Questão de Medicina — Nefrologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Nefrologia
Código
qg727078
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Nefrologia
Paciente do sexo feminino, 29 anos, em tratamento de esclerose sistêmica há 3 anos, é encaminhada pelo reumatologista à Unidade Ambulatorial de uma prefeitura devido à hematúria e difícil controle pressórico. Paciente relata que sua visão vem sendo afetada pela hipertensão de início abrupto e que o exame de creatinina em uma das crises subiu. Leva a MAPA, que mostra PA média 178/102 mmHg, autoanticorpos para RNA polimerase III reagente. Está em uso de prednisona 40 mg/dia há 6 meses e notou que o comprometimento da pele vem aumentando difusamente nos últimos meses. Ao exame, presença de retinopatia hipertensiva e PA 160/92 mmHg. Diante desse contexto, assinale a alternativa correta.
AA paciente em questão não necessita de biópsia renal para diagnosticar CRE.
BAtualmente, o benefício do uso dos IECA ocorre no tratamento e na prevenção da CRE.
CNa CRE, o fator de risco mais importante é a positividade do anticorpo anti-RNA polimerase III.
DA manifestação renal mais grave é a crise renal esclerodérmica (CRE) que ocorre na maioria dos pacientes.
EO que fala contra ser CRE é o tempo de surgimento precoce, que tradicionalmente surge tardiamente, depois de mais de 5 anos de doença.
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GabaritoA — A paciente em questão não necessita de biópsia renal para diagnosticar CRE.
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Crise Renal Esclerodérmica (CRE) na Esclerose Sistêmica
Gabarito: letra A. A paciente apresenta quadro clássico de crise renal esclerodérmica (CRE): hipertensão de início abrupto e difícil controle, hematúria, elevação da creatinina, retinopatia hipertensiva, anticorpo anti-RNA polimerase III reagente e uso de prednisona 40 mg/dia — todos fatores fortemente associados à CRE. O diagnóstico é essencialmente clínico, e a biópsia renal não é necessária para confirmá-lo, sendo reservada para casos duvidosos ou quando há suspeita de outra glomerulopatia. A alternativa A está correta ao afirmar que a paciente não necessita de biópsia renal para diagnosticar CRE.
A crise renal esclerodérmica é uma complicação grave e potencialmente fatal da esclerose sistêmica (ES), caracterizada pelo início abrupto de hipertensão arterial sistêmica acelerada, acompanhada de elevação rápida da creatinina sérica, hematúria e proteinúria microscópicas. É uma emergência médica que, se não tratada prontamente, pode levar à insuficiência renal irreversível e à morte. A fisiopatologia envolve lesão endotelial vascular proliferativa que oblitera o lúmen das artérias interlobulares e arteríolas aferentes, levando à isquemia renal, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e, consequentemente, à hipertensão severa e à progressão rápida da lesão renal.
O diagnóstico da CRE é fundamentalmente clínico, baseado na tríade clássica: hipertensão arterial de início abrupto, elevação da creatinina sérica e alterações urinárias (hematúria/proteinúria), em um paciente com esclerose sistêmica. A biópsia renal, embora possa revelar as alterações vasculares características (espessamento da íntima, proliferação endotelial, necrose fibrinoide, aspecto em "casca de cebola" das arteríolas), não é necessária para o diagnóstico na maioria dos casos, especialmente quando o quadro clínico é típico. Ela fica reservada para situações em que há dúvida diagnóstica, como quando se suspeita de glomerulonefrite associada a outra doença autoimune, ou quando a apresentação é atípica.
Os fatores de risco para o desenvolvimento de CRE são bem estabelecidos e incluem: a forma cutânea difusa da doença (EScd), o comprometimento cutâneo rapidamente progressivo, a positividade do anticorpo anti-RNA polimerase III, o uso de corticosteroides em doses altas (como a prednisona 40 mg/dia que a paciente usa) e o início recente da doença (geralmente nos primeiros 3-5 anos). A paciente do caso reúne praticamente todos esses fatores: tem EScd (pele comprometida difusamente), anti-RNA polimerase III reagente, usa prednisona em dose alta e está nos primeiros anos de doença (3 anos).
O tratamento da CRE é uma emergência e baseia-se no controle agressivo da pressão arterial com inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), sendo o captopril o fármaco de escolha devido à sua meia-vida curta e facilidade de titulação. O IECA deve ser iniciado imediatamente e mantido por toda a vida, mesmo que haja declínio da função renal, pois há relatos de recuperação renal mesmo após longos períodos de diálise. O uso de IECA reduziu drasticamente a mortalidade da CRE, de cerca de 75% em 1 ano para menos de 15%. É importante destacar que o IECA é o tratamento de escolha, mas seu papel na prevenção primária da CRE em pacientes com esclerose sistêmica sem crise renal ainda é controverso — não há evidência robusta de que o uso profilático de IECA previna o desenvolvimento da CRE.
A banca explora, nesta questão, o conhecimento sobre os fatores de risco, o diagnóstico e o tratamento da CRE. A pegadinha central está na alternativa B, que afirma que o IECA tem benefício tanto no tratamento quanto na prevenção da CRE — o que é incorreto, pois a prevenção primária com IECA não é recomendada. Outra pegadinha está na alternativa E, que inverte o tempo de surgimento da CRE: ela ocorre tipicamente nos primeiros anos da doença, não tardiamente após 5 anos. A alternativa D erra ao afirmar que a CRE ocorre na maioria dos pacientes, quando na verdade ocorre em cerca de 5-10% (mais frequente na forma difusa, ~16%). A alternativa C erra ao afirmar que o anti-RNA polimerase III é o fator de risco mais importante, quando na verdade o principal fator de risco é a forma cutânea difusa da doença.
Guarde bem estes pontos: o diagnóstico da CRE é clínico (não precisa de biópsia), o tratamento é com IECA (mas não há prevenção comprovada), e os fatores de risco são a forma difusa, o anti-RNA polimerase III, o uso de corticoides e o início recente da doença. É exatamente nesses pontos que as alternativas se dividem.
Crise renal esclerodérmica (CRE)
1Diagnóstico
Clínico (tríade)
Hipertensão abrupta
Creatinina elevada
Hematúria/proteinúria
Biópsia não é necessária
2Fatores de risco (DICA)
Difusa (forma cutânea)
Início recente (3-5 anos)
Corticoide em dose alta
Anti-RNA polimerase III
3Tratamento
IECA (captopril)
Sem prevenção comprovada
4Epidemiologia
5-10% dos pacientes
Mais comum na forma difusa
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta. O diagnóstico de CRE é essencialmente clínico, baseado na tríade hipertensão de início abrupto + elevação da creatinina + hematúria/proteinúria em paciente com esclerose sistêmica, especialmente na presença de fatores de risco como anti-RNA polimerase III, forma difusa e uso de corticoides. A biópsia renal não é necessária para confirmar o diagnóstico na maioria dos casos, sendo reservada para situações de dúvida diagnóstica ou suspeita de outra glomerulopatia. A paciente do caso tem quadro clássico e todos os fatores de risco, portanto não necessita de biópsia para o diagnóstico de CRE.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o IECA tem benefício na prevenção da CRE. O IECA é o tratamento de escolha da CRE estabelecida, reduzindo drasticamente a mortalidade, mas não há evidência de que seu uso profilático previna o desenvolvimento da crise renal em pacientes com esclerose sistêmica. A prevenção primária com IECA não é recomendada na prática clínica. O benefício comprovado do IECA é no tratamento da CRE já instalada, não na sua prevenção.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o anti-RNA polimerase III é o fator de risco mais importante para CRE. Embora a positividade desse anticorpo seja um forte fator de risco e um marcador importante, o principal fator de risco para o desenvolvimento de CRE é a forma cutânea difusa da esclerose sistêmica (EScd), com comprometimento cutâneo rapidamente progressivo. Outros fatores incluem o uso de corticosteroides em altas doses e o início recente da doença. O anti-RNA polimerase III é um marcador de risco, mas não é o fator mais importante.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que a CRE ocorre na maioria dos pacientes com esclerose sistêmica. Na verdade, a CRE ocorre em cerca de 5-10% dos pacientes com ES, sendo mais frequente na forma difusa (cerca de 16%) do que na forma limitada (cerca de 3%). Portanto, a CRE é uma complicação grave, mas não ocorre na maioria dos pacientes. A maioria dos pacientes com ES não desenvolve CRE.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o tempo de surgimento precoce fala contra o diagnóstico de CRE. Na verdade, a CRE ocorre tipicamente nos primeiros anos da doença, geralmente nos primeiros 3-5 anos após o início da ES, e pode até mesmo ser a manifestação inicial da doença em alguns casos. O surgimento precoce (como no caso da paciente, com 3 anos de doença) é um fator a favor do diagnóstico de CRE, não contra. A alternativa inverte completamente o conhecimento sobre o tempo de surgimento da CRE.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão sobre o tempo de surgimento da CRE (alternativa E) e sobre o papel do IECA na prevenção (alternativa B). Muitos candidatos sabem que a CRE ocorre em pacientes com ES, mas não sabem que ela é mais comum nos primeiros anos da doença, não tardiamente. Da mesma forma, é comum acreditar que o IECA, por ser o tratamento, também serve para prevenção — mas isso não é comprovado. Fique atento a essas inversões clássicas!
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar os fatores de risco da CRE, lembre-se do mnemônico DICA: Difusa (forma cutânea), Início recente (primeiros anos), Corticoide em dose alta, Anti-RNA polimerase III. Se o paciente tiver esses fatores e apresentar hipertensão abrupta + creatinina elevada + hematúria, o diagnóstico de CRE é clínico — não precisa de biópsia!