Questão de Medicina — Oncologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Oncologia
Código
qg727370
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Oncologia Clínica
Um homem de 58 anos, tabagista de longa data (40 maços-ano), etilista crônico, com IMC de 31 kg/m² e exposição ocupacional a solventes orgânicos, deseja entender por que seu risco global de câncer é elevado. Com base nos mecanismos biológicos envolvidos na carcinogênese, faz(em) parte dos processos ativados por esses fatores de risco:
Aaumento exclusivo da imunossupressão induzida pela obesidade.
Belevação do estresse oxidativo, formação de adutos de DNA e inflamação crônica.
Csomente maior taxa de mutações espontâneas por replicação celular.
Dativação seletiva de receptores nucleares por solventes industriais.
Eepigenética exclusivamente via hipermetilação global do DNA.
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GabaritoB — elevação do estresse oxidativo, formação de adutos de DNA e inflamação crônica.
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Carcinogênese: mecanismos biológicos dos fatores de risco
Gabarito: letra B. O tabagismo, o etilismo, a obesidade e a exposição a solventes orgânicos elevam o risco de câncer por mecanismos que convergem para o estresse oxidativo, a formação de adutos de DNA e a inflamação crônica — processos que promovem mutações e instabilidade genômica. As demais alternativas erram ao restringir o mecanismo a um único fator ou a um processo isolado, como imunossupressão exclusiva, mutações espontâneas, ativação seletiva de receptores nucleares ou hipermetilação global.
A carcinogênese é um processo multifatorial e multietapas, no qual a célula normal acumula alterações genéticas e epigenéticas até se transformar em maligna. Os fatores de risco citados no enunciado — tabagismo (40 maços-ano), etilismo crônico, obesidade (IMC 31 kg/m²) e exposição ocupacional a solventes — atuam por vias que se sobrepõem e se potencializam. O tabaco contém mais de 60 carcinógenos conhecidos, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e nitrosaminas, que são metabolizados em espécies reativas de oxigênio (ERO) e formam adutos de DNA — ligações covalentes entre o carcinógeno e as bases nitrogenadas, que, se não reparadas, geram mutações pontuais. O etanol, por sua vez, é metabolizado a acetaldeído, um composto reativo que também forma adutos e induz estresse oxidativo, além de atuar como solvente que facilita a penetração de outros carcinógenos. A obesidade mantém um estado de inflamação crônica de baixo grau, com produção de citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6) e adipocinas, que estimulam a proliferação celular e inibem a apoptose. Os solventes orgânicos, como o benzeno, são carcinógenos diretos que geram ERO e danos ao DNA.
Esses mecanismos não são mutuamente exclusivos — pelo contrário, eles se somam. O estresse oxidativo é o elo comum: as ERO danificam o DNA (formando, por exemplo, 8-oxo-guanina), as proteínas e os lipídios, e a inflamação crônica recruta células imunes que liberam mais ERO e citocinas, criando um ciclo vicioso. A formação de adutos de DNA é um evento iniciador, mas a progressão tumoral depende da falha nos sistemas de reparo e da seleção de clones com vantagem proliferativa. A inflamação crônica, além de gerar dano genético, promove angiogênese, sobrevivência celular e evasão imune — o chamado microambiente tumoral inflamado.
A banca explora a tendência de o candidato associar cada fator de risco a um mecanismo único e específico. O tabagismo, por exemplo, é frequentemente ligado apenas a mutações; a obesidade, apenas à imunossupressão; os solventes, apenas à ativação de receptores. No entanto, a visão integrada da carcinogênese mostra que todos esses fatores convergem para um conjunto comum de processos: estresse oxidativo, dano ao DNA (adutos) e inflamação crônica. É essa convergência que a alternativa correta captura.
Guarde o critério decisivo: a questão pergunta quais processos são ativados por esses fatores de risco — não qual fator ativa qual processo isoladamente. A alternativa correta é a que descreve o mecanismo compartilhado e integrado, enquanto as incorretas isolam um único fator ou um único processo.
Carcinogênese: mecanismos ativados por fatores de risco
1Estresse oxidativo
ERO danificam DNA, proteínas e lipídios
Elo comum entre tabaco, etanol e solventes
2Adutos de DNA
Ligação covalente carcinógeno-base
Gera mutações se não reparado
3Inflamação crônica
Mantida por obesidade e etilismo
Promove proliferação e evasão imune
4Convergência
Processos interdependentes
Se potencializam mutuamente
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o risco elevado se deve ao aumento exclusivo da imunossupressão induzida pela obesidade. O erro está em dois pontos: (1) a imunossupressão não é o único mecanismo da obesidade — a obesidade também promove inflamação crônica, resistência à insulina e alterações hormonais (estrogênio, leptina) que estimulam a proliferação celular; (2) o termo "exclusivo" é falso, pois o paciente tem múltiplos fatores de risco (tabagismo, etilismo, solventes) que atuam por outras vias, como estresse oxidativo e adutos de DNA. A imunossupressão é um componente, não o mecanismo exclusivo.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve exatamente os processos centrais da carcinogênese ativados pelos fatores de risco do paciente: elevação do estresse oxidativo (produção de ERO pelo tabaco, etanol e solventes), formação de adutos de DNA (ligações covalentes entre carcinógenos reativos e bases do DNA, gerando mutações) e inflamação crônica (mantida pela obesidade e pelo etilismo, criando microambiente pró-tumoral). Esses três processos são interdependentes e se potencializam mutuamente, representando a via comum pela qual fatores de risco tão diversos aumentam o risco de câncer.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o risco se deve somente a maior taxa de mutações espontâneas por replicação celular. O erro está em dois pontos: (1) as mutações espontâneas ocorrem em taxa relativamente baixa e não explicam o risco aumentado por fatores exógenos — o que aumenta é a taxa de mutações induzidas por carcinógenos (adutos de DNA, ERO); (2) o termo "somente" exclui os demais mecanismos, como inflamação crônica e estresse oxidativo, que também contribuem para a carcinogênese. A replicação celular é um momento de vulnerabilidade, mas não é o mecanismo primário ativado pelos fatores de risco.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que o risco se deve à ativação seletiva de receptores nucleares por solventes industriais. O erro está em dois pontos: (1) a ativação de receptores nucleares (como o receptor de hidrocarboneto arila, AhR) é um mecanismo relevante para alguns carcinógenos, mas não é o mecanismo principal dos solventes orgânicos — estes atuam principalmente por estresse oxidativo e formação de adutos; (2) o termo "seletiva" é falso, pois os solventes não ativam seletivamente um único tipo de receptor, e o paciente tem outros fatores de risco (tabaco, álcool, obesidade) que não atuam por essa via. A alternativa reduz o mecanismo a um único fator e a um único processo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o risco se deve à epigenética exclusivamente via hipermetilação global do DNA. O erro está em dois pontos: (1) a epigenética do câncer envolve tanto hipermetilação de ilhas CpG em promotores de genes supressores de tumor (silenciando-os) quanto hipometilação global (ativando oncogenes e elementos repetitivos) — não é exclusivamente hipermetilação; (2) o termo "exclusivamente" exclui os mecanismos genéticos (mutações, adutos) e os processos inflamatórios e oxidativos, que são centrais na carcinogênese. A epigenética é um componente, mas não o único mecanismo ativado pelos fatores de risco.
Gabarito: letra B — a alternativa que descreve corretamente os processos integrados de estresse oxidativo, formação de adutos de DNA e inflamação crônica, ativados pelos múltiplos fatores de risco do paciente.