Questão de Medicina — Cirurgia Geral — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg727851
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Cirurgia Plástica
Paciente apresenta queimadura profunda no membro inferior, com exposição óssea, sem retalhos locais disponíveis. Considerando o caso apresentado, qual é a conduta adequada?
AEnxerto total direto.
BSubstituto dérmico em estágio único.
CRetalho livre microcirúrgico imediato.
DCurativos até epitelização espontânea.
EFixador externo e curativos a vácuo até cobertura secundária tardia.
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Queimaduras profundas com exposição óssea: conduta cirúrgica
Gabarito: letra C. Em queimadura profunda (4º grau) com exposição óssea e sem retalhos locais disponíveis, a conduta adequada é o retalho livre microcirúrgico imediato, pois o osso exposto não possui leito vascularizado para receber enxerto de pele, e o retalho livre traz tecido vascularizado de outra região, permitindo cobertura definitiva precoce. As demais alternativas falham por não fornecerem vascularização adequada ao osso exposto ou por adiarem a cobertura definitiva.
A queimadura de 4º grau (também chamada de queimadura profunda ou de espessura total com comprometimento de estruturas profundas) atinge tecidos além da pele, como tecido subcutâneo, músculos, tendões e ossos. O material de apoio define queimadura como "lesão causada por agentes térmicos, químicos, elétricos ou radiativos que, atuando nos tecidos de revestimento do corpo humano, destroem parcialmente ou totalmente a pele e seus anexos, podendo atingir camadas mais profundas como o tecido celular subcutâneo, músculos, tendões e ossos". Quando há exposição óssea, o problema central é que o osso não possui leito vascularizado capaz de receber um enxerto de pele — o enxerto depende de neovascularização a partir do leito receptor, o que não ocorre sobre osso desprovido de periósteo. Por isso, a cobertura exige tecido com vascularização própria, que é exatamente o que um retalho (local, regional ou livre) proporciona.
A escolha entre retalho local, regional ou livre depende da disponibilidade de tecido próximo. O enunciado afirma que "não há retalhos locais disponíveis", o que direciona para o retalho livre microcirúrgico: um bloco de tecido (pele, músculo, osso ou combinação) é transferido de uma região distante do corpo, com anastomose microcirúrgica de seus vasos sanguíneos a vasos próximos à área receptora. Essa técnica permite cobertura definitiva imediata, com tecido vascularizado, essencial para proteger estruturas nobres como osso, tendões e vasos, e para prevenir infecção e osteomielite. O retalho livre é a opção mais robusta quando não há retalhos locais viáveis e a área é crítica.
A conduta de "curativos até epitelização espontânea" é completamente inadequada, pois queimaduras de espessura total não reepitelizam — o material de apoio afirma que a queimadura de 3º grau "não reepiteliza e necessita de enxertia de pele". Já a opção de "fixador externo e curativos a vácuo até cobertura secundária tardia" representa uma estratégia de temporização, que pode ser útil em casos de politrauma ou instabilidade, mas não é a conduta ideal quando há possibilidade de cobertura definitiva precoce, especialmente em osso exposto, onde o risco de infecção e necrose é alto. O "substituto dérmico em estágio único" e o "enxerto total direto" também não são adequados: o primeiro não fornece vascularização ao osso exposto, e o segundo não tem leito receptor para pegar.
A pegadinha central desta questão é a distinção entre enxerto e retalho. O enxerto de pele (total ou parcial) é um tecido sem vascularização própria que depende do leito receptor para sobreviver; o retalho (local, regional ou livre) é um tecido que mantém ou recebe vascularização. Sobre osso exposto, apenas o retalho é viável. Guarde essa fronteira: osso exposto = retalho; leito vascularizado = enxerto. É exatamente nela que as alternativas se dividem.
Queimadura profunda com exposição óssea
1Problema central
Osso sem leito vascularizado
Enxerto não "pega"
2Conduta adequada
Retalho livre microcirúrgico
Tecido vascularizado próprio
Cobertura definitiva precoce
3Condutas inadequadas
Enxerto total direto
Substituto dérmico
Curativos até epitelização
Fixador externo + vácuo (temporização)
4Regra de ouro
Osso exposto → retalho
Leito vascularizado → enxerto
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O enxerto total direto é inviável sobre osso exposto. O enxerto de pele (total ou parcial) é um tecido avascular que depende de neovascularização a partir do leito receptor. O osso, sem periósteo, não oferece leito vascularizado, portanto o enxerto não "pega" e necrosa. Enxerto exige leito receptor vascularizado (músculo, tecido subcutâneo, derme); sobre osso exposto, a única opção é retalho.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O substituto dérmico em estágio único (como matriz dérmica acelular) é uma opção para queimaduras profundas com leito viável, mas não resolve a exposição óssea. O substituto dérmico também depende de um leito vascularizado para integração e posterior enxertia. Sobre osso exposto, sem vascularização, o substituto dérmico não se integra e há alto risco de infecção. Não é a conduta adequada para o caso.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O retalho livre microcirúrgico imediato é a conduta correta. O retalho livre traz tecido com vascularização própria (por anastomose microcirúrgica de artéria e veia), permitindo cobertura definitiva de estruturas nobres como osso exposto. Como não há retalhos locais disponíveis, o retalho livre é a opção que fornece tecido vascularizado de outra região, protegendo o osso, prevenindo infecção e osteomielite, e permitindo reconstrução precoce. É a técnica de escolha em queimaduras profundas com exposição de osso, tendão ou vasos quando retalhos locais não são possíveis.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Curativos até epitelização espontânea é conduta inadequada para queimadura de espessura total com exposição óssea. Queimaduras de 3º e 4º grau não reepitelizam — o material de apoio afirma que a queimadura de 3º grau "não reepiteliza e necessita de enxertia de pele". Além disso, a exposição óssea prolongada aumenta o risco de osteomielite, necrose e sepse. A epitelização espontânea só ocorre em queimaduras superficiais (1º e 2º grau superficial), não em lesões profundas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Fixador externo e curativos a vácuo até cobertura secundária tardia é uma estratégia de temporização, não a conduta definitiva ideal. O fixador externo pode ser usado para estabilizar fraturas associadas, e o curativo a vácuo (terapia por pressão negativa) pode preparar o leito, mas não fornece cobertura vascularizada ao osso exposto. A cobertura secundária tardia adia a reconstrução definitiva, aumentando o risco de infecção, contratura e perda funcional. Quando há possibilidade de retalho livre imediato, esta é a conduta preferível.
Gabarito: letra C — retalho livre microcirúrgico imediato é a conduta adequada para queimadura profunda com exposição óssea sem retalhos locais disponíveis.