Questão de Medicina — Endocrinologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Endocrinologia
Código
qg726721
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Endocrinologia Pediátrica
Lactente de 7 meses é levado ao pronto atendimento por sonolência. A mãe relata jejum de 7 horas devido a quadro viral. Exames durante a hipoglicemia (glicemia 41 mg/dL):• Insulina: indetectável;• Beta-hidroxibutirato: 0,2 mmol/L;• Ácidos graxos livres: elevados;• Lactato: normal;• Amônia: normal;• Gasometria: sem acidose;• Sem hepatomegalia;• Recuperação lenta após administração de glicose IV.Qual é o diagnóstico funcional mais compatível com esse caso?
AHipoglicemia cetótica idiopática (IKH) típica.
BGlicogenose tipo I (GSD Ia).
CHiperinsulinismo congênito.
DDeficiência de frutose-1,6-bisfosfatase.
EDefeito de β-oxidação de ácidos graxos (FAO).
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GabaritoE — Defeito de β-oxidação de ácidos graxos (FAO).
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Hipoglicemia no lactente: diagnóstico funcional
Gabarito: letra E. O quadro de hipoglicemia de jejum com insulina indetectável, beta-hidroxibutirato baixo (0,2 mmol/L), ácidos graxos livres elevados, sem acidose e recuperação lenta após glicose IV é o padrão clássico de defeito de β-oxidação de ácidos graxos (FAO). A chave está na dissociação entre os ácidos graxos livres (elevados, indicando lipólise ativa) e a cetogênese (suprimida, pois a β-oxidação está bloqueada), o que impede a produção de corpos cetônicos como fonte energética alternativa ao glicogênio.
A hipoglicemia é uma emergência metabólica comum em lactentes, e a investigação etiológica depende de uma "tríade bioquímica" colhida no momento da hipoglicemia: insulina, beta-hidroxibutirato e ácidos graxos livres. O raciocínio funcional parte da pergunta: "o organismo consegue mobilizar e utilizar as reservas energéticas?" Em jejum, o corpo depende primeiro do glicogênio hepático (glicogenólise) e, depois, da lipólise (liberação de ácidos graxos livres) e da cetogênese (produção de corpos cetônicos a partir dos ácidos graxos, via β-oxidação). Quando a glicemia cai, a insulina deve estar suprimida, permitindo que esses mecanismos contrarreguladores atuem.
No caso apresentado, a insulina indetectável afasta hiperinsulinismo. Os ácidos graxos livres elevados mostram que a lipólise está funcionando — o organismo está tentando mobilizar gordura. Porém, o beta-hidroxibutirato baixo (0,2 mmol/L) indica que a cetogênese está bloqueada: os ácidos graxos não estão sendo oxidados para gerar corpos cetônicos. Essa é a assinatura laboratorial dos defeitos de β-oxidação (como a deficiência de acil-CoA desidrogenase de cadeia média — MCAD, a mais comum). A ausência de acidose e o lactato normal ajudam a excluir outras causas, e a recuperação lenta com glicose IV reflete a incapacidade de gerar energia a partir de fontes alternativas.
Para fixar o raciocínio, é útil comparar os padrões laboratoriais das principais causas de hipoglicemia de jejum no lactente:
Causa
Insulina
β-hidroxibutirato
Ácidos graxos livres
Lactato
Acidose
Outros
Defeito de β-oxidação (FAO)
Baixa/indetectável
Baixo
Elevados
Normal
Ausente
Recuperação lenta com glicose
Hiperinsulinismo
Elevada
Baixo
Baixos
Normal
Ausente
Resposta rápida ao glucagon
Glicogenose tipo I
Baixa
Baixo
Elevados
Elevado
Láctica
Hepatomegalia, hiperuricemia
Deficiência de frutose-1,6-bisfosfatase
Baixa
Baixo
Elevados
Elevado
Láctica
Desencadeada por jejum ou febre
Hipoglicemia cetótica idiopática
Baixa
Elevado
Elevados
Normal
Cetose
Típica em crianças 1-5 anos
A pegadinha central desta questão é a dissociação entre ácidos graxos livres e corpos cetônicos. Em condições normais de jejum, ambos se elevam. Quando os ácidos graxos estão elevados mas o beta-hidroxibutirato está baixo, o defeito está na β-oxidação — o organismo não consegue "queimar" a gordura para produzir energia. É exatamente esse padrão que separa o defeito de FAO das demais alternativas.
Hipoglicemia de jejum no lactente
1Insulina baixa
β-OHB baixo + AGL elevados
Defeito de β-oxidação (FAO)
β-OHB elevado + AGL elevados
Cetótica idiopática (IKH)
2Insulina elevada
Hiperinsulinismo congênito
3Lactato elevado + acidose
Glicogenose tipo I
Deficiência de frutose-1,6-bisfosfatase
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A hipoglicemia cetótica idiopática (IKH) é a causa mais comum de hipoglicemia em crianças entre 1 e 5 anos, tipicamente após jejum prolongado ou doença intercorrente. O padrão laboratorial é de cetose (beta-hidroxibutirato elevado) e ácidos graxos livres elevados, com insulina suprimida. No caso, o beta-hidroxibutirato está baixo (0,2 mmol/L), o que exclui a cetose e, portanto, a IKH. A IKH é um diagnóstico de exclusão, mas a bioquímica aqui aponta para um defeito na produção de corpos cetônicos, não para uma resposta cetótica exagerada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A glicogenose tipo I (GSD Ia) é causada pela deficiência de glicose-6-fosfatase, impedindo a liberação de glicose tanto pela glicogenólise quanto pela gliconeogênese. O padrão típico inclui acidose láctica (lactato elevado), hiperuricemia, hiperlipidemia e hepatomegalia. No caso, o lactato é normal, não há acidose e não há hepatomegalia — três achados que afastam a GSD Ia. Além disso, a GSD Ia cursa com ácidos graxos livres elevados e beta-hidroxibutirato baixo, mas a presença de acidose láctica é um marcador distintivo que não está presente aqui.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O hiperinsulinismo congênito é caracterizado por insulina elevada (ou inapropriadamente normal) durante a hipoglicemia, com supressão da lipólise e da cetogênese (ácidos graxos livres e beta-hidroxibutirato baixos). No caso, a insulina está indetectável, o que exclui o hiperinsulinismo. Além disso, pacientes com hiperinsulinismo costumam ter recuperação rápida após glicose IV e resposta positiva ao glucagon, diferente da recuperação lenta descrita.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A deficiência de frutose-1,6-bisfosfatase é um defeito da gliconeogênese, manifestando-se com hipoglicemia de jejum, acidose láctica (lactato elevado) e, frequentemente, hepatomegalia. O quadro é desencadeado por jejum prolongado ou doença intercorrente. No caso, o lactato é normal e não há acidose, o que afasta essa hipótese. Embora os ácidos graxos livres possam estar elevados e o beta-hidroxibutirato baixo, a acidose láctica é o achado que não se encaixa.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O defeito de β-oxidação de ácidos graxos (FAO) é a causa mais compatível. A bioquímica é clássica: insulina baixa (suprimida pela hipoglicemia), ácidos graxos livres elevados (lipólise ativa) e beta-hidroxibutirato baixo (cetogênese bloqueada pela incapacidade de oxidar os ácidos graxos). A ausência de acidose e lactato normal excluem defeitos da gliconeogênese e glicogenoses. A recuperação lenta após glicose IV é típica, pois o organismo não consegue utilizar a gordura como fonte energética, dependendo exclusivamente da glicose exógena. A deficiência de MCAD (acil-CoA desidrogenase de cadeia média) é a mais comum e se apresenta exatamente assim, frequentemente desencadeada por jejum prolongado ou doença intercorrente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os padrões de hipoglicemia cetótica e não cetótica. Em jejum, o esperado é que o beta-hidroxibutirato esteja elevado (cetose). Quando ele está baixo com ácidos graxos livres elevados, o defeito está na β-oxidação — não na mobilização de gordura. Lembre-se: ácidos graxos livres elevados + beta-hidroxibutirato baixo = defeito de FAO. Essa dissociação é o coração da questão.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de hipoglicemia, monte mentalmente a tabela com insulina, beta-hidroxibutirato, ácidos graxos livres e lactato. O padrão "insulina baixa + beta-hidroxibutirato baixo + ácidos graxos livres elevados + lactato normal" aponta diretamente para defeito de β-oxidação. Se o lactato estiver elevado, pense em glicogenose ou defeito da gliconeogênese. Essa sistematização resolve a maioria das questões do tema.