Questão de Medicina — Geriatria — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Geriatria
Código
qg727701
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Urologia
Mulher de 84 anos, frágil, com hipertensão, diabetes controlada, degeneração cognitiva leve e antecedente de três ITUs no último ano.Refere urgência intensa, episódios de urgeincontinência, noctúria 3–4x/noite e fluxo enfraquecido. Nega dor. Exame físico: sem prolapso significativo.Exames:• EAS: leucocitúria leve, sem bacteriúria significativa.• RM de pelve (prévia): sem massas, sem bexiga neurogênica estrutural.• Volume residual pós-miccional: 220 mL.• Medicamentos em uso: oxibutinina 5 mg 2×/dia, anlodipina, sertralina, metformina.Na reavaliação, o paciente relata boca seca intensa, confusão episódica ao entardecer e piora da mobilidade desde o início da oxibutinina.Considerando as evidências específicas para idosos, qual é a melhor conduta?
AManter oxibutinina e aumentar a dose, pois idosos requerem maior ocupação de receptores para responder
BSuspender oxibutinina e iniciar mirabegrona, avaliando RPM periodicamente.
CTrocar oxibutinina por outro antimuscarínico de alta potência (ex.: tolterodina), pois produz menos efeitos adversos no SNC.
DRealizar cistoscopia e programar injeção intradetrusora de toxina botulínica como primeira alternativa.
EIniciar antibioticoterapia profilática de longa duração, pois leucocitúria recorrente indica ITU de repetição.
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GabaritoB — Suspender oxibutinina e iniciar mirabegrona, avaliando RPM periodicamente.
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Incontinência urinária no idoso frágil: manejo da bexiga hiperativa e efeitos anticolinérgicos
Gabarito: letra B. A paciente idosa frágil apresenta sintomas de bexiga hiperativa (urgência, urgeincontinência, noctúria) com volume residual pós-miccional (RPM) elevado (220 mL) e, desde o início da oxibutinina, desenvolveu boca seca intensa, confusão episódica e piora da mobilidade — efeitos adversos anticolinérgicos centrais e periféricos que contraindicam a manutenção do fármaco. A conduta correta é suspender a oxibutinina e iniciar mirabegrona, um β3-agonista que não atravessa a barreira hematoencefálica na mesma medida e tem menor risco de efeitos cognitivos, avaliando o RPM periodicamente devido ao risco de retenção urinária.
A incontinência urinária (IU) é um problema comum e subdiagnosticado no idoso, com impacto significativo na qualidade de vida, mobilidade e risco de quedas. A bexiga hiperativa (BH) é caracterizada por urgência miccional, geralmente acompanhada de frequência e noctúria, com ou sem urgeincontinência. No idoso frágil, a fisiopatologia é multifatorial: há declínio da capacidade vesical, aumento da atividade do detrusor (contrações não inibidas), redução da contratilidade e alterações no esvaziamento. O volume residual pós-miccional (RPM) é um parâmetro essencial na avaliação — valores acima de 100–150 mL indicam esvaziamento inadequado, e valores como 220 mL (como no caso) sugerem bexiga hipoativa ou obstrução infravesical, o que torna o uso de anticolinérgicos potencialmente perigoso, pois podem piorar a retenção.
Os antimuscarínicos (oxibutinina, tolterodina, solifenacina, darifenacina) são a primeira linha farmacológica para BH, mas têm efeitos adversos bem documentados: boca seca, constipação, visão turva, taquicardia e, crucialmente, efeitos no sistema nervoso central (SNC) — confusão, delirium, sonolência e declínio cognitivo — especialmente em idosos frágeis, que têm maior permeabilidade da barreira hematoencefálica e menor reserva cognitiva. A oxibutinina é particularmente problemática por ser altamente lipofílica e atravessar facilmente a BHE. A mirabegrona, um agonista do receptor β3-adrenérgico, promove relaxamento do detrusor durante a fase de enchimento sem os efeitos anticolinérgicos, sendo uma alternativa mais segura em idosos com comprometimento cognitivo ou em uso de múltiplos medicamentos anticolinérgicos (carga anticolinérgica). No entanto, a mirabegrona pode aumentar o risco de retenção urinária, especialmente em pacientes com RPM elevado, daí a necessidade de monitorização periódica do RPM.
Na prática, a conduta diante de um idoso frágil com BH e RPM elevado deve ser: (1) revisar a medicação — suspender fármacos que pioram a função vesical ou causam efeitos adversos; (2) avaliar a função renal e a clearance de creatinina para ajuste de doses; (3) considerar a troca para mirabegrona se os sintomas de BH persistirem, com monitorização do RPM; (4) implementar medidas não farmacológicas — treinamento vesical, micção programada, ingestão hídrica adequada, fisioterapia do assoalho pélvico; (5) tratar causas reversíveis — ITU, constipação, hiperglicemia, uso de diuréticos. A toxina botulínica intradetrusora é uma opção de segunda/terceira linha para BH refratária, mas não é a primeira alternativa, especialmente sem falha documentada de tratamento clínico otimizado. A cistoscopia é indicada para investigar causas estruturais (tumores, cálculos, estenose), mas não é o primeiro passo na avaliação de BH não complicada. A antibioticoterapia profilática não é indicada para leucocitúria assintomática — o EAS mostra leucocitúria leve sem bacteriúria significativa, o que não configura ITU ativa, e o uso de antibióticos profiláticos em idosos com ITUs recorrentes deve ser individualizado, mas não é a conduta imediata para os sintomas urinários atuais.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que os sintomas de confusão e boca seca são efeitos adversos da oxibutinina, e não simplesmente "envelhecimento normal" ou progressão da demência. O candidato pode ser tentado a manter a medicação e aumentar a dose (alternativa A), trocar por outro antimuscarínico (alternativa C) ou tratar uma suposta ITU (alternativa E), mas a evidência aponta para a suspensão do anticolinérgico e a troca para um fármaco com perfil mais seguro no SNC. A alternativa B é a única que aborda corretamente a necessidade de suspender a oxibutinina e iniciar mirabegrona, com monitorização do RPM — uma conduta baseada em evidências para idosos frágeis com BH e risco de retenção.
Critério
Oxibutinina (antimuscarínico)
Mirabegrona (β3-agonista)
Mecanismo de ação
Bloqueio de receptores muscarínicos
Ativação de receptores β3-adrenérgicos
Efeitos no SNC (cognição, confusão)
Alto risco (atravessa a BHE)
Baixo risco (mínima penetração no SNC)
Efeitos periféricos (boca seca, constipação)
Frequentes e intensos
Raros
Risco de retenção urinária (RPM elevado)
Pode piorar
Pode piorar (exige monitorização do RPM)
Uso no idoso frágil
Evitar (especialmente com comprometimento cognitivo)
Preferencial (alternativa mais segura)
Bexiga hiperativa no idoso frágil: Avaliação inicial (RPM elevado (220 mL), EAS sem bacteriúria); Oxibutinina (anticolinérgico) (Boca seca intensa, Confusão episódica, Piora da mobilidade); Conduta correta (Suspender oxibutinina, Iniciar mirabegrona (β3-agonista), Monitorizar RPM periodicamente)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Manter a oxibutinina e aumentar a dose é um erro grave. A paciente já apresenta efeitos adversos anticolinérgicos significativos (boca seca intensa, confusão episódica, piora da mobilidade) e RPM elevado (220 mL). Aumentar a dose pioraria esses efeitos e aumentaria o risco de retenção urinária, delirium e quedas. A premissa de que "idosos requerem maior ocupação de receptores" é falsa — na verdade, idosos são mais sensíveis aos efeitos adversos dos anticolinérgicos e frequentemente necessitam de doses menores, não maiores.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Suspender a oxibutinina e iniciar mirabegrona é a conduta correta. A mirabegrona é um β3-agonista que relaxa o detrusor sem os efeitos anticolinérgicos centrais, sendo mais segura em idosos com comprometimento cognitivo. A monitorização periódica do RPM é essencial porque a mirabegrona pode piorar a retenção urinária, especialmente em pacientes com RPM já elevado. Esta abordagem está alinhada com as diretrizes de manejo da BH no idoso frágil.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Trocar por outro antimuscarínico (tolterodina) não resolve o problema. Embora a tolterodina possa ter menor penetração no SNC que a oxibutinina, ainda é um anticolinérgico e pode causar efeitos adversos semelhantes, especialmente em idosos frágeis. A alternativa correta é mudar de classe farmacológica (para um β3-agonista), não trocar por outro fármaco da mesma classe. Além disso, o RPM elevado contraindica o uso de qualquer anticolinérgico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Realizar cistoscopia e programar toxina botulínica como primeira alternativa é prematuro. A toxina botulínica intradetrusora é uma opção de segunda/terceira linha para BH refratária ao tratamento clínico otimizado. A paciente ainda não teve falha terapêutica documentada com tratamento adequado (a oxibutinina foi mal tolerada, mas não houve tentativa com mirabegrona). A cistoscopia é indicada para investigar causas estruturais, mas não é o primeiro passo na avaliação de BH não complicada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Iniciar antibioticoterapia profilática é inadequado. O EAS mostra leucocitúria leve sem bacteriúria significativa, o que não configura ITU ativa. A leucocitúria isolada em idosos é comum e não indica infecção. A profilaxia antibiótica para ITUs recorrentes deve ser individualizada e considerada apenas após avaliação cuidadosa, não como primeira conduta para sintomas de bexiga hiperativa. Além disso, o uso indiscriminado de antibióticos em idosos aumenta o risco de resistência bacteriana e efeitos adversos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os efeitos adversos da oxibutinina (confusão, boca seca) e a progressão da demência ou uma ITU. O candidato pode ser tentado a manter a medicação, aumentar a dose ou tratar uma suposta infecção, mas a chave é reconhecer que os sintomas são iatrogênicos e que a conduta correta é suspender o anticolinérgico e trocar para mirabegrona, monitorando o RPM. Com treino, você identifica esses padrões de efeitos adversos medicamentosos em idosos de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de geriatria, sempre avalie a carga anticolinérgica dos medicamentos em uso. Se o idoso apresenta confusão, boca seca, constipação ou retenção urinária, suspeite de efeitos anticolinérgicos. A troca para mirabegrona (β3-agonista) é uma alternativa segura, mas exige monitorização do RPM. Memorize: oxibutinina → efeitos no SNC; mirabegrona → menor risco cognitivo, mas risco de retenção.