Questão de Medicina — Otorrinolaringologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Otorrinolaringologia
Código
qg727381
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Otorrinolaringologia
Paciente de 38 anos procura atendimento em unidade de emergência referindo vertigem súbita de grande intensidade. Nega outros sintomas. Ao exame, apresenta otoscopia sem alterações, head impulse test com sacada corretiva ao girar a cabeça para a direita, nistagmo espontâneo à esquerda, teste de Skew sem alterações. Com base nessas informações, assinale a alternativa que melhor apresenta, respectivamente a hipótese diagnóstica e o tratamento indicado nesse caso.
AAVC de fossa posterior. Tratar com trombólise em conjunto com equipe de neurologia.
BNeurite Vestibular. Tratar em conjunto com a equipe de otorrinolaringologia e fonoaudiologia com exercícios de reabilitação vestibular.
CSíndrome de Ménière. Prescrever betatistina e dar alta.
DMigrânea Vestibular. Prescrever flunarizina e dar alta.
EVPPB. Encaminhar para manobra de Epley com equipe de fonoaudiologia.
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GabaritoB — Neurite Vestibular. Tratar em conjunto com a equipe de otorrinolaringologia e fonoaudiologia com exercícios de reabilitação vestibular.
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Vertigem aguda: neurite vestibular versus AVC de fossa posterior
Gabarito: letra B. O quadro descrito — vertigem súbita de grande intensidade, sem sintomas auditivos, com head impulse test alterado à direita (sacada corretiva), nistagmo espontâneo à esquerda e teste de Skew normal — é a apresentação clássica da neurite vestibular, uma vestibulopatia periférica aguda. O tratamento de primeira linha envolve controle sintomático na fase aguda e reabilitação vestibular, idealmente conduzida em conjunto com otorrinolaringologia e fonoaudiologia. A alternativa B espelha exatamente esse raciocínio.
A neurite vestibular é uma inflamação do nervo vestibular, geralmente de causa viral, que acomete adultos jovens e de meia-idade com vertigem aguda intensa e duradoura (dias a semanas), sem comprometimento auditivo. O diagnóstico é essencialmente clínico, e o principal desafio é diferenciá-la do AVC de fossa posterior, que também se apresenta como síndrome vestibular aguda. É aqui que entra o exame HINTS (Head-Impulse–Nystagmus–Test-of-Skew), uma tríade de manobras à beira do leito que, em pacientes sintomáticos, é mais sensível que a ressonância magnética para detectar AVC isquêmico agudo na fossa posterior.
No caso apresentado, os três componentes do HINTS apontam para origem periférica: o head impulse test com sacada corretiva à direita indica disfunção do reflexo vestíbulo-ocular do lado direito (achado periférico); o nistagmo espontâneo à esquerda, unidirecional e horizonto-rotatório, "bate para o lado bom" (padrão periférico); e o teste de Skew sem alterações afasta desalinhamento vertical dos olhos, que seria um sinal de alerta para origem central. A combinação desses achados torna o diagnóstico de neurite vestibular altamente provável e o de AVC de fossa posterior improvável.
O tratamento da neurite vestibular tem três pilares: (1) supressores vestibulares (como dimenidrinato, meclizina ou benzodiazepínicos) apenas nos primeiros 2 a 3 dias, para não retardar a compensação central; (2) corticoides na fase aguda, embora com evidência controversa quanto ao benefício a longo prazo; e (3) reabilitação vestibular, com exercícios de Cawthorne-Cooksey, especialmente benéfica nos pacientes que permanecem com disfunção vestibular unilateral. O encaminhamento à reabilitação vestibular é recomendado, e a atuação conjunta com otorrinolaringologia e fonoaudiologia é o padrão de cuidado.
A pegadinha central desta questão é a interpretação do HINTS: muitos candidatos, ao verem vertigem súbita intensa, pensam imediatamente em AVC de fossa posterior e indicam trombólise. No entanto, o HINTS foi desenhado exatamente para evitar esse erro — os achados periféricos (head impulse alterado, nistagmo unidirecional, Skew normal) praticamente excluem a etiologia central. A banca explora a confusão entre os padrões de nistagmo e a interpretação do head impulse test, que são os elementos que separam as vestibulopatias periféricas das centrais.
Guarde a fronteira entre os achados periféricos e centrais do HINTS: é exatamente nela que as alternativas se dividem. O head impulse test alterado (com sacada corretiva) e o nistagmo unidirecional são periféricos; o head impulse test normal, o nistagmo bidirecional ou vertical e o Skew positivo são centrais.
HINTS (síndrome vestibular aguda)
1Periférico (neurite vestibular)
Head impulse: alterado (sacada corretiva)
Nistagmo: unidirecional, bate p/ lado bom
Skew: normal
2Central (AVC fossa posterior)
Head impulse: normal
Nistagmo: bidirecional/vertical
Skew: positivo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O AVC de fossa posterior é o principal diagnóstico diferencial da neurite vestibular, mas os achados do HINTS no caso são claramente periféricos: head impulse test com sacada corretiva (alterado), nistagmo unidirecional à esquerda e Skew normal. No AVC de fossa posterior, o head impulse test costuma estar normal (o reflexo vestíbulo-ocular está preservado), o nistagmo pode ser bidirecional, vertical ou torcional puro, e o teste de Skew frequentemente é positivo. Além disso, o paciente nega outros sintomas — no AVC, é comum haver déficits neurológicos focais associados. A indicação de trombólise seria um erro grave diante de um quadro periférico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A neurite vestibular é uma vestibulopatia periférica aguda, de provável causa viral, que cursa com vertigem súbita intensa, sem sintomas auditivos, e com os achados de HINTS periféricos descritos: head impulse test alterado à direita, nistagmo espontâneo unidirecional à esquerda (batendo para o lado bom) e teste de Skew normal. O tratamento envolve controle sintomático na fase aguda (supressores vestibulares por curto prazo) e reabilitação vestibular, que deve ser conduzida em conjunto com otorrinolaringologia e fonoaudiologia. A reabilitação vestibular com exercícios de Cawthorne-Cooksey é benéfica nos pacientes com disfunção vestibular unilateral, acelerando a compensação central.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A Síndrome de Ménière é uma vestibulopatia periférica caracterizada por crises recorrentes de vertigem com duração de horas, associadas a hipoacusia flutuante, zumbido e plenitude auricular. O paciente do caso apresenta vertigem súbita de grande intensidade, nega outros sintomas (portanto, sem sintomas auditivos) e tem achados de HINTS periféricos — o que não se encaixa no quadro de Ménière, que é uma vertigem recorrente, não um episódio único e prolongado. Além disso, o tratamento com betatistina e alta não é o manejo adequado para uma síndrome vestibular aguda, que exige supressores vestibulares na fase aguda e reabilitação vestibular.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A Migrânea Vestibular é uma causa de vertigem recorrente, frequentemente associada a cefaleia, fotofobia, fonofobia e aura visual. O paciente do caso apresenta vertigem súbita de grande intensidade, nega outros sintomas (incluindo cefaleia) e tem achados de HINTS periféricos — o que não é compatível com migrânea vestibular, que não cursa com head impulse test alterado nem com nistagmo espontâneo periférico típico. O tratamento com flunarizina e alta não é o manejo adequado para uma síndrome vestibular aguda, que exige supressores vestibulares na fase aguda e reabilitação vestibular.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A VPPB é a causa mais comum de vertigem, mas é uma vertigem posicional, desencadeada por movimentos específicos da cabeça, com episódios de curta duração (segundos a minutos) e recorrentes. O paciente do caso apresenta vertigem súbita de grande intensidade, sem relação com posição, e tem achados de HINTS periféricos compatíveis com neurite vestibular — não com VPPB, que não cursa com head impulse test alterado nem com nistagmo espontâneo. O tratamento da VPPB é a manobra de Epley, que não se aplica à neurite vestibular. A reabilitação vestibular é indicada na neurite, mas o diagnóstico e o tratamento inicial são diferentes.
Gabarito: letra B — o caso é de neurite vestibular, e o tratamento envolve reabilitação vestibular em conjunto com otorrinolaringologia e fonoaudiologia.