Questão de Medicina — Nefrologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Nefrologia
Código
qg727084
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Nefrologia
Paciente do sexo masculino, 65 anos, agricultor, com antecedente de apendicectomia, cirurgia de hérnia inguinal, sem DRC, na entrada com altura de 1,80 m e peso de 68 Kg, está internado na UTI há 38 dias devido à sepse de origem pulmonar. Parecer atual após ressuscitação volêmica: U 290 mg/dl, Cr 6,0 mg/dl, hemograma com anemia normocrômica, normocítica, leucocitose moderada, plaquetopenia acentuada, acidose metabólica refratária ao tratamento com DVA, em ventilação mecânica há 16 dias. Ao exame: REG, emagrecido, acianótico, febril, hidratado. PAM 65 mmHg; lactato 6 mmol/L; PA 80/60 mmHg; FC 114 bpm após ressuscitação volêmica; diurese de 50 ml nas últimas 12h. Peso estimado: 48 Kg.O manejo mais adequado da lesão renal instalada para esse caso é
Atendo indicação, decidir pela diálise peritoneal em vez de hemodiálise, pois traz maior benefício.
Bpreferir os líquidos de reposição e dialisatos à base de lactato, em vez de citrato, para correção da acidose.
Ccontraindicar formulações padrão de nutrição enteral e/ou parenteral por se tratar de paciente hipercatabólico com injúria renal aguda.
Dtendo indicação, os fluidos de reposição/diálise com glicose e soluções do tipo ACD-A (citrato 2,2% e glicose 2,45%), são usados também como fontes de calorias.
Econsiderar como fortes indicadores, mesmo que usados isoladamente, no diagnóstico de desnutrição na IRA, a perda involuntária de peso, o índice de massa corporal (IMC) baixo (<25 kg/m2) e a ingestão de energia e proteínas abaixo do recomendado
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GabaritoD — tendo indicação, os fluidos de reposição/diálise com glicose e soluções do tipo ACD-A (citrato 2,2% e glicose 2,45%), são usados também como fontes de calorias.
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Injúria Renal Aguda na Sepse: manejo dialítico e nutricional
Gabarito: letra D. No paciente crítico com IRA e acidose metabólica refratária, os fluidos de reposição/diálise com glicose e soluções do tipo ACD-A (citrato 2,2% e glicose 2,45%) são usados também como fontes de calorias — a alternativa correta reconhece que o citrato, além de anticoagulante regional, é metabolizado em bicarbonato (auxiliando na correção da acidose) e fornece substrato energético. As demais alternativas contêm erros conceituais: a diálise peritoneal não é preferível à hemodiálise na sepse com IRA; o citrato é preferível ao lactato na acidose refratária; a nutrição enteral/parenteral não é contraindicada no hipercatabolismo; e os indicadores de desnutrição citados na letra E não são fortes isoladamente.
A injúria renal aguda (IRA) no contexto de sepse é uma condição complexa, multifatorial, que envolve hipoperfusão renal, inflamação sistêmica, microtrombose e lesão celular direta. No paciente descrito — 65 anos, sepse pulmonar, em ventilação mecânica, com acidose metabólica refratária, oligúria (50 ml/12h), ureia 290 mg/dl e creatinina 6,0 mg/dl — há indicação clara de terapia renal substitutiva (TRS). A escolha da modalidade (hemodiálise intermitente, diálise peritoneal, ou terapias contínuas) depende da estabilidade hemodinâmica, da disponibilidade e das comorbidades. Na sepse, a hemodiálise ou as terapias contínuas são preferíveis à diálise peritoneal, que é menos eficiente na remoção de solutos e fluidos em pacientes hipercatabólicos e pode comprometer a mecânica ventilatória.
Um ponto central no manejo é a escolha do fluido de diálise e do anticoagulante. O citrato, usado como anticoagulante regional na hemodiálise contínua, tem a vantagem adicional de ser metabolizado no fígado e no músculo em bicarbonato, contribuindo para a correção da acidose metabólica — diferentemente do lactato, que depende de metabolização hepática e pode ser menos eficaz em pacientes com disfunção hepática ou choque. Além disso, as soluções de diálise com glicose (como ACD-A, que contém citrato 2,2% e glicose 2,45%) fornecem calorias, o que é relevante no paciente crítico hipercatabólico. Essa dupla função — correção da acidose e aporte calórico — é exatamente o que a alternativa D destaca.
A nutrição do paciente com IRA é outro pilar. O paciente crítico com IRA está em estado hipercatabólico, com aumento da proteólise muscular e da produção de ureia. A terapia nutricional não é contraindicada; pelo contrário, é essencial, preferencialmente por via enteral, com aporte proteico adequado (em torno de 1,2 a 2,0 g/kg/dia, ajustado conforme a necessidade e a modalidade de diálise). A desnutrição é um fator de risco independente para mortalidade, e a perda involuntária de peso, o IMC baixo e a ingestão inadequada são indicadores importantes, mas não devem ser usados isoladamente para o diagnóstico de desnutrição na IRA — é preciso uma avaliação global, incluindo exame físico, história clínica e, idealmente, ferramentas validadas como a avaliação subjetiva global (ASG).
A pegadinha central desta questão está na letra E: ela apresenta critérios que são, de fato, usados na avaliação nutricional, mas os qualifica como "fortes indicadores, mesmo que usados isoladamente" — o que é falso. Na prática clínica, nenhum desses parâmetros isolado é suficiente para diagnosticar desnutrição; a avaliação deve ser multidimensional. Já a letra D acerta ao reconhecer o papel do citrato e da glicose nas soluções de diálise como fonte de calorias, um detalhe técnico que exige conhecimento específico de nefrologia e terapia intensiva.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "indicadores de desnutrição" e "diagnóstico de desnutrição". A letra E lista critérios que são usados na triagem nutricional, mas os apresenta como suficientes isoladamente — o que é incorreto. O diagnóstico de desnutrição na IRA exige avaliação global (história, exame físico, ASG, marcadores laboratoriais), não um único parâmetro. Fique atento a palavras como "isoladamente" e "fortes indicadores" — elas costumam sinalizar uma generalização indevida.
Critério
Letra D (correta)
Letra E (pegadinha)
Tema central
Fluidos de diálise com citrato/glicose como fonte de calorias
Indicadores de desnutrição na IRA
Função do citrato
Anticoagulante regional + metabolizado em bicarbonato (corrige acidose)
Não mencionado
Função da glicose
Fonte de calorias (substrato energético)
Não mencionado
Uso dos indicadores
Não se aplica
Erro: usados isoladamente como fortes indicadores
Diagnóstico de desnutrição
Não se aplica
Exige avaliação global (ASG, história, exame físico), não parâmetro único
Alternativa A — ❌ Incorreta
A diálise peritoneal não é preferível à hemodiálise no paciente com sepse e IRA. Na sepse, a hemodiálise (intermitente ou contínua) é a modalidade de escolha, pois oferece maior depuração de solutos, melhor controle volêmico e não interfere na mecânica ventilatória. A diálise peritoneal é menos eficiente em pacientes hipercatabólicos, pode aumentar a pressão intra-abdominal e comprometer a ventilação, além de apresentar maior risco de peritonite. A alternativa inverte a recomendação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que se deve preferir líquidos de reposição e dialisatos à base de lactato em vez de citrato para correção da acidose. Na verdade, o citrato é preferível ao lactato na acidose metabólica refratária, pois é metabolizado em bicarbonato de forma mais eficiente, especialmente em pacientes com disfunção hepática ou choque. O lactato depende de metabolização hepática e pode não corrigir a acidose adequadamente. A alternativa troca a recomendação correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A nutrição enteral e/ou parenteral não é contraindicada no paciente hipercatabólico com IRA. Pelo contrário, a terapia nutricional é essencial para minimizar o catabolismo, preservar a massa muscular e melhorar o prognóstico. A nutrição enteral é preferível, mas a parenteral pode ser usada se a enteral não for possível. A alternativa erra ao afirmar que há contraindicação.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que os fluidos de reposição/diálise com glicose e soluções do tipo ACD-A (citrato 2,2% e glicose 2,45%) são usados também como fontes de calorias. O citrato, além de anticoagulante regional, é metabolizado em bicarbonato, contribuindo para a correção da acidose, e a glicose presente na solução fornece substrato energético. Essa dupla função é um detalhe técnico importante no manejo do paciente crítico com IRA.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a perda involuntária de peso, o IMC baixo (<25 kg/m²) e a ingestão inadequada de energia e proteínas são "fortes indicadores, mesmo que usados isoladamente" no diagnóstico de desnutrição na IRA. Isso é incorreto: nenhum desses parâmetros isolado é suficiente para diagnosticar desnutrição. A avaliação deve ser global, incluindo história clínica, exame físico, avaliação subjetiva global (ASG) e, idealmente, marcadores laboratoriais. A alternativa generaliza indevidamente.
Gabarito: letra D — a única que reconhece corretamente o papel dos fluidos de diálise com citrato e glicose como fonte de calorias no paciente crítico com IRA.