Questão de Medicina — Medicina Intensiva — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg728229
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Medicina Intensiva
A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (BRASPEN) e a Sociedade Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB) recomendam a introdução da nutrição enteral precoce no paciente crítico. Contudo, em pacientes com choque e instabilidade hemodinâmica, essa prática deve ser manejada com cautela devido ao risco de isquemia intestinal. Em um paciente com choque séptico, em uso de alta dose de norepinefrina e com lactato sérico de 5,8 mmol/L, qual é a conduta mais apropriada em relação ao início da nutrição enteral?
AA nutrição enteral deve ser iniciada nas primeiras 12 horas e em dose máxima, visando ao efeito imunomodulador e ao trofismo da mucosa.
BA nutrição enteral está formalmente contraindicada enquanto o paciente estiver em uso de qualquer dose de vasopressor.
CDeve-se iniciar nutrição parenteral imediatamente em todos os pacientes com choque e hiperlactatemia.
DO início da nutrição enteral deve ser adiado até que o lactato esteja em queda e as doses de vasopressores estejam em franco declínio, devido ao alto risco de isquemia.
EA nutrição enteral deve ser iniciada de forma trófica nas primeiras 24 horas e a tolerância deve ser avaliada exclusivamente pela dosagem de ureia.
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GabaritoD — O início da nutrição enteral deve ser adiado até que o lactato esteja em queda e as doses de vasopressores estejam em franco declínio, devido ao alto risco de isquemia.
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Nutrição enteral precoce no choque séptico: quando adiar?
Gabarito: letra D. Em paciente com choque séptico, em uso de alta dose de norepinefrina e com lactato sérico de 5,8 mmol/L (hiperlactatemia persistente), o início da nutrição enteral deve ser adiado até que haja sinais de melhora da perfusão tecidual — ou seja, lactato em queda e doses de vasopressores em franco declínio — devido ao alto risco de isquemia intestinal. Essa conduta está alinhada às diretrizes da BRASPEN/AMIB e da ASPEN/SCCM, que consideram a instabilidade hemodinâmica não resolvida uma contraindicação relativa à nutrição enteral.
A nutrição enteral precoce (iniciada em até 24–48 horas da admissão na UTI) é recomendada no paciente crítico por seus benefícios: preservação do trofismo da mucosa intestinal, manutenção da barreira epitelial, redução da translocação bacteriana e menor resposta inflamatória sistêmica. O princípio norteador é "se o intestino funciona, use-o" — a via enteral é preferível à parenteral por ser mais fisiológica, mais barata e associada a menos complicações infecciosas e metabólicas. Contudo, esse benefício depende de um pré-requisito inegociável: estabilidade hemodinâmica. O intestino é um dos primeiros órgãos a sofrer com a hipoperfusão no choque; em um cenário de fluxo esplâncnico crítico, a oferta de nutrientes pela via enteral aumenta a demanda metabólica e o consumo de oxigênio da mucosa, podendo precipitar ou agravar a isquemia intestinal — complicação grave, com alta mortalidade.
A avaliação da "estabilidade hemodinâmica" não se resume à presença ou ausência de vasopressor, nem a um valor isolado de pressão arterial. O que decide é o conjunto de parâmetros de perfusão tecidual: lactato sérico (e sua tendência), pH sanguíneo, saturação venosa central de oxigênio (SvcO₂) e diferença de bases. No paciente do enunciado, o lactato de 5,8 mmol/L é francamente elevado (normal < 2 mmol/L) e, associado ao uso de alta dose de norepinefrina, indica choque não resolvido — exatamente o cenário em que a nutrição enteral deve ser adiada. As diretrizes da ASPEN/SCCM (2016) recomendam iniciar a nutrição enteral "assim que possível" no paciente crítico, mas adiar em situações de choque não controlado, com doses crescentes de vasopressores e hiperlactatemia persistente. Quando o choque começa a ceder — lactato em queda, doses de vasopressor em declínio — a nutrição enteral pode ser iniciada de forma trófica (10–20 mL/h ou 10–20 kcal/h), com progressão gradual conforme a tolerância.
A distinção central que a questão explora é entre contraindicação absoluta e contraindicação relativa da nutrição enteral. São contraindicações absolutas: obstrução intestinal mecânica, íleo paralítico prolongado, isquemia intestinal estabelecida, fístula de alto débito sem acesso distal, vômitos intratáveis e peritonite difusa. A instabilidade hemodinâmica com choque não controlado é contraindicação relativa — não proíbe a via enteral para sempre, mas impõe adiamento até a reversão do quadro. A banca explora exatamente essa fronteira: o candidato que confunde "adiar" com "contraindicar formalmente" erra a questão. Outro erro comum é acreditar que a nutrição parenteral deve substituir a enteral nesse cenário — mas a parenteral precoce não traz benefício e pode até aumentar complicações infecciosas, sendo reservada para quando a via enteral não é possível ou não atinge as metas após 3–7 dias.
Guarde o critério decisivo: o que autoriza iniciar a nutrição enteral no choque é a tendência de melhora da perfusão, não a presença do vasopressor nem o valor absoluto do lactato. É nesse critério que as alternativas se dividem.
Nutrição enteral no choque séptico
1Contraindicação absoluta
Obstrução intestinal mecânica
Íleo paralítico prolongado
Isquemia intestinal estabelecida
Peritonite difusa
2Contraindicação relativa
Choque não controlado
Lactato elevado/persistente
Vasopressor em dose crescente
Adiar até melhora da perfusão
3Critério para iniciar
Lactato em queda
Vasopressor em declínio
Iniciar trófica (10–20 mL/h)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a nutrição enteral deve ser iniciada nas primeiras 12 horas e em dose máxima. Erra duplamente: (1) no paciente com choque não resolvido (lactato 5,8 mmol/L, alta dose de norepinefrina), o início deve ser adiado, não precoce; (2) mesmo quando iniciada, a conduta é trófica (baixo volume, 10–20 mL/h), com progressão gradual — nunca em dose máxima, que aumenta o risco de intolerância, residuo gástrico elevado e isquemia. O efeito imunomodulador e o trofismo da mucosa são benefícios da nutrição enteral precoce, mas só quando há estabilidade hemodinâmica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a nutrição enteral está formalmente contraindicada enquanto o paciente usar qualquer dose de vasopressor. É uma generalização indevida: o uso de vasopressor em dose baixa/estável, com parâmetros de perfusão adequados (lactato normal ou em queda), não contraindica a nutrição enteral — pelo contrário, é recomendado iniciá-la precocemente. A contraindicação relativa é o choque não controlado, com doses crescentes de vasopressor e hiperlactatemia persistente. A alternativa confunde "instabilidade hemodinâmica não resolvida" com "uso de vasopressor", que são coisas distintas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Propõe iniciar nutrição parenteral imediatamente em todos os pacientes com choque e hiperlactatemia. É exatamente o oposto da recomendação: a nutrição parenteral precoce no paciente crítico não traz benefício e pode aumentar complicações infecciosas (estudos como o de Van den Bergh mostraram pior evolução com NP precoce). A NP é reservada para quando a via enteral é contraindicada (absoluta) ou insuficiente após 3–7 dias. No choque, a prioridade é a reanimação hemodinâmica — não a oferta calórica agressiva por qualquer via.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Espelha exatamente a conduta recomendada pelas diretrizes: adiar o início da nutrição enteral até que o lactato esteja em queda e as doses de vasopressores estejam em franco declínio. O paciente do enunciado (lactato 5,8 mmol/L, alta dose de norepinefrina) está em choque não resolvido, com alto risco de isquemia intestinal — portanto, a nutrição enteral deve ser postergada até a reversão do quadro. Quando iniciada, deve ser trófica e com monitorização rigorosa de tolerância.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a nutrição enteral deve ser iniciada de forma trófica nas primeiras 24 horas e que a tolerância deve ser avaliada exclusivamente pela dosagem de ureia. Dois erros: (1) nas primeiras 24 horas, o paciente está em choque não resolvido — o início deve ser adiado, não iniciado; (2) a avaliação de tolerância à nutrição enteral é multimodal: volume de residuo gástrico, distensão abdominal, presença de ruídos hidroaéreos, diarreia, vômitos, e sinais de isquemia (dor abdominal, acidose, lactato). A ureia é um marcador de função renal/azotemia, não de tolerância gastrointestinal — não há nenhuma diretriz que a use como critério exclusivo.
Gabarito: letra D — adiar a nutrição enteral até melhora da perfusão (lactato em queda, vasopressores em declínio) é a conduta correta no choque séptico não resolvido.