Questão de Medicina — Médico da Família — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Médico da Família
Código
qg727702
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Urologia
Homem de 52 anos procura a Unidade Básica de Saúde após insistência da esposa. Relata que “nunca vai ao médico” e veio apenas porque está cansado no final do dia. Não tem sintomas urinários, pratica pouca atividade física, ingere álcool nos fins de semana e tem pai falecido por IAM aos 54 anos. Trabalha em horário comercial, o que dificulta o comparecimento às consultas. Durante a consulta, pergunta ao médico se deve “aproveitar e fazer logo o exame do PSA para prevenir câncer de próstata”.De acordo com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) e a Abordagem Primária à Saúde (APS) e conforme a recomendação formal do Ministério da Saúde/INCA, qual deve ser a resposta mais adequada?
ASolicitar PSA imediatamente, pois homens acima de 50 anos devem realizar o exame anualmente como rastreamento.
BOrientar que o rastreamento populacional com PSA não é recomendado e realizar decisão compartilhada, explicando riscos e benefícios caso ele deseje prosseguir.
CEncaminhar diretamente ao urologista para avaliação e toque retal, pois a história familiar de IAM aumenta risco de câncer.
DSolicitar PSA e ultrassom de próstata preventivos, pois são exames simples e evitam o sobrediagnóstico.
EEvitar conversar sobre rastreamento e focar apenas em medir pressão e glicemia, pois prevenção de câncer não faz parte da APS.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — Orientar que o rastreamento populacional com PSA não é recomendado e realizar decisão compartilhada, explicando riscos e benefícios caso ele deseje prosseguir.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Rastreamento do câncer de próstata na Atenção Primária
Gabarito: letra B. O rastreamento populacional do câncer de próstata com PSA não é recomendado pelo Ministério da Saúde/INCA; a conduta correta é orientar o paciente sobre isso e, caso ele deseje prosseguir, realizar a decisão compartilhada, explicando riscos e benefícios. Essa recomendação está alinhada à Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) e aos princípios da Atenção Primária à Saúde (APS), que valorizam a prevenção quaternária e a autonomia do paciente.
O rastreamento do câncer de próstata é um tema que gera muita dúvida na prática clínica, especialmente na Atenção Primária. É preciso distinguir dois conceitos fundamentais: rastreamento e diagnóstico precoce. O rastreamento é a aplicação de um teste em uma população assintomática, com o objetivo de identificar uma doença em fase pré-clínica. Já o diagnóstico precoce ocorre quando o paciente apresenta sintomas ou sinais que levantam a suspeita da doença, e o exame é usado para confirmar ou excluir o diagnóstico. No caso do câncer de próstata, o rastreamento com PSA em homens assintomáticos não é recomendado como política de saúde pública, pois os estudos não demonstraram redução da mortalidade específica que justifique os danos do sobrediagnóstico e do sobretratamento.
O sobrediagnóstico é a detecção de um câncer que nunca causaria sintomas ou morte durante a vida do paciente. Muitos cânceres de próstata são indolentes, ou seja, crescem lentamente e não representam ameaça à vida. Ao rastrear, encontramos esses tumores e acabamos tratando pacientes que não precisariam de tratamento, expondo-os a complicações como incontinência urinária e disfunção erétil. O sobretratamento é a consequência direta do sobrediagnóstico. Por isso, a recomendação atual é a de decisão compartilhada: o médico deve conversar com o paciente sobre os riscos e benefícios do rastreamento, respeitando sua autonomia e seus valores, e só então, se ele desejar, solicitar o PSA.
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) reforça a importância do acolhimento e do vínculo, especialmente com homens que, como o paciente do caso, costumam evitar o serviço de saúde. O médico de família deve aproveitar a consulta para abordar não apenas o rastreamento, mas também os fatores de risco presentes: sedentarismo, consumo de álcool, histórico familiar de infarto agudo do miocárdio (IAM) precoce. Esses fatores são mais relevantes para a prevenção de doenças cardiovasculares do que para o câncer de próstata. A história familiar de IAM aos 54 anos no pai é um forte preditor de risco cardiovascular, e a abordagem deve priorizar a estratificação de risco cardiovascular global, com orientações sobre atividade física, alimentação e cessação do álcool.
A banca explora a confusão entre o que é recomendado para o rastreamento do câncer de próstata e o que é mito popular. Muitos pacientes e até profissionais ainda acreditam que o PSA deve ser feito anualmente em todos os homens acima de 50 anos, mas essa prática foi abandonada pelas principais diretrizes, incluindo as do Ministério da Saúde e do INCA. A recomendação atual é a de que a decisão de rastrear seja individualizada e compartilhada, levando em conta os valores e preferências do paciente. O médico de família, como porta de entrada do sistema, tem o papel de educar e orientar, evitando tanto o excesso de exames quanto a negligência.
Guarde a fronteira entre rastreamento populacional (não recomendado) e decisão compartilhada (recomendada): é exatamente nela que as alternativas se dividem. A alternativa correta é a que reconhece essa distinção e propõe a conduta mais adequada à APS.
Rastreamento de câncer de próstata (PSA): Rastreamento populacional (Não recomendado (MS/INCA), Sobrediagnóstico, Sobretratamento); Diagnóstico precoce (Paciente sintomático, Suspeita clínica); Decisão compartilhada (Explicar riscos e benefícios, Respeitar autonomia do paciente, Solicitar PSA se paciente desejar)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que homens acima de 50 anos devem realizar PSA anualmente como rastreamento. Isso contraria a recomendação formal do Ministério da Saúde/INCA, que não recomenda o rastreamento populacional. A banca explora o conhecimento ultrapassado, que era praticado no passado, mas que foi abandonado por falta de evidência de benefício e pelos danos do sobrediagnóstico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta alinhada às diretrizes atuais. O rastreamento populacional com PSA não é recomendado, mas o paciente pode optar por realizá-lo após ser informado sobre riscos e benefícios. A decisão compartilhada é o modelo de tomada de decisão que respeita a autonomia do paciente e é amplamente recomendado na APS. O médico deve explicar que o PSA pode detectar cânceres que nunca causariam problemas, levando a tratamentos desnecessários, mas que, se o paciente desejar, o exame pode ser solicitado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Encaminhar diretamente ao urologista para avaliação e toque retal não é a conduta de primeira linha na APS para um paciente assintomático. Além disso, a história familiar de IAM aumenta o risco de doença cardiovascular, não de câncer de próstata. A banca troca o fator de risco: o histórico familiar relevante para câncer de próstata seria o de câncer de próstata em parente de primeiro grau, não o de IAM.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Solicitar PSA e ultrassom de próstata preventivos é exatamente o que se quer evitar. O ultrassom não é um exame de rastreamento para câncer de próstata e não previne o sobrediagnóstico — pelo contrário, aumenta as chances de se encontrar achados incidentais que levam a mais exames e procedimentos desnecessários. A banca inverte o conceito: exames preventivos não são sinônimo de rastreamento adequado.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Evitar conversar sobre rastreamento e focar apenas em medir pressão e glicemia é uma postura paternalista e incompleta. A prevenção de câncer faz parte da APS, e o médico deve abordar o tema, mesmo que seja para orientar que o rastreamento não é recomendado. A banca explora a falsa dicotomia entre prevenção de doenças cardiovasculares e prevenção de câncer, quando na verdade ambas devem ser abordadas de forma integrada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora trocar o que é recomendado pelo que é mito. Aqui, a alternativa A apresenta a prática antiga (PSA anual para todos acima de 50 anos) como se fosse atual, e a alternativa C confunde o fator de risco de IAM com o de câncer de próstata. Fique atento: a recomendação vigente é a de decisão compartilhada, não a de rastreamento em massa. Com treino, você reconhece essas armadilhas de longe.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de rastreamento, lembre-se do tripé: (1) o rastreamento só é recomendado quando há evidência de redução de mortalidade; (2) na dúvida, a conduta é a decisão compartilhada; (3) o médico de família deve abordar os fatores de risco globais, não apenas o exame em questão. Essa lógica se aplica a outros rastreamentos, como o de câncer de mama e de colo de útero.