Questão de Medicina — Oncologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Oncologia
Código
qg727349
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Oncologia Clínica
Em relação à classificação molecular atualmente empregada no câncer de endométrio e às suas implicações prognósticas e terapêuticas, assinale a alternativa correta.
ATumores com mutações específicas associam-se a pior prognóstico e exigem intensificação sistemática do tratamento.
BTumores com alterações aberrantes de p53 apresentam comportamento mais agressivo e maior risco de recorrência.
CTumores com deficiência de reparo de DNA não apresentam relação com imunoterapia.
DTumores sem perfil molecular específico são tipicamente negativos para receptores hormonais.
EA classificação molecular não influencia decisões terapêuticas atuais.
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GabaritoB — Tumores com alterações aberrantes de p53 apresentam comportamento mais agressivo e maior risco de recorrência.
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Classificação molecular do câncer de endométrio
Gabarito: letra B. A classificação molecular do câncer de endométrio, baseada no The Cancer Genome Atlas (TCGA), divide os tumores em quatro grupos prognósticos distintos: POLE ultramutado, instabilidade de microssatélites (MSI), baixo número de cópias e alto número de cópias. Os tumores com alterações aberrantes de p53 (que correspondem ao grupo de alto número de cópias) apresentam o pior prognóstico, com comportamento mais agressivo e maior risco de recorrência — exatamente o que afirma a alternativa B.
A classificação molecular revolucionou a oncologia ginecológica ao substituir, ou complementar, a antiga divisão histológica em tipo 1 (endometrioide, bom prognóstico) e tipo 2 (seroso, células claras, pior prognóstico). O TCGA identificou quatro subgrupos moleculares com implicações prognósticas e terapêuticas distintas:
POLE ultramutado: mutações no domínio exonuclease do gene POLE, altíssima carga mutacional, melhor prognóstico, apesar do alto grau histológico.
Instabilidade de microssatélites (MSI) / hipermutado: defeito no reparo de DNA (deficiência de MMR), prognóstico intermediário, e são os principais candidatos à imunoterapia com inibidores de checkpoint (anti-PD-1/PD-L1).
Baixo número de cópias: grupo mais heterogêneo, prognóstico intermediário, frequentemente associado a mutações em PTEN, ARID1A e CTNNB1.
Alto número de cópias: caracterizado por mutações de TP53 (p53 aberrante), corresponde aos tumores serosos e a uma fração dos endometrioides de alto grau, com o pior prognóstico e maior risco de recorrência.
A classificação molecular não é apenas acadêmica: ela orienta decisões terapêuticas. Por exemplo, tumores MSI são elegíveis para imunoterapia, enquanto tumores com p53 aberrante podem se beneficiar de quimioterapia adjuvante mais agressiva. A alternativa B captura corretamente a associação entre p53 aberrante e mau prognóstico.
A pegadinha central desta questão é a inversão de prognóstico: a banca tenta fazer o candidato associar "mutação" a "pior prognóstico" de forma genérica, quando na verdade o grupo POLE (que também tem mutações) tem o melhor prognóstico. A alternativa A explora exatamente esse erro.
Grupo Molecular
Característica Genética
Prognóstico
Implicação Terapêutica
POLE ultramutado
Mutação no domínio exonuclease do POLE
Melhor (apesar do alto grau histológico)
Não se beneficia de quimioterapia adjuvante agressiva
MSI / hipermutado
Deficiência no reparo de DNA (MMR)
Intermediário
Candidato a imunoterapia (anti-PD-1/PD-L1)
Baixo número de cópias (NSMP)
Mutações em PTEN, ARID1A, CTNNB1; sem perfil específico
Classificação molecular (TCGA): POLE ultramutado (melhor prognóstico); MSI / hipermutado (deficiência de reparo (MMR), imunoterapia (anti-PD-1)); Baixo nº de cópias (NSMP) (prognóstico intermediário, receptores hormonais); Alto nº de cópias (p53 aberrante, pior prognóstico, maior recorrência)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que tumores com mutações específicas têm pior prognóstico e exigem intensificação sistemática do tratamento. Isso é uma generalização incorreta: o grupo POLE ultramutado, apesar de ter alta carga mutacional, apresenta o melhor prognóstico entre os quatro grupos moleculares. A presença de mutação não é sinônimo de mau prognóstico — depende de qual gene está mutado. A alternativa confunde "mutação" com "p53 aberrante", que é o subgrupo de fato agressivo.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta porque os tumores com alterações aberrantes de p53 (grupo de alto número de cópias) são os de comportamento mais agressivo, com maior risco de recorrência e pior sobrevida. Essa é a correlação prognóstica mais sólida da classificação molecular do câncer de endométrio, validada pelo TCGA e incorporada às diretrizes da OMS e da ESGO/ESTRO/ESP.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que tumores com deficiência de reparo de DNA (MSI) não têm relação com imunoterapia. É o oposto: a deficiência de MMR gera alta carga de neoantígenos, tornando esses tumores particularmente sensíveis a inibidores de checkpoint imunológico (pembrolizumabe, dostarlimabe). A aprovação do pembrolizumabe para tumores MSI-H/dMMR irressecáveis ou metastáticos, independentemente do sítio primário, consolidou essa relação. A alternativa inverte completamente a realidade terapêutica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que tumores sem perfil molecular específico (grupo de baixo número de cópias, também chamado NSMP — no specific molecular profile) são tipicamente negativos para receptores hormonais. Na prática, o grupo NSMP é heterogêneo, mas frequentemente expressa receptores de estrogênio e progesterona, especialmente nos tumores endometrioides de baixo grau. A negatividade hormonal é mais característica dos tumores serosos (p53 aberrante). A alternativa troca o perfil imuno-histoquímico típico dos grupos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a classificação molecular não influencia decisões terapêuticas atuais. É falso: a classificação molecular já é parte integrante da prática clínica, influenciando desde a decisão de realizar imunoterapia (tumores MSI) até a intensificação do tratamento adjuvante (p53 aberrante) e a orientação para testes genéticos germinativos (síndrome de Lynch em tumores MSI). A alternativa nega uma realidade consolidada nas diretrizes internacionais.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre "mutação" e "mau prognóstico". No câncer de endométrio, o grupo POLE ultramutado tem ótimo prognóstico, enquanto o pior prognóstico é do grupo com p53 aberrante. Guarde: POLE = melhor; p53 = pior; MSI = imunoterapia; NSMP = intermediário.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar os quatro grupos, use a sigla P-M-B-A: POLE (bom), MSI (imunoterapia), Baixo número de cópias (intermediário), Alto número de cópias/p53 (ruim). Associe cada grupo à sua consequência clínica principal — isso resolve a maioria das questões sobre o tema.