Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg726511
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cirurgia Pediátrica
Menino de 9 anos, previamente saudável, sofre queimadura térmica envolvendo 45% da superfície corporal. Encontra-se no 3º dia de internação em unidade de terapia intensiva pediátrica, está normotenso, recebendo nutrição enteral, porém com glicemia elevada, aumento progressivo de ureia e perda ponderal significativa desde a admissão. Exames laboratoriais demonstram: IGF1 e IGFBP-3 reduzidos; IL-6 elevada; catecolaminas plasmáticas elevadas; RQ (quociente respiratório) próximo de 1,0. Qual das seguintes interpretações descreve mais adequadamente o quadro metabólico?
ACatabolismo proteico discreto, com tendência à utilização preferencial de lipídeos como fonte energética.
BFase de “ebb”, com metabolismo deprimido, baixa produção de glicose e redução do gasto energético.
CHipermetabolismo intenso, com proteólise significativa, resistência hepática à insulina e aumento sustentado da gliconeogênese.
DRecuperação metabólica, com restauração do eixo GH–IGF-1 e balanço nitrogenado positivo.
EInício de cetogênese compensatória, típica de crianças sob estresse prolongado.
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GabaritoC — Hipermetabolismo intenso, com proteólise significativa, resistência hepática à insulina e aumento sustentado da gliconeogênese.
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Resposta metabólica ao trauma térmico: hipermetabolismo e proteólise
Gabarito: letra C. O quadro descrito — queimadura de 45% de SCQ no 3º dia de internação, com glicemia elevada, aumento progressivo de ureia, perda ponderal, IGF-1 e IGFBP-3 reduzidos, IL-6 e catecolaminas elevadas e RQ próximo de 1,0 — caracteriza a fase de fluxo (flow), marcada por hipermetabolismo intenso, proteólise significativa, resistência hepática à insulina e gliconeogênese aumentada. Essa é a resposta metabólica clássica ao trauma térmico extenso, oposta à fase de "ebb" (hipometabólica) que ocorre nas primeiras 24-48 horas.
A queimadura extensa é o protótipo do estresse metabólico grave. Diferentemente do jejum simples, em que o organismo poupa proteína e prioriza a oxidação de gordura, no trauma térmico há uma resposta neuroendócrina e inflamatória exacerbada que reprograma o metabolismo para o catabolismo. As catecolaminas elevadas (noradrenalina, adrenalina), o cortisol, o glucagon e as citocinas pró-inflamatóricas (IL-6, TNF-α) atuam em conjunto para mobilizar substratos: glicogênio, gordura e, principalmente, proteína muscular — que é quebrada em aminoácidos para sustentar a gliconeogênese hepática e a síntese de proteínas de fase aguda.
O RQ (quociente respiratório) é a pista laboratorial decisiva. O RQ é a razão entre o CO₂ produzido e o O₂ consumido (VCO₂/VO₂). A oxidação de carboidratos tem RQ = 1,0; a de proteínas, cerca de 0,8; e a de lipídeos, aproximadamente 0,7. Um RQ próximo de 1,0 indica que o substrato energético predominante é o carboidrato — ou seja, há intensa gliconeogênese e utilização de glicose, e não de lipídeos. Isso refuta diretamente a alternativa A, que fala em "utilização preferencial de lipídeos".
A resistência hepática à insulina é outro pilar do quadro. Apesar da hiperglicemia, o fígado continua produzindo glicose (gliconeogênese) porque os hormônios contrarreguladores (catecolaminas, cortisol, glucagon) e as citocinas bloqueiam a ação da insulina. O resultado é um estado de "diabetes do estresse", com glicemia elevada mesmo com oferta de nutrição enteral. A ureia progressivamente elevada reflete o catabolismo proteico: os aminoácidos desaminados geram amônia, convertida em ureia no fígado. A perda ponderal significativa é a consequência clínica da proteólise e da lipólise, que consomem as reservas do paciente. Os IGF-1 e IGFBP-3 reduzidos são marcadores do estado catabólico: o eixo GH-IGF-1 é suprimido na fase aguda do estresse, priorizando a mobilização de substratos em detrimento do anabolismo. A IL-6 elevada confirma a resposta inflamatória sistêmica (SIRS), típica do grande queimado.
A resposta metabólica ao trauma segue um padrão bifásico clássico, descrito por Cuthbertson:
Fase
Período
Metabolismo
Glicose
Proteólise
RQ
Ebb ("fluxo para baixo")
0-24/48h
Deprimido, hipometabólico
Baixa produção
Discreta
Baixo (uso de lipídeos)
Flow ("fluxo para cima")
48h em diante
Hipermetabólico, catabólico
Alta produção (gliconeogênese)
Intensa
Próximo de 1,0 (uso de glicose)
O paciente do enunciado está no 3º dia, portanto na fase de flow. A alternativa B descreve a fase de ebb, que já passou. A alternativa D descreve a recuperação, que não ocorre tão precocemente. A alternativa E fala em cetogênese, que é suprimida no estresse grave (a gliconeogênese e a lipólise liberam ácidos graxos, mas a oxidação hepática de gorduras é limitada pela alta demanda de glicose e pela resistência à insulina).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as duas fases da resposta metabólica ao trauma. O candidato que memoriza "queimadura = hipermetabolismo" pode marcar a letra C sem pensar, mas quem confunde as fases pode cair na letra B (ebb). A chave é o tempo: nas primeiras 24-48h há hipometabolismo (ebb); após esse período, instala-se o hipermetabolismo (flow). O RQ próximo de 1,0 e a ureia elevada no 3º dia confirmam a fase de flow.
Resposta metabólica ao trauma: Fase ebb (0-48h) (Hipometabolismo, Baixa produção de glicose, RQ baixo (lipídeos)); Fase flow (após 48h) (Hipermetabolismo, Proteólise intensa, Resistência hepática à insulina, Gliconeogênese aumentada, RQ ~1,0 (glicose)); Marcadores do catabolismo (IGF-1 e IGFBP-3 reduzidos, IL-6 e catecolaminas elevadas, Ureia progressiva)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que há "catabolismo proteico discreto" e "utilização preferencial de lipídeos". O catabolismo proteico é intenso, não discreto — a ureia progressivamente elevada e a perda ponderal significativa comprovam isso. Além disso, o RQ próximo de 1,0 indica oxidação preferencial de carboidratos, não de lipídeos (que teriam RQ ~0,7). A alternativa inverte os dois pilares do quadro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Descreve a fase de "ebb", com metabolismo deprimido, baixa produção de glicose e redução do gasto energético. Essa fase ocorre nas primeiras 24-48 horas após o trauma. O paciente está no 3º dia, já em fase de flow, com hipermetabolismo, gliconeogênese aumentada e gasto energético elevado. A alternativa descreve o período errado.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve com precisão a fase de flow: "hipermetabolismo intenso, com proteólise significativa, resistência hepática à insulina e aumento sustentado da gliconeogênese". Todos os dados do enunciado corroboram: glicemia elevada (resistência à insulina), ureia aumentada (proteólise), IGF-1/IGFBP-3 reduzidos (catabolismo), IL-6 e catecolaminas elevadas (estresse metabólico), RQ ~1,0 (gliconeogênese e uso de glicose). É a interpretação mais adequada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Fala em "recuperação metabólica, com restauração do eixo GH-IGF-1 e balanço nitrogenado positivo". No 3º dia de um grande queimado, o eixo GH-IGF-1 está suprimido (IGF-1 e IGFBP-3 reduzidos) e o balanço nitrogenado é negativo (proteólise > síntese). A recuperação só ocorre após o controle do estresse, semanas depois.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Menciona "início de cetogênese compensatória". No estresse grave, a cetogênese é suprimida: a gliconeogênese hepática é priorizada, e a oxidação de ácidos graxos é limitada. O RQ próximo de 1,0 indica oxidação de carboidratos, não de corpos cetônicos (que teriam RQ baixo). A alternativa não se aplica ao quadro.