Questão de Medicina — Endocrinologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Endocrinologia
Código
qg726739
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Endocrinologia Pediátrica
Menina de 7 anos apresenta desaceleração de velocidade de crescimento há 18 meses.Medidas atuais:• Altura: −1,8 DP;• Velocidade de crescimento: 3,2 cm/ano (abaixo do 3º percentil para idade);• IMC normal;• História familiar: pais com estaturas dentro da normalidade;• Exame físico: sem dismorfias.Exames iniciais:• TSH e T4L normais;• IGF-1 reduzido para idade;• Idade óssea atrasada em 2 anos;• RX de sela túrcica normal.Com base na fisiologia e na patologia do crescimento, qual é o diagnóstico funcional mais compatível com esse caso?
ABaixa estatura familiar.
BDesnutrição leve, com repercussão típica no eixo GH–IGF-1.
CDeficiência de GH, sugerida por baixa velocidade de crescimento, IGF-1 reduzido e retardo da idade óssea
DVariante normal do crescimento infantil, sem necessidade de investigação adicional.
EResistência a GH (síndrome de Laron), sugerida por IGF-1 baixo e idade óssea atrasada.
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GabaritoC — Deficiência de GH, sugerida por baixa velocidade de crescimento, IGF-1 reduzido e retardo da idade óssea
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Deficiência de GH na infância: diagnóstico funcional
Gabarito: letra C. O quadro é de deficiência de GH (DGH), sugerida pela tríade clássica: baixa velocidade de crescimento (3,2 cm/ano, abaixo do 3º percentil), IGF-1 reduzido para idade e idade óssea atrasada em 2 anos, em menina de 7 anos com TSH e T4L normais e sem dismorfias. A investigação para DGH está indicada exatamente nesse cenário: baixa estatura (entre −2 e −3 DP) associada à redução da velocidade de crescimento, conforme os critérios auxológicos do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde.
A deficiência de GH é a produção insuficiente do hormônio do crescimento pela hipófise anterior, resultando em baixa estatura e desaceleração do crescimento. Na infância, o diagnóstico é essencialmente clínico-auxológico, complementado por exames laboratoriais e de imagem. Os principais achados clínicos são baixa estatura e redução na velocidade de crescimento, sendo importante excluir outras causas como displasias esqueléticas, síndrome de Turner (em meninas) e doenças crônicas.
A investigação para DGH está indicada em situações específicas, como: baixa estatura grave (escore z ≤ −3), baixa estatura (entre −2 e −3 DP) associada à velocidade de crescimento inferior ao percentil 25, estatura acima de −2 DP com velocidade de crescimento abaixo de −1 DP em 12 meses, presença de condição predisponente (lesão intracraniana, irradiação do SNC), deficiência de outros hormônios hipofisários, ou sinais neonatais de DGH/hipopituitarismo. No caso apresentado, a menina tem estatura de −1,8 DP (entre −2 e −3 DP) e velocidade de crescimento de 3,2 cm/ano, claramente abaixo do percentil 25 para a idade — preenchendo os critérios de investigação.
Laboratorialmente, a dosagem de IGF-1 é relevante, porém tem baixa especificidade isoladamente. Valores de IGF-1 acima da média para idade e sexo são forte evidência contra o diagnóstico de DGH, que deve ser confirmado por testes provocativos da secreção de GH (com estímulos como insulina, clonidina, levodopa e glucagon), com ponto de corte de GH inferior a 5 ng/mL. Na avaliação da idade óssea, em crianças maiores de 2 anos com baixa estatura e redução da velocidade de crescimento, o atraso maior que dois desvios-padrão é um achado típico da DGH. O RX de sela túrcica normal não exclui o diagnóstico, pois a avaliação por imagem preferencial é a ressonância nuclear magnética (RNM) da região hipotálamo-hipofisária, que pode revelar alterações como transecção de haste hipofisária, neuro-hipófise ectópica ou hipoplasia de hipófise.
A distinção crucial neste caso é entre DGH e outras causas de baixa estatura. A baixa estatura familiar se caracteriza por velocidade de crescimento normal e idade óssea compatível com a idade cronológica, o que não ocorre aqui. A desnutrição leve pode causar baixa estatura e IGF-1 reduzido, mas o IMC normal e a ausência de sinais de desnutrição tornam essa hipótese menos provável. A variante normal do crescimento (atraso constitucional) apresenta velocidade de crescimento compatível com a idade óssea e história familiar típica, diferente do caso. A resistência a GH (síndrome de Laron) cursa com IGF-1 baixo, mas com GH elevado — dado não apresentado e que seria esperado nessa condição.
A pegadinha da banca está em confundir DGH com resistência a GH (síndrome de Laron). Na DGH, há deficiência na produção de GH, resultando em IGF-1 baixo. Na síndrome de Laron, há resistência periférica ao GH, com níveis de GH elevados (por falta de feedback negativo) e IGF-1 baixo. A dosagem de GH (basal ou após estímulo) é o que diferencia as duas condições — na DGH, o GH é baixo; na síndrome de Laron, é alto. Como o enunciado não traz o valor de GH, mas o IGF-1 reduzido e a idade óssea atrasada são compatíveis com ambas, o diagnóstico funcional mais provável, considerando a apresentação clássica e a prevalência, é a DGH.
Guarde o critério decisivo: a combinação de baixa velocidade de crescimento + IGF-1 baixo + idade óssea atrasada aponta para DGH, enquanto a resistência a GH exigiria GH elevado. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Critério
Deficiência de GH (DGH)
Resistência a GH (Síndrome de Laron)
Nível de GH
Baixo (basal ou após estímulo)
Elevado (por falta de feedback negativo)
IGF-1
Reduzido
Reduzido
Idade óssea
Atrasada
Atrasada
Mecanismo fisiopatológico
Produção insuficiente de GH pela hipófise
Resistência periférica ao GH (defeito no receptor)
Diagnóstico diferencial
Confirmado por testes provocativos (GH < 5 ng/mL)
GH elevado + IGF-1 baixo (sem resposta ao GH exógeno)
Diagnóstico de baixa estatura
1Deficiência de GH
Velocidade de crescimento baixa
IGF-1 reduzido
Idade óssea atrasada
GH baixo (teste provocativo)
2Resistência a GH (Laron)
IGF-1 baixo
GH elevado
3Baixa estatura familiar
Velocidade normal
Idade óssea compatível
4Desnutrição
IMC baixo
Sinais de carência
5Variante normal
Velocidade compatível
História familiar típica
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A baixa estatura familiar é uma causa de baixa estatura em que a velocidade de crescimento é normal e a idade óssea é compatível com a idade cronológica. No caso, a velocidade de crescimento está francamente reduzida (3,2 cm/ano) e a idade óssea está atrasada em 2 anos, o que afasta essa hipótese. Além disso, os pais têm estaturas dentro da normalidade, o que torna a baixa estatura familiar ainda menos provável.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A desnutrição leve pode causar baixa estatura e IGF-1 reduzido, mas o IMC normal e a ausência de sinais clínicos de desnutrição (como emagrecimento, hipotrofia muscular ou deficiências nutricionais específicas) tornam essa hipótese pouco provável. A desnutrição leve, em geral, não causa um atraso tão acentuado da idade óssea (2 anos) nem uma velocidade de crescimento tão baixa (3,2 cm/ano) sem outros sinais. O quadro é mais compatível com uma causa endócrina.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A tríade de baixa velocidade de crescimento (3,2 cm/ano, abaixo do 3º percentil), IGF-1 reduzido para idade e idade óssea atrasada em 2 anos é altamente sugestiva de deficiência de GH. O TSH e T4L normais excluem hipotireoidismo como causa. O RX de sela túrcica normal não exclui DGH, pois a avaliação por imagem preferencial é a RNM. A investigação para DGH está indicada nesse cenário, conforme os critérios auxológicos do PCDT.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A variante normal do crescimento (atraso constitucional do crescimento e da puberdade) se caracteriza por velocidade de crescimento compatível com a idade óssea e história familiar típica de atraso puberal. No caso, a velocidade de crescimento está muito abaixo do esperado (3,2 cm/ano) e o IGF-1 está reduzido, o que não é esperado em uma variante normal. A necessidade de investigação adicional é clara, não sendo uma variante normal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A resistência a GH (síndrome de Laron) cursa com IGF-1 baixo e idade óssea atrasada, mas com GH elevado (devido à falta de feedback negativo). O enunciado não traz o valor de GH, mas a apresentação clássica de DGH (baixa velocidade de crescimento, IGF-1 baixo, idade óssea atrasada) é mais compatível com deficiência de GH do que com resistência. Na síndrome de Laron, haveria também outras características como face característica, hipoglicemia e obesidade troncular, não descritas no caso.
Gabarito: letra C — deficiência de GH, sugerida por baixa velocidade de crescimento, IGF-1 reduzido e retardo da idade óssea.