Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg728181
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Infectologia Pediátrica
Você está avaliando um lactente de 4 meses, previamente saudável, que foi levado ao pronto atendimento por apresentar episódios de tosse intensa há cerca de 10 dias. Segundo a mãe, os acessos ocorrem em crises sucessivas, seguidas de uma inspiração ruidosa e, em algumas ocasiões, vômito logo após. Durante as crises, o bebê fica cianótico e, por breves instantes, parece parar de respirar. A febre é ausente. O exame físico mostra congestão facial e petéquias em pálpebras e conjuntivas.Com base no quadro clínico e nas informações epidemiológicas, assinale a alternativa correta.
AO quadro é compatível com coqueluche, com risco aumentado de complicações graves nos menores de seis meses.
BA principal hipótese diagnóstica é uma laringite viral, mais comum em pré-escolares.
CA ausência de febre e leucocitose significativa torna improvável o diagnóstico de coqueluche.
DO quadro descrito é compatível com pneumonia bacteriana, devendo ser iniciado antibiótico de amplo espectro imediatamente.
EO padrão de tosse apresentado é típico de broncopneumonia por Haemophilus influenzae tipo b.
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GabaritoA — O quadro é compatível com coqueluche, com risco aumentado de complicações graves nos menores de seis meses.
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Coqueluche no lactente: reconhecimento clínico e gravidade
Gabarito: letra A. O quadro descrito — lactente de 4 meses com tosse paroxística em acessos, guincho inspiratório, vômitos pós-tosse, cianose e petéquias periorbitárias — é o retrato clássico da coqueluche, e a afirmativa está correta ao destacar o risco aumentado de complicações graves em menores de seis meses, grupo em que a doença é mais severa e a internação mais frequente. O diagnóstico é essencialmente clínico, e a ausência de febre não o afasta, pois a coqueluche cursa sem febre na maioria dos casos.
A coqueluche é uma infecção respiratória aguda de alta transmissibilidade, causada pela bactéria Bordetella pertussis, que se fixa no epitélio ciliado das vias aéreas e produz toxinas responsáveis pela agressão local e pelos sintomas característicos. A doença evolui em três fases: catarral (1–2 semanas, com coriza, tosse seca e discreta, semelhante a um resfriado comum), paroxística (2–6 semanas, com os acessos de tosse em salva, seguidos do guincho inspiratório e frequentemente de vômitos) e convalescença (redução gradual dos sintomas). É na fase paroxística que o quadro se torna inconfundível: o lactente apresenta crises sucessivas de tosse rápida e curta em uma única expiração, seguidas de uma inspiração ruidosa e forçada — o famoso "guincho" —, podendo haver cianose, apneia e até perda de consciência. A congestão facial e as petéquias em pálpebras e conjuntivas descritas no enunciado são consequência direta do aumento da pressão intratorácica durante os acessos, que rompe pequenos vasos da face — um achado que reforça o diagnóstico.
A gravidade da coqueluche é inversamente proporcional à idade: lactentes menores de 6 meses — especialmente os menores de 3 meses — apresentam maior risco de complicações graves, como apneia, pneumonia secundária, convulsões, encefalopatia e óbito. Nessa faixa etária, o quadro pode ser atípico, com apneia como única manifestação, e a linfocitose marcante (leucocitose com predomínio de linfócitos) pode estar ausente, como ocorre em quadros mais leves. Por isso, a suspeita clínica deve ser imediata e o tratamento instituído precocemente, mesmo antes da confirmação laboratorial. O diagnóstico é clínico-epidemiológico, e os exames complementares (leucograma, cultura, PCR) são auxiliares, não obrigatórios para iniciar a conduta.
A banca explora exatamente a confusão entre coqueluche e outras causas de tosse na infância, como laringite viral, pneumonia bacteriana e bronquiolite. O padrão de tosse em acessos com guincho e vômitos é praticamente patognomônico de coqueluche, e a ausência de febre — longe de afastar o diagnóstico — é a regra na doença. A distinção entre essas entidades é o critério decisivo que separa as alternativas: enquanto a laringite cursa com tosse rouca/estridente e estridor, a pneumonia bacteriana apresenta febre alta, toxemia e comprometimento do estado geral, e a bronquiolite afeta preferencialmente lactentes com sibilância e desconforto respiratório. Guarde essa fronteira: tosse paroxística + guincho + vômitos + ausência de febre = coqueluche até prova em contrário.
Coqueluche (Bordetella pertussis)
1Fases
Catarral (1–2 semanas)
Coriza, tosse seca
Paroxística (2–6 semanas)
Acessos em salva
Guincho inspiratório
Vômitos pós-tosse
Cianose/apneia
Convalescença
Redução gradual
2Sinais de gravidade
Petéquias periorbitárias
Congestão facial
3Fatores de risco
Menores de 6 meses
Apneia
Pneumonia secundária
Encefalopatia
Óbito
4Diagnóstico
Clínico-epidemiológico
Febre geralmente ausente
Leucocitose pode faltar
5Tratamento
Macrolídeo (azitromicina)
Notificação compulsória
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que o quadro é compatível com coqueluche e que há risco aumentado de complicações graves nos menores de seis meses. O enunciado descreve todos os elementos da fase paroxística da doença — tosse em acessos, guincho inspiratório, vômitos pós-tosse, cianose e petéquias periorbitárias — e a idade de 4 meses coloca o paciente exatamente no grupo de maior risco, no qual a doença é mais grave, com maior taxa de hospitalização, apneia, pneumonia e óbito. A conduta deve ser imediata, com notificação compulsória e antibioticoterapia, mesmo sem confirmação laboratorial.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa está incorreta ao sugerir laringite viral como principal hipótese. A laringite viral (crupe) é mais comum em pré-escolares (6 meses a 3 anos) e se caracteriza por tosse rouca, "metálica" ou "de cachorro", estridor inspiratório e piora noturna, frequentemente precedida por coriza e febre baixa. O quadro do enunciado — tosse paroxística em salvas com guincho, vômitos e petéquias — é típico de coqueluche, não de laringite. A banca troca o padrão de tosse (paroxística por rouca) e a faixa etária (lactente por pré-escolar) para induzir ao erro.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa está incorreta ao afirmar que a ausência de febre e de leucocitose significativa torna improvável o diagnóstico de coqueluche. Na coqueluche, a febre é geralmente ausente ou baixa — a doença cursa com tosse sem toxemia —, e a leucocitose com linfocitose, embora frequente, pode estar ausente em lactentes e em quadros mais leves, como expressamente reconhecido na literatura. O diagnóstico é clínico-epidemiológico, e a ausência desses achados não afasta a hipótese. A banca inverte a lógica: o que ela aponta como "improvável" é, na verdade, o padrão esperado na doença.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa está incorreta ao sugerir pneumonia bacteriana como diagnóstico e indicar antibiótico de amplo espectro imediatamente. A pneumonia bacteriana cursa com febre alta, toxemia, taquipneia, tiragem e estertores à ausculta, além de comprometimento do estado geral — nada disso está presente no enunciado, que descreve um lactente sem febre, com tosse paroxística e guincho. O antibiótico de escolha para coqueluche é um macrolídeo (azitromicina, claritromicina ou eritromicina), não um antibiótico de amplo espectro, e a conduta imediata é a notificação e o tratamento específico, não a cobertura empírica para pneumonia. A banca confunde o agente etiológico e a terapêutica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa está incorreta ao atribuir o padrão de tosse à broncopneumonia por Haemophilus influenzae tipo b. A broncopneumonia bacteriana — incluindo a causada por Hib — manifesta-se com febre, tosse produtiva, desconforto respiratório e achados radiológicos de consolidação, não com o padrão paroxístico com guincho e vômitos descrito. Além disso, a infecção por Hib está em franco declínio no Brasil graças à vacinação, e o quadro clínico do enunciado é o da coqueluche. A banca associa um agente bacteriano a um padrão de tosse que não lhe corresponde, explorando a confusão entre infecções respiratórias bacterianas.