Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg727987
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Clínica Médica
Paciente de 72 anos, portador de doença renal crônica estágio 4, apresenta gasometria arterial com pH 7,28, bicarbonato sérico de 16 mEq/L e pressão parcial de dióxido de carbono adequada à compensação respiratória. Não há evidência de acidose láctica ou cetoacidose. Qual mecanismo predomina na gênese desse distúrbio ácidobásico?
ARetenção de ácidos orgânicos por falência hepática associada.
BRedução da reabsorção proximal de bicarbonato com aumento da diurese.
CDiminuição da excreção renal de amônio e de ácidos tituláveis.
DHiperventilação crônica, levando à perda renal compensatória de bicarbonato.
EAumento isolado da produção endógena de ácido carbônico.
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GabaritoC — Diminuição da excreção renal de amônio e de ácidos tituláveis.
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Acidose metabólica na doença renal crônica: mecanismo fisiopatológico
Gabarito: letra C. O paciente apresenta acidose metabólica (pH 7,28 e HCO₃⁻ 16 mEq/L) com compensação respiratória adequada, sem acidose láctica ou cetoacidose, em contexto de doença renal crônica estágio 4. O mecanismo predominante é a diminuição da excreção renal de amônio (NH₄⁺) e de ácidos tituláveis, que compromete a capacidade do rim de excretar a carga ácida diária — exatamente o que a alternativa C descreve.
A acidose metabólica é um distúrbio caracterizado pela redução primária do bicarbonato sérico, com consequente queda do pH. Para entender o mecanismo, é preciso lembrar que o rim desempenha duas funções essenciais na homeostase ácido-base: reabsorver o bicarbonato filtrado (que ocorre principalmente no túbulo proximal) e gerar novo bicarbonato para repor o que foi consumido na titulação dos ácidos endógenos. Essa geração de novo bicarbonato depende da excreção de ácidos na forma de amônio (NH₄⁺) e de ácidos tituláveis (fosfato, principalmente).
Na doença renal crônica, há uma redução progressiva da massa de néfrons funcionantes. Com isso, mesmo que os néfrons remanescentes tentem aumentar a excreção de amônio por néfron, a capacidade total de excreção de ácidos fica comprometida. O resultado é o acúmulo de íons hidrogênio (H⁺) e a depleção de bicarbonato, configurando a acidose metabólica de ânion-gap normal (hiperclorêmica) que é típica da insuficiência renal — embora, em estágios mais avançados, possa haver componente de ânion-gap aumentado pela retenção de ácidos orgânicos.
A compensação respiratória é um ponto-chave do enunciado. Na acidose metabólica, a resposta esperada é a hiperventilação, que reduz a PaCO₂. A fórmula de Winter prevê: PaCO₂ esperada = (1,5 × HCO₃⁻) + 8 ± 2. Com HCO₃⁻ de 16 mEq/L, a PaCO₂ esperada seria (1,5 × 16) + 8 = 32 ± 2 mmHg. O enunciado afirma que a PaCO₂ está "adequada à compensação respiratória", o que confirma que se trata de acidose metabólica simples, sem distúrbio respiratório associado.
A distinção crucial que a banca explora é entre os dois mecanismos renais de acidose: a acidose tubular renal (que envolve defeito na reabsorção de bicarbonato ou na excreção de amônio) e a acidose da doença renal crônica (que envolve a redução global da excreção de amônio e ácidos tituláveis). Na DRC, o defeito predominante é a incapacidade de excretar a carga ácida, não um defeito isolado na reabsorção proximal de bicarbonato.
A pegadinha desta questão está em distinguir o mecanismo da acidose na DRC (diminuição da excreção de amônio e ácidos tituláveis) de outros mecanismos de acidose metabólica, como a perda de bicarbonato (diarreia, acidose tubular renal proximal) ou o aumento da produção de ácidos (cetoacidose, acidose láctica). O contexto clínico — doença renal crônica estágio 4, sem evidência de acidose láctica ou cetoacidose — aponta diretamente para o mecanismo renal de retenção de ácidos.
Guarde a fronteira entre os mecanismos de acidose metabólica: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A alternativa correta identifica o defeito renal específico da DRC, enquanto as demais descrevem mecanismos de outros distúrbios ou confundem a fisiologia.
Acidose metabólica
1Mecanismos
Perda de HCO₃⁻ (diarreia, ATR proximal)
Aumento de ácidos (cetoacidose, láctica)
Redução da excreção de ácidos (DRC)
Amônio (NH₄⁺)
Ácidos tituláveis
2Compensação respiratória
Fórmula de Winter: PaCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2
3Ânion-gap
Normal (hiperclorêmica) — DRC inicial
Aumentado — retenção de ácidos orgânicos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A retenção de ácidos orgânicos por falência hepática associada não é o mecanismo predominante. A falência hepática pode causar acidose láctica (tipo B) ou contribuir para distúrbios ácido-base, mas o enunciado exclui explicitamente acidose láctica e cetoacidose. Além disso, o contexto é de doença renal crônica, não hepática. A acidose da DRC é por retenção de ácidos não voláteis (amônio e ácidos tituláveis), não por ácidos orgânicos de origem hepática.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A redução da reabsorção proximal de bicarbonato com aumento da diurese descreve a acidose tubular renal proximal (tipo 2), que cursa com perda urinária de bicarbonato e é um mecanismo diferente. Na DRC, a reabsorção proximal de bicarbonato está relativamente preservada nos estágios iniciais; o defeito predominante é a excreção de ácidos. Além disso, o aumento da diurese não é característico da DRC estágio 4 — na verdade, há tendência à oligúria.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A diminuição da excreção renal de amônio (NH₄⁺) e de ácidos tituláveis é o mecanismo fisiopatológico central da acidose metabólica na doença renal crônica. Com a perda progressiva de néfrons, o rim perde a capacidade de excretar a carga ácida diária (cerca de 1 mEq/kg/dia), levando ao acúmulo de H⁺ e à depleção de bicarbonato. Esse é o mecanismo que explica a acidose metabólica de ânion-gap normal (hiperclorêmica) típica da DRC.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hiperventilação crônica levando à perda renal compensatória de bicarbonato descreve a alcalose respiratória crônica, não acidose metabólica. Na alcalose respiratória, a PaCO₂ está baixa e o pH está elevado; a compensação renal é a excreção de bicarbonato. No paciente do enunciado, o pH está baixo (7,28) e o bicarbonato está baixo (16 mEq/L), o que caracteriza acidose metabólica, não alcalose respiratória.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O aumento isolado da produção endógena de ácido carbônico não é um mecanismo de acidose metabólica. O ácido carbônico (H₂CO₃) é formado a partir do CO₂ e da água, e seu acúmulo caracteriza acidose respiratória (por retenção de CO₂), não acidose metabólica. Além disso, o enunciado afirma que a PaCO₂ está adequada à compensação, o que exclui acidose respiratória.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os mecanismos de acidose metabólica. O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa B (acidose tubular proximal) ou a alternativa D (alcalose respiratória), mas o contexto de DRC estágio 4 aponta diretamente para a diminuição da excreção de amônio e ácidos tituláveis. Lembre-se: na DRC, o defeito é na excreção de ácidos, não na reabsorção de bicarbonato nem na produção de ácidos.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de acidose metabólica, siga o passo a passo: 1) identifique o distúrbio primário (pH baixo + HCO₃⁻ baixo = acidose metabólica); 2) verifique a compensação (PaCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2); 3) calcule o ânion-gap para diferenciar as causas. Na DRC, a acidose é de ânion-gap normal (hiperclorêmica) nos estágios iniciais, com mecanismo de redução da excreção de amônio e ácidos tituláveis.