Questão de Medicina — Endocrinologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Endocrinologia
Código
qg726715
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Endocrinologia Pediátrica
Menino de 3 anos, previamente saudável, apresenta:• Ganho ponderal acelerado desde o primeiro ano;• Hiperfagia intensa, irritabilidade quando impedido de comer;• Estatura e velocidade de crescimento acima do esperado;• Acanthosis nigricans leve;• Exames iniciais: TSH normal, cortisol normal, glicemia normal;• Sem alterações dismórficas;• Pais com peso normal.Qual hipótese etiológica hereditária é a mais provável nesse caso?
ASíndrome de Prader-Willi
BDeficiência congênita de leptina
CMutação heterozigótica em MC4R.
DDeficiência de receptor de leptina.
EDistúrbio da via POMC (POMC deficiency).
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GabaritoC — Mutação heterozigótica em MC4R.
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Obesidade monogênica na infância: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra C. O quadro de obesidade de início precoce (ganho ponderal acelerado desde o primeiro ano), hiperfagia intensa, estatura preservada ou aumentada, acanthosis nigricans e ausência de dismorfismos, em criança com pais de peso normal, é o padrão clássico da mutação heterozigótica no receptor de melanocortina 4 (MC4R) — a causa monogênica mais comum de obesidade, com herança autossômica dominante. O diagnóstico é clínico-laboratorial, e a ausência de hipotonia neonatal, deficiência intelectual ou hipogonadismo afasta a Síndrome de Prader-Willi, enquanto a gravidade extrema e a herança recessiva afastam as deficiências de leptina e de seu receptor.
A obesidade monogênica é um grupo de doenças genéticas raras que cursam com obesidade grave de início precoce, geralmente nos primeiros anos de vida, por alterações em genes que regulam o apetite e o balanço energético. O eixo central é a via leptina-melanocortina: a leptina, produzida pelo tecido adiposo, sinaliza saciedade ao hipotálamo, onde ativa neurônios POMC que, por sua vez, produzem o hormônio estimulador de melanócitos alfa (α-MSH), que age no receptor MC4R para reduzir a ingestão alimentar. Mutações em qualquer ponto dessa via — leptina, receptor de leptina, POMC, proconvertase 1 (PC1) ou MC4R — resultam em hiperfagia e obesidade.
A mutação no MC4R é a causa mais frequente de obesidade monogênica, responsável por cerca de 2-5% dos casos de obesidade grave. Diferentemente das outras formas, a herança é autossômica dominante, ou seja, basta uma cópia do gene alterado (heterozigose) para manifestar o fenótipo. O quadro clínico é relativamente mais brando que o das deficiências de leptina e de receptor de leptina: a obesidade é grave, mas não extrema desde o nascimento, e há hiperfagia, estatura e velocidade de crescimento aumentadas (devido ao excesso nutricional e à hiperinsulinemia), acanthosis nigricans e, em alguns casos, pressão arterial elevada. Não há dismorfismos, deficiência intelectual ou hipogonadismo.
A deficiência congênita de leptina e a deficiência do receptor de leptina são condições recessivas, muito mais raras, que cursam com obesidade hiperfágica extrema desde os primeiros meses de vida, além de imunodeficiência (infecções de repetição) e hipogonadismo hipogonadotrófico. A deficiência de POMC, também recessiva, associa-se a obesidade precoce, hipocortisolismo (insuficiência adrenal secundária), hipotireoidismo central e, caracteristicamente, cabelos ruivos e pele clara. A Síndrome de Prader-Willi, por sua vez, é uma doença genética complexa (deleção paterna do cromossomo 15q11-q13 ou dissomia uniparental materna) que cursa com hipotonia neonatal grave, dificuldade de sucção nos primeiros meses, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, deficiência intelectual, baixa estatura, hipogonadismo e dismorfismos faciais — quadro que não se encaixa no caso descrito.
A chave do diagnóstico diferencial está na combinação de três elementos: (1) a idade de início e a gravidade da obesidade; (2) a presença ou ausência de dismorfismos, deficiência intelectual e hipotonia; e (3) o padrão de herança. No caso apresentado, a criança tem 3 anos, ganho ponderal acelerado desde o primeiro ano, hiperfagia intensa, estatura aumentada, acanthosis nigricans leve, sem dismorfismos e com pais de peso normal — o que aponta fortemente para a mutação heterozigótica em MC4R, a forma mais comum e de herança dominante. As demais condições monogênicas são recessivas e mais graves, e a Prader-Willi tem um fenótipo sindrômico característico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as diferentes causas de obesidade monogênica. O candidato pode ser tentado a escolher a deficiência de leptina (letra B) por ser a mais "conhecida", mas ela é recessiva, extremamente rara e cursa com imunodeficiência e hipogonadismo — ausentes no caso. A mutação em MC4R é a mais comum e a única de herança dominante entre as opções, o que a torna a resposta correta. Fique atento: a presença de estatura aumentada e a ausência de dismorfismos são pistas fortes para MC4R, enquanto a Prader-Willi cursa com baixa estatura e hipotonia neonatal.
Característica
Mutação MC4R (Gabarito)
Deficiência de Leptina
Deficiência do Receptor de Leptina
Deficiência de POMC
Síndrome de Prader-Willi
Herança
Autossômica dominante
Autossômica recessiva
Autossômica recessiva
Autossômica recessiva
Complexa (deleção paterna 15q11-q13 ou dissomia uniparental materna)
Início da obesidade
Precoce (primeiros anos)
Extrema, desde os primeiros meses
Extrema, desde os primeiros meses
Precoce
Hiperfagia surge tardiamente (2-4 anos), após fase de hipotonia
Hipogonadismo, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor
Obesidade monogênica: Via leptina-melanocortina (Deficiência de leptina (recessiva), Deficiência do receptor (recessiva), Deficiência de POMC (recessiva), Mutação MC4R (dominante)); Fenótipo sindrômico (Prader-Willi (hipotonia, dismorfismos)); Caso clínico (Estatura aumentada, Sem dismorfismos, Hiperfagia intensa, Sem imunodeficiência, Sem hipogonadismo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A Síndrome de Prader-Willi é uma doença genética complexa que cursa com hipotonia neonatal grave, dificuldade de sucção nos primeiros meses, atraso do desenvolvimento, deficiência intelectual, baixa estatura, hipogonadismo e dismorfismos faciais. O caso descrito apresenta ganho ponderal acelerado desde o primeiro ano, estatura aumentada, sem dismorfismos e sem atraso do desenvolvimento — o que afasta essa hipótese. A hiperfagia na Prader-Willi surge mais tardiamente (por volta dos 2-4 anos), após a fase de hipotonia e má alimentação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A deficiência congênita de leptina é uma condição autossômica recessiva extremamente rara, que cursa com obesidade hiperfágica extrema desde os primeiros meses de vida, além de imunodeficiência (infecções de repetição) e hipogonadismo hipogonadotrófico. O caso não menciona infecções de repetição nem hipogonadismo, e a herança recessiva exigiria que ambos os pais fossem portadores — o que é possível, mas a apresentação clínica mais branda e a maior prevalência de MC4R tornam esta alternativa menos provável.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A mutação heterozigótica em MC4R é a causa mais comum de obesidade monogênica, com herança autossômica dominante. O quadro clínico típico inclui obesidade de início precoce (geralmente nos primeiros anos), hiperfagia intensa, estatura e velocidade de crescimento aumentadas, acanthosis nigricans e ausência de dismorfismos e deficiência intelectual — exatamente o que o caso descreve. A presença de pais com peso normal não exclui a herança dominante, pois pode haver penetrância variável ou mutação de novo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A deficiência do receptor de leptina é uma condição autossômica recessiva que cursa com obesidade hiperfágica extrema desde os primeiros meses, além de hipogonadismo hipogonadotrófico e, em alguns casos, disfunção tireoidiana. É mais grave que a mutação em MC4R e muito mais rara. O caso não apresenta hipogonadismo nem a gravidade extrema típica dessa condição, e a herança recessiva torna esta alternativa menos provável.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O distúrbio da via POMC (deficiência de POMC) é uma condição autossômica recessiva que cursa com obesidade precoce, hipocortisolismo (insuficiência adrenal secundária), hipotireoidismo central e, caracteristicamente, cabelos ruivos e pele clara. O caso apresenta TSH e cortisol normais, o que afasta essa hipótese. Além disso, a herança recessiva e a raridade extrema tornam esta alternativa menos provável.
Gabarito: letra C — a mutação heterozigótica em MC4R é a hipótese etiológica hereditária mais provável, por ser a causa monogênica mais comum, de herança dominante, e por se encaixar perfeitamente no quadro clínico descrito.