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Questão de Medicina — Endocrinologia — INSTITUTO AOCP 2026

MedicinaEndocrinologia
Código
qg726709
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Endocrinologia Pediátrica
Adolescente de 14 anos, previamente hígido, chega ao pronto atendimento com história de poliúria e polidipsia há 10 dias, perda ponderal e sonolência progressiva. Ao exame: desidratado, FC 128 bpm, PA 96/60 mmHg, sem respiração de Kussmaul. Glasgow 13, sem déficits focais. Exames laboratoriais:• Glicemia: 980 mg/dL;• pH venoso: 7,32;• Bicarbonato: 19 mEq/L;• Sódio: 156 mEq/L;• Osmolaridade calculada: 346 mOsm/kg;• Cetonemia: traços;• Creatinina discretamente elevada;• Sem sinais de infecção.Com base na fisiopatologia das emergências hiperglicêmicas descrita nas revisões de HHS, qual é a conduta inicial mais apropriada?
  1. AIniciar insulina intravenosa imediatamente em dose plena (0,1 U/kg/h) e hidratação rápida para corrigir hiperosmolaridade.
  2. BPriorizar expansão com solução salina isotônica de modo gradual para redução lenta da osmolaridade antes de iniciar insulina em baixa dose.
  3. CAdministrar bicarbonato intravenoso devido ao bicarbonato próximo de 18 mEq/L
  4. DTratar como cetoacidose diabética típica, porque a osmolaridade elevada não altera a estratégia terapêutica.
  5. EIndicar manitol profilático devido ao risco de edema cerebral antes de qualquer outra intervenção.
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GabaritoB — Priorizar expansão com solução salina isotônica de modo gradual para redução lenta da osmolaridade antes de iniciar insulina em baixa dose.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH) em adolescente: conduta inicial

Gabarito: letra B. O quadro descrito — glicemia de 980 mg/dL, osmolaridade calculada de 346 mOsm/kg, cetonemia apenas em traços, pH venoso 7,32 e bicarbonato 19 mEq/L — configura síndrome hiperglicêmica hiperosmolar (SHH/EHH), não cetoacidose diabética (CAD) típica. A conduta inicial correta é priorizar a expansão volêmica com solução salina isotônica (NaCl 0,9%) de forma gradual, com reposição lenta do déficit de água e redução lenta da osmolaridade, antes de iniciar insulina em baixa dose — exatamente o que afirma a alternativa B. Essa estratégia visa evitar a queda rápida da osmolaridade plasmática, que precipitaria edema cerebral, complicação temida sobretudo em crianças e adolescentes.

A emergência hiperglicêmica se divide em dois grandes espectros: a cetoacidose diabética (CAD) e o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH). Embora compartilhem a tríade fisiopatológica de deficiência de insulina, excesso de hormônios contrarreguladores e hiperglicemia, elas diferem profundamente na apresentação e no manejo. Na CAD, há deficiência absoluta ou relativa de insulina com consequente lipólise e cetogênese hepática, gerando acidose metabólica com ânion gap elevado, cetonemia/cetonúria e bicarbonato tipicamente < 15 mEq/L. No EHH, a deficiência insulínica é parcial, suficiente para impedir a cetogênese, mas insuficiente para captar glicose — daí a hiperglicemia extrema (frequentemente > 600 mg/dL, podendo ultrapassar 1.000 mg/dL) e a hiperosmolaridade (> 320 mOsm/kg), sem cetose significativa.

O caso apresentado é um EHH atípico pela idade — o texto clássico descreve o paciente típico como idoso, acima de 60 anos, com diabetes tipo 2 — mas a fisiopatologia é a mesma: poliúria osmótica, desidratação, hipernatremia e hiperosmolaridade com rebaixamento do nível de consciência. A osmolaridade calculada de 346 mOsm/kg já ultrapassa o limiar de 320–330 mOsm/kg a partir do qual se iniciam as alterações neurológicas. O pH de 7,32 e o bicarbonato de 19 mEq/L indicam apenas acidose leve, incompatível com CAD franca (que exige pH < 7,3 e bicarbonato < 15 mEq/L). A cetonemia em traços confirma a ausência de cetogênese relevante.

O pilar do tratamento do EHH é a reposição volêmica, não a insulina. O déficit hídrico costuma ser de 8 a 12 litros, e a correção deve ser gradual, com meta de redução da osmolaridade em torno de 3 a 8 mOsm/kg/h, evitando queda superior a 10 mOsm/kg/h. A solução de escolha inicial é o NaCl 0,9% (soro fisiológico), que é isotônica em relação ao plasma e expande o volume intravascular sem causar queda abrupta da osmolaridade. A insulina, quando indicada, deve ser iniciada em baixa dose (0,05–0,1 U/kg/h) e após a hidratação inicial, pois a reposição volêmica isolada já reduz a glicemia por diluição e aumento da excreção renal de glicose. Iniciar insulina em dose plena precocemente, com o paciente ainda desidratado, desloca água do espaço extracelular para o intracelular, podendo precipitar colapso cardiovascular e edema cerebral.

A pegadinha central desta questão é a tentação de tratar o caso como CAD típica (alternativa D) ou de iniciar insulina em dose plena imediatamente (alternativa A). O candidato que memoriza apenas o algoritmo da CAD — hidratação + insulina 0,1 U/kg/h — erra ao aplicá-lo ao EHH, onde a prioridade é a hidratação e a insulina entra em dose menor e mais tardiamente. A alternativa C (bicarbonato) é um distrator clássico: o bicarbonato está em 19 mEq/L, acima do limiar de 15 mEq/L que define acidose significativa, e mesmo na CAD o uso de bicarbonato é restrito a pH < 6,9–7,0. A alternativa E (manitol profilático) não tem indicação — o manitol é usado apenas no tratamento do edema cerebral já estabelecido, não como profilaxia.

Guarde a fronteira decisiva: CAD = cetose + acidose + osmolaridade geralmente < 320 mOsm/kg → insulina precoce em dose plena; EHH = sem cetose + osmolaridade > 320 mOsm/kg → hidratação primeiro, insulina em baixa dose depois. É exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.

Critério

Cetoacidose Diabética (CAD)

Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH)

Deficiência de insulina

Absoluta ou relativa (grave)

Parcial (insuficiente para captar glicose, mas impede cetogênese)

Apresentação típica

Crianças/adolescentes, DM1

Idosos, DM2 (mas pode ocorrer em jovens)

Glicemia

Geralmente < 600 mg/dL

Frequentemente > 600 mg/dL (pode > 1.000 mg/dL)

Osmolaridade

Geralmente < 320 mOsm/kg

> 320 mOsm/kg (frequentemente > 330)

Cetose

Significativa (cetonemia/cetonúria)

Ausente ou apenas traços

pH / Bicarbonato

pH < 7,3 e bicarbonato < 15 mEq/L

pH ≥ 7,3 e bicarbonato ≥ 15 mEq/L (acidose leve ou ausente)

Conduta inicial

Hidratação + insulina precoce em dose plena (0,1 U/kg/h)

Hidratação gradual com NaCl 0,9% primeiro; insulina em baixa dose (0,05–0,1 U/kg/h) depois

Risco principal no manejo

Hipocalemia, edema cerebral (em crianças)

Queda rápida da osmolaridade → edema cerebral, colapso cardiovascular

Alternativa A — ❌ Incorreta

Iniciar insulina intravenosa em dose plena (0,1 U/kg/h) imediatamente é o protocolo da cetoacidose diabética, não do EHH. No EHH, a insulina em dose plena antes da reposição volêmica adequada pode causar queda rápida da osmolaridade e edema cerebral, além de hipotensão por deslocamento de água para o intracelular. A hidratação rápida também é contraindicada: a correção deve ser gradual para evitar oscilações osmóticas bruscas.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A conduta inicial correta no EHH é expandir o volume com solução salina isotônica (NaCl 0,9%) de forma gradual, com meta de redução lenta da osmolaridade (3–8 mOsm/kg/h), antes de iniciar insulina em baixa dose (0,05–0,1 U/kg/h). Essa estratégia repõe o déficit hídrico, melhora a perfusão tecidual e reduz a glicemia por diluição e excreção renal, minimizando o risco de edema cerebral — complicação particularmente temida em crianças e adolescentes.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O bicarbonato sérico é 19 mEq/L, acima do limiar de 15 mEq/L que define acidose significativa na CAD. Mesmo na CAD, a administração de bicarbonato é reservada para casos de acidose extrema (pH < 6,9–7,0), pois pode causar hipocalemia, acidose paradoxal do SNC e piora do edema cerebral. No EHH, com acidose apenas leve, não há qualquer indicação de bicarbonato.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Tratar como cetoacidose diabética típica é o erro central. A osmolaridade elevada (346 mOsm/kg) altera sim a estratégia terapêutica: no EHH, a prioridade é a hidratação gradual, e a insulina entra em baixa dose e mais tardiamente, ao contrário da CAD, onde a insulina é iniciada precocemente em dose plena. A ausência de cetose significativa e a acidose apenas leve confirmam que não se trata de CAD.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O manitol é um agente osmótico usado no tratamento do edema cerebral já estabelecido, não como profilaxia. Não há evidência para uso profilático de manitol no EHH, e sua administração precoce poderia agravar a hiperosmolaridade já presente. A prevenção do edema cerebral no EHH se faz com hidratação gradual e redução lenta da osmolaridade, não com manitol.

Gabarito: letra B

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