direto positivo. A anemia aplásica apresenta pancitopenia com reticulocitopenia acentuada e medula óssea hipocelular.

A pegadinha da banca está em oferecer a anemia ferropriva (alternativa C) como distrator, já que a deficiência de ferro é a causa mais comum de anemia na população geral e também pode ocorrer na DRC. No entanto, os parâmetros de ferro apresentados (ferritina 180 ng/mL, saturação de transferrina 28%) são normais e até generosos, descartando essa hipótese. A banca também explora a confusão entre anemia da doença crônica e anemia hemolítica, mas a ausência de sinais de hemólise (reticulócitos, bilirrubinas, DHL e Coombs normais) é decisiva. O raciocínio clínico deve seguir a sequência: (1) confirmar anemia (Hb < 12 g/dL em mulher pós-menopausa); (2) classificar pelo VCM (normocítica); (3) avaliar ferro (adequado); (4) avaliar resposta medular (reticulócitos normais — inadequados para o grau de anemia); (5) excluir hemólise e outras causas; (6) correlacionar com a TFG — e a resposta emerge naturalmente.

Guarde o critério que separa as alternativas: a anemia da DRC é normocítica e normocrômica, com ferro adequado e reticulócitos inapropriadamente normais, em paciente com TFG < 60 mL/min/1,73 m² — é exatamente esse perfil que a questão desenha e que as outras alternativas não conseguem explicar.

Critério

Anemia da DRC (gabarito)

Anemia ferropriva

Anemia hemolítica autoimune

Anemia megaloblástica

Anemia aplásica

VCM

Normal (normocítica)

Baixo (microcítica)

Normal ou alto

Alto (macrocítica)

Normal ou alto

Ferritina

Normal ou alta

Baixa

Normal

Normal

Normal

Saturação de transferrina

Normal

Baixa

Normal

Normal

Normal

Reticulócitos

Normal ou baixo

Normal ou baixo

Alto (reticulocitose)

Baixo

Muito baixo

Coombs direto

Negativo

Negativo

Positivo

Negativo

Negativo

Bilirrubinas/DHL

Normais

Normais

Elevados

Normais

Normais

Outros achados

TFG < 60 mL/min/1,73 m²

RDW elevado

Esplenomegalia possível

Neutrófilos hipersegmentados

Pancitopenia

Alternativa A — ❌ Incorreta

A anemia hemolítica autoimune é caracterizada por destruição precoce das hemácias por autoanticorpos, cursando com reticulocitose (resposta medular compensatória), aumento de bilirrubinas indiretas e DHL, e teste de Coombs direto positivo. A paciente apresenta reticulócitos normais, bilirrubinas e DHL normais e Coombs direto negativo — todos os marcadores de hemólise ausentes. Além disso, a anemia hemolítica costuma ser normocítica ou macrocítica, mas sempre com sinais de regeneração medular, o que não ocorre aqui.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A paciente tem DRC estágio 4 (TFG 24 mL/min/1,73 m²), anemia normocítica e normocrômica (VCM 89 fL, HCM 28 pg, CHCM 33 g/dL), ferro adequado (ferritina 180 ng/mL, saturação de transferrina 28%), reticulócitos normais e exclusão de hemólise, deficiência de ferro, megaloblastose e aplasia. Esse é o perfil clássico da anemia da doença renal crônica, causada principalmente pela deficiência relativa de eritropoietina. A hemoglobina de 10,5 g/dL confirma anemia (limiar < 12 g/dL para mulheres na pós-menopausa), e a TFG < 60 mL/min/1,73 m² é o contexto fisiopatológico que explica o quadro.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A anemia ferropriva é microcítica e hipocrômica (VCM e HCM baixos, RDW elevado), com ferritina baixa (< 30 ng/mL) e saturação de transferrina reduzida (< 20%). A paciente apresenta VCM, HCM e CHCM normais, RDW normal, ferritina de 180 ng/mL e saturação de transferrina de 28% — todos os parâmetros de ferro adequados ou elevados, descartando a deficiência de ferro. A ferritina normal ou alta na DRC reflete o estado inflamatório crônico, que eleva a ferritina como reagente de fase aguda, mascarando uma possível deficiência funcional — mas, no caso, os valores estão claramente dentro da normalidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A anemia megaloblástica é macrocítica (VCM > 100 fL), por deficiência de vitamina B12 ou folato, cursando com RDW elevado, neutrófilos hipersegmentados e, frequentemente, pancitopenia. A paciente apresenta VCM de 89 fL (normocítico), RDW de 13,6% (normal) e hemoglobina de 10,5 g/dL — sem macrocitose. Não há dados de deficiência de B12/folato, e o quadro é totalmente incompatível com megaloblastose.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A anemia aplásica é caracterizada por pancitopenia (anemia, leucopenia e trombocitopenia) com reticulocitopenia acentuada, decorrente de falência medular. A paciente apresenta apenas anemia isolada, com contagem de reticulócitos normal (não reduzida), sem leucopenia ou trombocitopenia, e não faz uso de medicações mielotóxicas. Não há evidência de aplasia de medula óssea, e o contexto de DRC avançada explica muito melhor o quadro.

Gabarito: letra B — anemia associada à insuficiência renal crônica, pelo perfil normocítico-normocrômico com ferro adequado e reticulócitos inapropriadamente normais em paciente com TFG 24 mL/min/1,73 m².

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