Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg726370
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia Pediátrica
Qual das seguintes situações impediria o uso da fração de encurtamento como parâmetro para avaliação da função do ventrículo esquerdo?
AComunicação interatrial ostium secundum de 6 mm e dilatação leve do átrio direito.
BComunicação interatrial ostium primum e movimento paradoxal do septo interventricular.
CEstenose pulmonar e hipertrofia leve do ventrículo direito.
DDrenagem anômala parcial das veias pulmonares infracardíacas obstrutivas.
EComunicação interventricular muscular apical.
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GabaritoB — Comunicação interatrial ostium primum e movimento paradoxal do septo interventricular.
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Fração de encurtamento (FE) e movimento paradoxal do septo interventricular
Gabarito: letra B. A fração de encurtamento (FE) é um parâmetro ecocardiográfico que mede a variação percentual do diâmetro interno do ventrículo esquerdo (VE) entre a sístole e a diástole, sendo um índice de função sistólica global do VE. Seu uso é invalidado quando há movimento paradoxal do septo interventricular, pois o septo, em vez de se contrair em direção ao centro do VE, desloca-se para fora durante a sístole, falseando a medida do diâmetro sistólico e, consequentemente, o cálculo da FE. Essa condição ocorre em situações de sobrecarga de volume do ventrículo direito (VD), como na comunicação interatrial (CIA) do tipo ostium primum, que cursa com dilatação do VD e movimento paradoxal do septo.
A fração de encurtamento (FE) é um dos métodos mais simples e rápidos para avaliar a função sistólica do ventrículo esquerdo (VE) à beira-leito, especialmente em ecocardiografia focada (POCUS). Ela é calculada pela fórmula: FE = (DDVE - DSVE) / DDVE × 100, onde DDVE é o diâmetro diastólico do VE e DSVE é o diâmetro sistólico. O valor normal é acima de 28% (ou 25%, dependendo da diretriz). A premissa fundamental desse método é que o VE se contrai de forma concêntrica e simétrica, com o septo interventricular movendo-se em direção à parede posterior durante a sístole.
O problema surge quando essa premissa é violada. O movimento paradoxal do septo interventricular é um achado em que o septo se move para fora (em direção ao VD) durante a sístole, em vez de se mover para dentro (em direção ao centro do VE). Isso ocorre tipicamente em condições de sobrecarga de volume do VD, como na comunicação interatrial (CIA) com shunt esquerda-direita significativo, na insuficiência tricúspide grave, e também após cirurgia cardíaca (pós-operatório de revascularização ou troca valvar). Nesses casos, o septo não contribui para a contração do VE, e a medida do DSVE fica artificialmente aumentada, subestimando a FE. Por isso, a FE não é um parâmetro confiável nesses cenários, e métodos alternativos como o Simpson biplano (que mede volumes) ou o EPSS (E-point septal separation) devem ser preferidos.
A comunicação interatrial (CIA) é uma cardiopatia congênita que permite a passagem de sangue do átrio esquerdo (AE) para o átrio direito (AD), causando sobrecarga de volume das câmaras direitas. A CIA ostium primum é um tipo de defeito localizado na porção inferior do septo interatrial, frequentemente associado a fenda na valva mitral (causando regurgitação mitral) e, por vezes, a defeito do septo atrioventricular. O shunt esquerda-direita crônico leva a dilatação do AD e do VD, e o VD dilatado pode causar movimento paradoxal do septo interventricular. Já a CIA ostium secundum, localizada na fossa oval, também causa sobrecarga de volume do VD, mas o movimento paradoxal do septo é menos frequente e geralmente associado a defeitos maiores.
A banca explora a distinção entre os tipos de CIA e seus efeitos hemodinâmicos. A alternativa B é a correta porque a CIA ostium primum, por ser um defeito mais complexo e frequentemente associado a outras anomalias (como fenda mitral), tem maior probabilidade de causar dilatação significativa do VD e, consequentemente, movimento paradoxal do septo, invalidando o uso da FE. As demais alternativas apresentam condições que não comprometem diretamente a validade da FE, pois não cursam com movimento paradoxal do septo ou com alteração significativa da geometria do VE.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao listar várias cardiopatias congênitas. O ponto-chave é identificar qual delas causa movimento paradoxal do septo interventricular, que é o fator que invalida a FE. A CIA ostium primum, por ser um defeito do septo atrioventricular, frequentemente causa dilatação importante do VD e movimento paradoxal do septo. Já a CIA ostium secundum pequena (6 mm) pode não causar sobrecarga significativa, e a estenose pulmonar leve, a drenagem anômala parcial e a CIV muscular apical não cursam com movimento paradoxal do septo.
Fração de encurtamento (FE)
1Premissa
Contração concêntrica do VE
Septo move-se para dentro na sístole
2Invalida por movimento paradoxal do septo
Septo move-se para fora na sístole
Causas
Sobrecarga de volume do VD
CIA ostium primum
Insuficiência tricúspide grave
Pós-operatório cardíaco
3Alternativas válidas
Simpson biplano
EPSS
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A comunicação interatrial ostium secundum de 6 mm com dilatação leve do átrio direito é um defeito pequeno, que geralmente não causa sobrecarga significativa de volume do VD a ponto de gerar movimento paradoxal do septo. A FE permanece válida nesse cenário, pois a geometria do VE não está comprometida. O tamanho do defeito (6 mm) é pequeno, e a dilatação leve do AD não é suficiente para alterar o movimento septal.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A comunicação interatrial ostium primum é um defeito do septo atrioventricular, frequentemente associado a fenda na valva mitral e a um shunt esquerda-direita mais significativo. Isso leva a dilatação importante do VD e, consequentemente, a movimento paradoxal do septo interventricular. Nessa condição, o septo se move para fora durante a sístole, invalidando o cálculo da fração de encurtamento, que assume contração concêntrica do VE. Portanto, a FE não é um parâmetro confiável nesse caso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A estenose pulmonar com hipertrofia leve do VD causa sobrecarga de pressão no VD, mas não necessariamente movimento paradoxal do septo. A hipertrofia concêntrica do VD pode até causar retificação do septo, mas o movimento paradoxal (septo se movendo para fora na sístole) é mais característico de sobrecarga de volume, não de pressão. Além disso, a hipertrofia leve não compromete a geometria do VE, e a FE permanece válida.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A drenagem anômala parcial das veias pulmonares infracardíacas obstrutivas é uma condição rara que causa congestão pulmonar e hipertensão pulmonar, mas não cursa com movimento paradoxal do septo. A FE pode ser utilizada, embora a hipertensão pulmonar possa afetar a função do VD, mas não invalida diretamente a medida da FE.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A comunicação interventricular (CIV) muscular apical é um defeito que causa shunt esquerda-direita, levando a sobrecarga de volume do VE e do AE, mas não do VD. O septo interventricular não apresenta movimento paradoxal, pois a sobrecarga é do lado esquerdo. A FE permanece válida, e na verdade pode estar aumentada devido ao hiperfluxo pulmonar.