Questão de Medicina — Cirurgia Geral — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg727755
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Cirurgia Geral
Paciente do sexo feminino, 61 anos, leucodérmica, procura o serviço de urgência do hospital com dor intensa no flanco esquerdo, iniciada dois dias antes e com piora progressiva. Nesse período, perdeu o apetite e relata ter tido febre não termometrada. Ao exame físico, percebeu-se massa dolorosa à palpação no flanco esquerdo. Os exames complementares revelaram leucocitose, imagem sugestiva de diverticulite sigmoidea em um cólon com múltiplas imagens diverticulares. De acordo com as diretrizes da Associação Médica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, qual das seguintes alternativas é indicação de operação em presença de diverticulite colônica aguda?
AAo ocorrerem mais de dois episódios de diverticulite aguda tratados corretamente.
BEm abscesso único peridiverticular, com evidência de fístula não bloqueada.
CEm caso de dúvida diagnóstica ao exame clínico entre massa divertícular e neoplásica.
DEm presença de espessamento inflamatório de múltiplos divertículos em uma única região.
EEm pacientes com diverticulose colônica extensa, complicada por diverticulite.
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GabaritoB — Em abscesso único peridiverticular, com evidência de fístula não bloqueada.
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Diverticulite aguda: indicações cirúrgicas
Gabarito: letra B. Em abscesso único peridiverticular com evidência de fístula não bloqueada, a cirurgia está indicada, pois a fístula representa uma complicação que não responde ao tratamento clínico ou à drenagem percutânea isolada, conforme as diretrizes da Associação Médica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. As demais alternativas apresentam situações que, isoladamente, não constituem indicação formal de operação na diverticulite aguda.
A diverticulite aguda é a inflamação de um ou mais divertículos do cólon, mais frequentemente no sigmoide, e sua apresentação clínica varia desde formas leves, tratadas ambulatorialmente, até quadros graves com peritonite generalizada. O diagnóstico é essencialmente clínico, mas a tomografia computadorizada com contraste intravenoso é o exame de imagem de escolha, permitindo classificar a gravidade e orientar a conduta. A classificação de Hinchey é amplamente utilizada para estratificar a doença: na classe Ia há inflamação pericólica contida ou fleimão; na Ib, abscesso pericólico contido; na II, abscesso pélvico, intra-abdominal distante ou retroperitoneal; na III, peritonite purulenta; e na IV, peritonite fecalenta. O tratamento varia conforme a classe: nas classes Ia e Ib, antibióticos intravenosos e repouso intestinal; na classe II, drenagem percutânea guiada por imagem, quando possível, associada a antibióticos; nas classes III e IV, a cirurgia é mandatória.
A indicação cirúrgica na diverticulite aguda segue critérios bem definidos. A cirurgia de urgência é indicada em casos de peritonite generalizada (Hinchey III e IV), perfuração livre, sangramento não controlado e falha do tratamento clínico ou da drenagem percutânea. A cirurgia eletiva pode ser considerada em situações específicas, como na presença de fístula, estenose sintomática, ou quando há dúvida diagnóstica com neoplasia. Historicamente, recomendava-se a cirurgia após dois ou mais episódios de diverticulite aguda, mas as diretrizes atuais da AMB e da SBCP não adotam mais esse critério de forma absoluta, pois a recidiva não aumenta o risco de complicações graves, como perfuração livre. A decisão deve ser individualizada, considerando a gravidade do episódio, a idade, as comorbidades e a preferência do paciente.
A fístula é uma complicação tardia da diverticulite, podendo ser colovesical, colovaginal ou coloentérica. A presença de fístula não bloqueada, ou seja, sem contenção pelo epíplon ou por outras estruturas, indica a necessidade de intervenção cirúrgica, pois o tratamento clínico não é eficaz para resolver a comunicação anômala entre o cólon e outro órgão. A cirurgia consiste na ressecção do segmento acometido com anastomose primária, na maioria dos casos. Já o abscesso único peridiverticular, quando contido, pode ser tratado com drenagem percutânea e antibióticos, sem necessidade imediata de cirurgia. A combinação de abscesso com fístula não bloqueada, entretanto, torna a cirurgia a conduta de escolha.
A dúvida diagnóstica entre massa diverticular e neoplásica é uma indicação de colonoscopia, e não de cirurgia imediata. A colonoscopia deve ser realizada de 6 a 8 semanas após o episódio agudo para afastar câncer colorretal. O espessamento inflamatório de múltiplos divertículos em uma única região, sem complicações como abscesso, fístula ou perfuração, é tratado clinicamente. A diverticulose colônica extensa complicada por diverticulite, sem outros critérios de gravidade, também não é indicação cirúrgica isolada. A cirurgia profilática para evitar episódios futuros pode ser oferecida a pacientes que desejam reduzir a recorrência, mas não é uma indicação absoluta.
A pegadinha desta questão está em associar a cirurgia a situações que, isoladamente, são tratadas clinicamente ou com drenagem percutânea, como o abscesso contido, a dúvida diagnóstica e a diverticulite recorrente. A banca explora a confusão entre as indicações clássicas, já superadas, e as recomendações atuais das diretrizes. O candidato deve lembrar que a cirurgia é reservada para complicações graves, como peritonite, perfuração livre, fístula não bloqueada, sangramento não controlado e falha do tratamento conservador.
Diverticulite aguda: Tratamento clínico (Hinchey Ia/Ib (fleimão/abscesso contido), Abscesso peridiverticular contido, Espessamento inflamatório isolado, Dúvida diagnóstica (→ colonoscopia)); Drenagem percutânea (Hinchey II (abscesso pélvico/distante)); Cirurgia de urgência (Hinchey III/IV (peritonite), Perfuração livre, Sangramento não controlado, Falha do tratamento clínico/drenagem); Cirurgia eletiva (Fístula não bloqueada, Estenose sintomática, Neoplasia confirmada)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que mais de dois episódios de diverticulite aguda tratados corretamente indicam cirurgia. Essa era uma recomendação antiga, mas as diretrizes atuais da AMB e da SBCP não consideram o número de episódios como indicação absoluta de operação. A recidiva não aumenta o risco de complicações graves, e a decisão cirúrgica deve ser individualizada. A cirurgia eletiva pode ser oferecida a pacientes que desejam evitar novos episódios, mas não é uma indicação obrigatória.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta. A presença de abscesso único peridiverticular com evidência de fístula não bloqueada é indicação de operação. A fístula é uma complicação que não responde ao tratamento clínico ou à drenagem percutânea isolada, exigindo ressecção cirúrgica do segmento acometido. A combinação de abscesso com fístula não bloqueada torna a cirurgia a conduta de escolha, conforme as diretrizes da AMB e da SBCP.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a dúvida diagnóstica entre massa diverticular e neoplásica indica cirurgia. Na verdade, a conduta é realizar colonoscopia de 6 a 8 semanas após o episódio agudo para investigar câncer colorretal. A cirurgia não é indicada apenas pela dúvida diagnóstica; ela é reservada para os casos em que a neoplasia é confirmada ou quando há complicações que exijam intervenção.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o espessamento inflamatório de múltiplos divertículos em uma única região indica cirurgia. Essa situação, sem complicações como abscesso, fístula ou perfuração, é tratada clinicamente com antibióticos e repouso intestinal. O espessamento inflamatório isolado não é indicação cirúrgica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a diverticulose colônica extensa complicada por diverticulite indica cirurgia. A diverticulose extensa, mesmo complicada por diverticulite, não é indicação cirúrgica isolada. A cirurgia é indicada quando há complicações específicas, como peritonite, perfuração livre, fístula não bloqueada, sangramento não controlado ou falha do tratamento conservador. A simples presença de diverticulite em um cólon com múltiplos divertículos não justifica a operação.