Questão de Medicina — Gastroenterologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Gastroenterologia
Código
qg728032
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Gastroenterologia
Sobre a hepatite autoimune, assinale a alternativa correta.
ANíveis normais de IgG excluem o diagnóstico de hepatite autoimune.
BEm pacientes com hepatopatia crônica na ausência de elevação de transaminases, descarta-se a necessidade de investigação de hepatite autoimune.
CA primeira linha de tratamento para hepatite autoimune inclui (prednisona/prednisolona) corticoterapia associada à azatioprina ou micofenolato.
DAzatioprina é considerada teratogênica, e os pacientes, homens e mulheres, devem receber aconselhamento prévio.
EPode-se considerar troca de tratamento para budesonida, dependendo da tolerância do paciente, independentemente do grau de fibrose hepática.
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GabaritoC — A primeira linha de tratamento para hepatite autoimune inclui (prednisona/prednisolona) corticoterapia associada à azatioprina ou micofenolato.
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Hepatite autoimune: diagnóstico e tratamento
Gabarito: letra C. A primeira linha de tratamento da hepatite autoimune (HAI) consiste na associação de corticoterapia (prednisona/prednisolona) com azatioprina, sendo o micofenolato mofetil uma alternativa à azatioprina — exatamente o que a alternativa C afirma. As demais alternativas contêm erros conceituais: IgG normal não exclui o diagnóstico, a investigação não é descartada na ausência de elevação de transaminases, a azatioprina não é teratogênica (embora exija cautela) e a budesonida não é indicada em cirrose avançada.
A hepatite autoimune é uma doença hepática inflamatória crônica de causa desconhecida, caracterizada por necrose em saca-bocado (piecemeal necrosis) na histologia, hipergamaglobulinemia (especialmente IgG), presença de autoanticorpos (FAN, AML, anti-LKM1) e resposta ao tratamento imunossupressor. O diagnóstico é feito por exclusão, utilizando-se escores como o revisado (ERDHAI) ou os critérios simplificados, que combinam achados laboratoriais, histológicos e resposta terapêutica.
O tratamento de primeira linha, conforme as diretrizes internacionais (EASL 2015, AASLD 2010) e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) brasileiro, é a associação de prednisona/prednisolona com azatioprina. Essa combinação permite usar doses menores de corticoide, reduzindo os efeitos adversos, e é eficaz na indução e manutenção da remissão. O micofenolato mofetil é uma alternativa de segunda linha, mas também pode ser usado como primeira linha em casos selecionados (ex.: intolerância à azatioprina). A budesonida, um corticoide de alto metabolismo hepático de primeira passagem, é alternativa em pacientes não cirróticos, pois na cirrose há desvio do fluxo portal que reduz seu metabolismo e aumenta os efeitos sistêmicos.
A alternativa A está incorreta porque, embora a hipergamaglobulinemia (IgG > 1,1 vez o limite superior) seja um critério diagnóstico importante, níveis normais de IgG não excluem a doença — cerca de 15-25% dos pacientes podem ter IgG normal, especialmente na forma aguda. A alternativa B erra ao afirmar que a ausência de elevação de transaminases descarta a investigação: a HAI pode cursar com transaminases normais ou discretamente elevadas, especialmente em formas indolentes ou em remissão parcial, e a suspeita clínica (fadiga, icterícia, autoanticorpos positivos) deve sempre motivar investigação. A alternativa D contém erro factual: a azatioprina não é teratogênica — é classificada como categoria D pelo FDA (risco fetal em humanos, mas benefício potencial pode justificar o uso), e o aconselhimento prévio é recomendado, mas não porque seja teratogênica. A alternativa E erra ao afirmar que a budesonida pode ser usada independentemente do grau de fibrose: ela é contraindicada em cirrose estabelecida (Child-Pugh B/C) ou hipertensão portal, pois o metabolismo hepático fica comprometido.
A pegadinha central desta questão é a troca de conceitos entre "teratogênica" e "categoria D" (alternativa D) e a generalização indevida do uso de budesonida (alternativa E). O candidato que decora o esquema de tratamento sem entender as nuances de cada medicação tende a errar. Guarde a fronteira entre o que é primeira linha (corticoide + azatioprina/MMF), o que é alternativa (budesonida em não cirróticos) e o que é contraindicação (budesonida em cirrose) — é exatamente nesses limites que as alternativas se dividem.
Critério
Azatioprina
Budesonida
Classificação FDA
Categoria D (risco fetal, mas benefício pode justificar uso)
Não se aplica (corticoide tópico)
Teratogenicidade
Não é teratogênica (erro conceitual da alternativa D)
Não é teratogênica
Indicação na HAI
Primeira linha (associada a corticoide)
Alternativa em pacientes não cirróticos
Uso em cirrose
Permitido (com cautela)
Contraindicada (Child-Pugh B/C ou hipertensão portal)
Hepatite autoimune: Diagnóstico (Autoanticorpos (FAN, AML, anti-LKM1), IgG elevada (não exclui se normal), Biópsia: necrose em saca-bocado); 1ª linha (Prednisona/prednisolona, Azatioprina ou micofenolato); Alternativa (Budesonida, Cirrose (Child B/C)); Azatioprina (Categoria D (não teratogênica), Aconselhamento prévio)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que níveis normais de IgG excluem o diagnóstico é falsa. Embora a elevação de IgG seja um dos critérios do escore diagnóstico (ERDHAI), ela não é obrigatória: cerca de 15-25% dos pacientes com HAI apresentam IgG normal, especialmente na apresentação aguda ou em formas leves. O diagnóstico é baseado em um conjunto de critérios (autoanticorpos, histologia, exclusão de outras causas), e a IgG normal apenas reduz a pontuação no escore, não exclui a doença.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A ausência de elevação de transaminases não descarta a necessidade de investigação de HAI. A doença pode cursar com transaminases normais ou discretamente elevadas, principalmente em formas indolentes, em remissão parcial ou em pacientes com doença avançada e fibrose. A suspeita clínica (fadiga, icterícia, autoanticorpos positivos, hipergamaglobulinemia) deve sempre motivar investigação, independentemente dos níveis de transaminases.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que a primeira linha de tratamento inclui corticoterapia (prednisona/prednisolona) associada à azatioprina ou micofenolato. Essa é a recomendação das principais diretrizes (EASL 2015, AASLD 2010) e do PCDT brasileiro. A associação permite reduzir a dose do corticoide, minimizando efeitos adversos, e é eficaz na indução e manutenção da remissão. O micofenolato mofetil é alternativa à azatioprina, especialmente em casos de intolerância ou contraindicação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A azatioprina não é teratogênica. Ela é classificada como categoria D pelo FDA, o que significa que há evidência de risco fetal em humanos, mas o benefício potencial pode justificar o uso em algumas situações. O aconselhamento prévio é recomendado para homens e mulheres em idade fértil, mas não porque a droga seja teratogênica — o risco real é de imunossupressão e possíveis efeitos na espermatogênese. A banca troca o conceito de "categoria D" por "teratogênica", o que é um erro conceitual.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A budesonida não pode ser usada independentemente do grau de fibrose hepática. Ela é contraindicada em cirrose estabelecida (Child-Pugh B/C) ou hipertensão portal, pois o metabolismo hepático de primeira passagem fica comprometido, aumentando a exposição sistêmica e os efeitos adversos. A budesonida é alternativa em pacientes não cirróticos, especialmente naqueles com intolerância à prednisona ou com efeitos colaterais significativos.