Questão de Medicina — Oncologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Oncologia
Código
qg726383
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cirurgia Cabeça e Pescoço
Paciente com carcinoma de laringe T3 operado há 10 dias evolui com dor orofaríngea intensa e mucosite grau 2 ao iniciar quimiorradioterapia adjuvante (cisplatina semanal). Qual medida imediata melhora tolerabilidade e não compromete o controle oncológico?
AAumentar intervalo de frações de radioterapia para três vezes por semana.
BSuspender cisplatina até resolução completa da mucosite e manter RT diária.
CTrocar cisplatina por carboplatina sem reavaliação funcional.
DReduzir dose total de radioterapia em 10% para acelerar término do tratamento.
EInstituir analgesia multimodal, bochechos com anestésico tópico e suporte nutricional.
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GabaritoE — Instituir analgesia multimodal, bochechos com anestésico tópico e suporte nutricional.
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Manejo da mucosite em quimiorradioterapia adjuvante
Gabarito: letra E. A conduta imediata correta é instituir analgesia multimodal, bochechos com anestésico tópico e suporte nutricional — medidas de suporte que aliviam a mucosite grau 2 sem comprometer a eficácia do tratamento oncológico. As demais alternativas propõem alterações no esquema de radioterapia ou quimioterapia que reduzem a intensidade do tratamento e, portanto, comprometem o controle tumoral.
A mucosite é uma reação inflamatória aguda da mucosa oral e orofaríngea, causada pela toxicidade direta da radioterapia e potencializada pela quimioterapia concomitante (no caso, cisplatina semanal). Ela ocorre porque a radiação ionizante danifica o DNA das células epiteliais de renovação rápida, levando à depleção celular, ulceração e inflamação. A cisplatina, como agente radiossensibilizante, aumenta o dano celular na área irradiada, intensificando a mucosite. O pico dos sintomas costuma ocorrer cerca de uma semana após o início do tratamento, e a condição é autolimitada, resolvendo-se em até duas semanas após o término.
O manejo da mucosite é essencialmente sintomático e de suporte. O objetivo é controlar a dor, manter a hidratação e a nutrição, e prevenir infecções secundárias. As medidas incluem analgesia sistêmica (com analgésicos comuns, opioides se necessário, e adjuvantes), analgesia tópica (bochechos com anestésicos locais como lidocaína viscosa), higiene oral adequada com soluções salinas ou bicarbonato, e suporte nutricional (dieta pastosa, suplementos, ou nutrição enteral/parenteral se a ingestão oral for insuficiente). Essas medidas não interferem na eficácia do tratamento oncológico, pois não alteram as doses ou o esquema de radioterapia e quimioterapia.
A grande armadilha desta questão é a tentação de modificar o tratamento oncológico para aliviar a toxicidade. O candidato pode ser levado a pensar que, diante de uma mucosite grau 2, é necessário pausar ou reduzir a quimioterapia ou a radioterapia. No entanto, a mucosite grau 2 é definida como dor moderada ou úlcera que não interfere na alimentação. Nesse grau, o tratamento oncológico deve ser mantido, e o manejo é feito com medidas de suporte. A interrupção ou redução de doses só é considerada em graus mais altos (3 ou 4), quando há dor intensa, interferência na alimentação ou complicações ameaçadoras. Portanto, a conduta correta é otimizar o suporte, não alterar o tratamento antineoplásico.
A distinção crucial é entre toxicidade aguda manejável e toxicidade que compromete a segurança ou a viabilidade do tratamento. A mucosite grau 2 é manejável com suporte adequado. Alterar o esquema de radioterapia (aumentar intervalo, reduzir dose) ou suspender a quimioterapia compromete a eficácia do tratamento adjuvante, que visa eliminar células tumorais residuais e reduzir o risco de recidiva. A troca de cisplatina por carboplatina sem reavaliação funcional também é inadequada, pois a escolha do agente deve ser baseada na função renal e em critérios de elegibilidade, não apenas na toxicidade aguda.
Guarde o princípio: mucosite grau 2 não é indicação de modificar o tratamento oncológico; é indicação de intensificar o suporte. É exatamente nesse ponto que as alternativas se dividem.
Manejo da mucosite em QT/RT
1Grau 1–2 (leve/moderada)
Mantém tratamento oncológico
Intensifica suporte
Analgesia multimodal
Anestésico tópico
Suporte nutricional
2Grau 3–4 (grave)
Pausa ou reduz QT/RT
Pode exigir nutrição enteral/parenteral
3Erros a evitar
Aumentar intervalo de RT
Suspender cisplatina
Trocar por carboplatina sem reavaliação
Reduzir dose total de RT
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Aumentar o intervalo entre as frações de radioterapia (hipofracionamento) compromete o controle oncológico. O fracionamento convencional (1,8–2 Gy/dia, 5 dias/semana) é baseado na diferença de reparo entre tecido normal e tumoral; alterar o esquema para 3x/semana reduz a dose biológica efetiva e pode diminuir a taxa de controle local. A mucosite grau 2 não justifica essa modificação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Suspender a cisplatina até resolução completa da mucosite interrompe a quimiorradioterapia concomitante, que é o padrão de tratamento adjuvante para carcinoma de laringe T3. A cisplatina semanal atua como radiossensibilizante, e sua suspensão prolongada compromete o benefício da terapia combinada. A mucosite grau 2 não é indicação de suspensão; o manejo é com suporte.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Trocar cisplatina por carboplatina sem reavaliação funcional é inadequado. A escolha entre cisplatina e carboplatina depende de fatores como função renal, comorbidades e perfil de toxicidade. A carboplatina é menos emetogênica e nefrotóxica, mas a decisão de troca deve ser individualizada, baseada em avaliação clínica e laboratorial, não apenas na presença de mucosite. A troca indiscriminada pode comprometer a eficácia, pois a cisplatina é o agente padrão no cenário adjuvante.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Reduzir a dose total de radioterapia em 10% para acelerar o término do tratamento compromete o controle oncológico. A dose total planejada é baseada em evidências para maximizar a probabilidade de cura. Reduzir a dose para aliviar uma toxicidade aguda manejável (mucosite grau 2) é inaceitável, pois aumenta o risco de recidiva local.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Instituir analgesia multimodal, bochechos com anestésico tópico e suporte nutricional é a conduta imediata correta. A analgesia multimodal (combinação de analgésicos não opioides, opioides se necessário, e adjuvantes) controla a dor. Bochechos com anestésico tópico (como lidocaína viscosa) proporcionam alívio local. O suporte nutricional (dieta adequada, suplementos, ou nutrição enteral se necessário) mantém o estado nutricional e a tolerância ao tratamento. Essas medidas não alteram o esquema oncológico e, portanto, não comprometem o controle tumoral.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre toxicidade e necessidade de modificar o tratamento. O candidato pode pensar que, diante de qualquer toxicidade, é preciso pausar ou reduzir a quimio/radioterapia. No entanto, a mucosite grau 2 é manejável com suporte, e a interrupção ou redução do tratamento comprometeria o controle oncológico. Lembre-se: a regra é manter o tratamento e otimizar o suporte, a menos que a toxicidade seja grave (grau 3 ou 4) ou ameaçadora à vida.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de manejo de toxicidade em oncologia, avalie primeiro o grau da toxicidade e se ela interfere na alimentação ou nas atividades diárias. Se a toxicidade é leve a moderada (grau 1–2) e não interfere na alimentação, o tratamento é mantido e o suporte é intensificado. Se é grave (grau 3–4), pode ser necessário pausar ou reduzir o tratamento. Essa lógica resolve a maioria das questões.