Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg726376
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia Pediátrica
Sobre a endocardite infecciosa em crianças, assinale a alternativa correta.
ABactérias anaeróbicas raramente causam endocardite.
BEndocardite fúngica é mais comum em escolares do que em recém-nascidos.
CUma criança com valva aórtica bicúspide tem a mesma chance de adquirir endocardite infecciosa que uma criança com tetralogia de Fallot, ambas internadas em UTI na mesma condição clínica.
DO ecocardiograma é o principal método diagnóstico e essencial para confirmação do quadro. Ausência de vegetação descarta a hipótese.
EPseudomonas aeruginosa é a bactéria gramnegativa mais comumente associada em casos de endocardite.
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GabaritoA — Bactérias anaeróbicas raramente causam endocardite.
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Endocardite infecciosa em crianças: agentes etiológicos e diagnóstico
Gabarito: letra A. A endocardite infecciosa é causada predominantemente por bactérias aeróbias, especialmente estreptococos e estafilococos, que respondem por cerca de 80 a 90% dos casos; bactérias anaeróbicas são agentes raros, o que torna a alternativa A correta. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre a epidemiologia, o risco relativo entre cardiopatias, o valor do ecocardiograma e o principal bacilo gram-negativo associado.
A endocardite infecciosa (EI) é uma doença grave, de alta morbimortalidade, que resulta da colonização de microrganismos no endotélio cardiovascular previamente anormal ou danificado. Para que a infecção se estabeleça, são necessários dois elementos: um fator predisponente endocárdico (como cardiopatia congênita, valva aórtica bicúspide, valvulopatia reumática ou prótese valvar) e a presença de microrganismos na corrente sanguínea (bacteremia ou fungemia). O endocárdio íntegro é relativamente resistente à adesão bacteriana, e o fluxo sanguíneo constante dificulta a colonização — por isso a doença é rara em corações estruturalmente normais.
Os agentes etiológicos mais comuns são os estreptococos (incluindo o grupo viridans) e os estafilococos (coagulase positivos e negativos), que juntos respondem por cerca de 80 a 90% dos casos. Os enterococos, o grupo HACEK (Haemophilus, Actinobacillus, Cardiobacterium, Eikenella e Kingella) e os fungos representam a maioria dos demais casos. As bactérias anaeróbicas, por sua vez, são causas raras de endocardite — o que fundamenta a alternativa A. Essa distribuição etiológica é importante porque orienta a antibioticoterapia empírica inicial, que deve cobrir os agentes mais prevalentes.
O diagnóstico da EI é clínico, microbiológico e ecocardiográfico, sendo os critérios de Duke (atualizados em 2023) o padrão para definição do caso. A hemocultura é o padrão-ouro para o diagnóstico etiológico e para a definição da antibioticoterapia. O ecocardiograma é o principal exame de imagem, capaz de demonstrar vegetações, abscessos e disfunção valvar. Contudo, um ecocardiograma negativo não exclui o diagnóstico, especialmente em fases iniciais da doença, quando as vegetações podem ser pequenas demais para serem visualizadas. Em pacientes com bacteremia e menos de 5 dias de febre, o exame pode ser negativo, devendo ser repetido após 5 dias do início dos sintomas. Um segundo ecocardiograma transesofágico negativo torna a EI muito improvável, mas não a descarta por completo.
A epidemiologia da EI também merece atenção. A doença afeta mais o sexo masculino e é mais comum em adultos acima de 60 anos, mas pode ocorrer em qualquer idade, inclusive em crianças. Em países em desenvolvimento, a febre reumática ainda é um fator de risco importante, enquanto nos países desenvolvidos as cardiopatias congênitas são o principal fator predisponente. Entre as cardiopatias congênitas, o risco de endocardite não é uniforme: lesões com fluxo turbulento de alta velocidade, como a tetralogia de Fallot, conferem risco maior do que a valva aórtica bicúspide isolada. A endocardite fúngica, por sua vez, é mais comum em pacientes com fatores de risco específicos, como uso de drogas intravenosas, cateteres venosos centrais, imunossupressão e cirurgia cardíaca prévia — não sendo mais frequente em escolares do que em recém-nascidos.
A banca explora, nesta questão, o conhecimento da etiologia, da epidemiologia e do diagnóstico da endocardite infecciosa. A alternativa correta é a que afirma que bactérias anaeróbicas raramente causam endocardite, o que está de acordo com a literatura. As demais alternativas contêm erros que serão detalhados a seguir.
Endocardite infecciosa
1Etiologia
Aeróbias (80–90%)
Estreptococos
Estafilococos
Anaeróbicas
Raras
Grupo HACEK
Fungos
2Fatores de risco
Cardiopatia congênita
Tetralogia de Fallot (risco maior)
Valva aórtica bicúspide (risco menor)
Prótese valvar
Uso de drogas IV
Cateter venoso central
3Diagnóstico
Hemocultura (padrão-ouro)
Ecocardiograma
Ausência de vegetação não descarta
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação de que bactérias anaeróbicas raramente causam endocardite está correta. A endocardite infecciosa é causada, na grande maioria dos casos, por bactérias aeróbias ou facultativas, especialmente estreptococos e estafilococos. Os anaeróbios são agentes etiológicos incomuns, correspondendo a uma fração muito pequena dos casos. Essa distribuição etiológica é um dado clássico da literatura e fundamenta a escolha da antibioticoterapia empírica, que não inclui cobertura específica para anaeróbios na maioria dos cenários.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A afirmação de que a endocardite fúngica é mais comum em escolares do que em recém-nascidos está incorreta. A endocardite fúngica é uma entidade rara, associada a fatores de risco específicos como uso de drogas intravenosas, cateteres venosos centrais de longa permanência, imunossupressão e cirurgia cardíaca prévia. Não há evidência de que seja mais comum em escolares do que em recém-nascidos. Na verdade, a endocardite em recém-nascidos está mais associada a procedimentos invasivos e cateteres, enquanto em escolares os fatores de risco são semelhantes aos de adultos, como cardiopatias congênitas. A distribuição etária da endocardite fúngica não segue o padrão descrito na alternativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmação de que uma criança com valva aórtica bicúspide tem a mesma chance de adquirir endocardite infecciosa que uma criança com tetralogia de Fallot está incorreta. O risco de endocardite não é uniforme entre as cardiopatias. A tetralogia de Fallot, por ser uma cardiopatia congênita complexa, com shunt e fluxo turbulento, confere risco significativamente maior de endocardite do que a valva aórtica bicúspide isolada. A valva aórtica bicúspide é um fator de risco, mas de menor magnitude. A banca explora a confusão entre diferentes graus de risco entre as cardiopatias congênitas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A afirmação de que o ecocardiograma é o principal método diagnóstico e essencial para confirmação do quadro, e que a ausência de vegetação descarta a hipótese está incorreta em sua segunda parte. O ecocardiograma é, de fato, o principal exame de imagem, mas a ausência de vegetação não descarta o diagnóstico de endocardite. Em fases iniciais da doença, as vegetações podem ser pequenas demais para serem detectadas, e o exame pode ser negativo em pacientes com menos de 5 dias de febre. Nesses casos, o exame deve ser repetido após 5 dias do início dos sintomas. Um segundo ecocardiograma transesofágico negativo torna a EI muito improvável, mas não a exclui por completo. O diagnóstico é feito pela combinação de critérios clínicos, microbiológicos e ecocardiográficos (critérios de Duke), e não por um único exame.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que Pseudomonas aeruginosa é a bactéria gram-negativa mais comumente associada em casos de endocardite está incorreta. Embora a Pseudomonas aeruginosa possa causar endocardite, especialmente em usuários de drogas intravenosas, o grupo HACEK (Haemophilus, Actinobacillus, Cardiobacterium, Eikenella e Kingella) é o conjunto de bacilos gram-negativos mais classicamente associado à endocardite. A Pseudomonas é um agente menos comum, e a alternativa troca o agente etiológico mais frequente entre os gram-negativos.
Gabarito: letra A — a única alternativa correta é a que afirma que bactérias anaeróbicas raramente causam endocardite.