Questão de Medicina — Geriatria — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Geriatria
Código
qg727974
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Clínica Médica
Mulher de 81 anos, independente para atividades básicas de vida diária, relata duas quedas no último ano, sem fraturas. Refere medo de cair novamente. Usa cinco medicamentos de uso contínuo, incluindo benzodiazepínico à noite. Ao exame, apresenta marcha lenta e dificuldade para levantar-se da cadeira sem apoio. Segundo as recomendações atuais para abordagem das síndromes geriátricas, qual é a conduta inicial mais adequada?
ASolicitar tomografia computadorizada de crânio de rotina.
BEncaminhar para cirurgia ortopédica preventiva.
CRealizar avaliação multifatorial do risco de quedas.
DPrescrever suplemento de cálcio e vitamina D isoladamente.
EOrientar repouso domiciliar para evitar novas quedas.
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GabaritoC — Realizar avaliação multifatorial do risco de quedas.
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Síndromes geriátricas: abordagem das quedas no idoso
Gabarito: letra C. A conduta inicial mais adequada é a avaliação multifatorial do risco de quedas, pois a paciente apresenta história de quedas recorrentes, medo de cair, polifarmácia (incluindo benzodiazepínico) e alterações de marcha e mobilidade — fatores que, segundo as diretrizes atuais, exigem uma abordagem abrangente e individualizada, e não medidas isoladas ou repouso. Essa recomendação está alinhada com as principais diretrizes de geriatria, como as da American Geriatrics Society (AGS) e do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), que preconizam a avaliação multifatorial para idosos com risco de queda.
A queda é uma das grandes síndromes geriátricas, definida como um evento não intencional que resulta em mudança de posição do indivíduo para um nível mais baixo. No Brasil, cerca de 29% dos idosos caem ao menos uma vez ao ano, e 13% caem de forma recorrente. As quedas são a principal causa de lesões graves, como fraturas e traumatismo craniano, e estão associadas a aumento da morbimortalidade, declínio funcional e institucionalização. Por isso, a abordagem correta não é tratar a queda como um evento isolado, mas como um marcador de fragilidade e de múltiplos fatores de risco modificáveis.
A avaliação multifatorial do risco de quedas é a pedra angular da prevenção. Ela envolve a investigação sistemática de fatores intrínsecos e extrínsecos, incluindo: circunstâncias da queda, uso de medicamentos (especialmente psicotrópicos, como benzodiazepínicos), problemas médicos agudos ou crônicos, nível de mobilidade, exame de visão, marcha e equilíbrio, função de membros inferiores, avaliação neurológica básica e avaliação cardiovascular. No caso da paciente, todos esses pontos são relevantes: ela usa cinco medicamentos, incluindo um benzodiazepínico à noite (fator de risco clássico), apresenta marcha lenta e dificuldade para levantar-se da cadeira (sugerindo fraqueza muscular e comprometimento do equilíbrio), e relata medo de cair, que é tanto consequência quanto fator de risco para novas quedas.
A avaliação multifatorial não é apenas um conjunto de exames; ela orienta intervenções individualizadas. As evidências mostram que intervenções multifatoriais, como revisão e ajuste de medicamentos, programas de exercícios de equilíbrio e força, correção de déficits visuais, tratamento de hipotensão postural e modificações ambientais, são eficazes na redução de quedas em idosos da comunidade. O exercício multicomponente, por exemplo, reduz a taxa de quedas em cerca de 29% e o risco de cair em 15%. A revisão de medicamentos é crucial, especialmente a redução ou suspensão de psicotrópicos, que são um dos principais fatores de risco modificáveis.
A distinção fundamental que a questão explora é entre medidas isoladas e abordagem abrangente. As alternativas incorretas propõem ações pontuais (tomografia de rotina, cirurgia preventiva, suplementação isolada, repouso) que não abordam a complexidade do problema. A avaliação multifatorial é a única que reconhece a natureza multifatorial das quedas e permite um plano de cuidado individualizado. A banca testa se o candidato compreende que, diante de um idoso com risco de queda, a conduta inicial não é um exame ou tratamento específico, mas sim uma avaliação global que identifique os fatores de risco e direcione as intervenções.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta induzir o candidato a escolher uma medida concreta e imediata (como solicitar uma tomografia ou prescrever suplementos), quando a conduta correta é a avaliação multifatorial. O erro clássico é pensar em "excluir causa orgânica" ou "tratar osteoporose" antes de avaliar o paciente como um todo. Lembre-se: quedas são uma síndrome geriátrica multifatorial, e a abordagem inicial é sempre a avaliação abrangente.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Solicitar tomografia computadorizada de crânio de rotina é uma conduta inadequada. A paciente não apresenta sinais de trauma craniano agudo, déficit neurológico focal ou alteração do nível de consciência que justifiquem o exame. A tomografia de crânio não faz parte da avaliação inicial de quedas sem indicação clínica específica. A conduta correta seria avaliar a indicação do exame com base na história e no exame físico, não de forma rotineira.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Encaminhar para cirurgia ortopédica preventiva é um absurdo clínico. Não há indicação de procedimento cirúrgico para prevenção de quedas em idoso sem fratura ou condição ortopédica específica. A cirurgia ortopédica é reservada para o tratamento de fraturas ou outras condições musculoesqueléticas, não para prevenção primária de quedas. Essa alternativa demonstra desconhecimento total da abordagem das síndromes geriátricas.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Realizar avaliação multifatorial do risco de quedas é a conduta inicial mais adequada, conforme as recomendações atuais. A paciente apresenta múltiplos fatores de risco: duas quedas no último ano, medo de cair, uso de cinco medicamentos (incluindo benzodiazepínico), marcha lenta e dificuldade para levantar-se da cadeira. A avaliação multifatorial deve incluir a análise das circunstâncias das quedas, revisão de medicamentos, avaliação da marcha e equilíbrio, exame de visão, avaliação neurológica e cardiovascular, e identificação de fatores ambientais. Essa abordagem permite um plano de intervenção individualizado e eficaz.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Prescrever suplemento de cálcio e vitamina D isoladamente é uma medida insuficiente e não aborda a causa multifatorial das quedas. Embora a suplementação possa ser benéfica para a saúde óssea e prevenção de fraturas em idosos com deficiência, ela não trata os fatores de risco para quedas, como alterações de marcha, uso de medicamentos psicotrópicos ou fraqueza muscular. A suplementação isolada não é a conduta inicial recomendada para prevenção de quedas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Orientar repouso domiciliar para evitar novas quedas é uma conduta prejudicial e contraindicada. O repouso prolongado leva à imobilidade, perda de força muscular, declínio funcional e aumento do risco de quedas. A recomendação correta é manter o idoso ativo, com programas de exercícios de equilíbrio e força, e não restringir suas atividades. O medo de cair, que a paciente relata, é um fator de risco que deve ser abordado com estratégias de confiança e reabilitação, não com repouso.
Gabarito: letra C — a avaliação multifatorial do risco de quedas é a conduta inicial mais adequada para idosos com história de quedas e múltiplos fatores de risco.