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Questão de Medicina — Nefrologia — INSTITUTO AOCP 2026

MedicinaNefrologia
Código
qg728318
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Nefrologia Pediátrica
Uma criança de 5 anos, em pós-operatório de cirurgia cardíaca complexa, evolui com síndrome de baixo débito, lesão renal aguda anúrica e sobrecarga hídrica de 20%. É iniciada Terapia de Substituição Renal Contínua (CRRT) em modo de Hemodiafiltração Venovenosa Contínua (CVVHDF). Devido ao alto risco de sangramento pós - operatório, opta-se por anticoagulação regional do circuito com citrato. Após 12 horas de terapia, a criança desenvolve irritabilidade, piora da hipotensão (requerendo aumento da noradrenalina) e um prolongamento do intervalo QT no monitor. Os exames de controle revelam: cálcio iônico (paciente): 0.8 mmol/L (baixo); cálcio total (paciente): 2.6 mmol/L (normal-alto) e uma acidose metabólica persistente. Qual é a explicação fisiopatológica mais precisa para essa deterioração clínica e laboratorial e qual é o principal indicador a ser monitorado?
  1. AAcúmulo sistêmico de citrato devido à metabolização hepática insuficiente; diagnosticado pelo aumento da relação cálcio total / cálcio iônico.
  2. BSaturação e coagulação iminente do filtro (hemofiltro), levando à perda de eficiência na depuração de ácidos e à ativação inflamatória.
  3. CHipocalcemia simples devido à quelação de cálcio no circuito, que deve ser tratada apenas com aumento da taxa de infusão de reposição de cálcio.
  4. DPiora da sepse de base, causando depressão miocárdica e acidose lática, sendo os achados da CRRT uma coincidência.
  5. EErro na composição da solução de diálise, com baixa concentração de bicarbonato, resultando na incapacidade de corrigir a acidose.
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GabaritoA — Acúmulo sistêmico de citrato devido à metabolização hepática insuficiente; diagnosticado pelo aumento da relação cálcio total / cálcio iônico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Toxicidade por citrato na Terapia de Substituição Renal Contínua (CRRT)

Gabarito: letra A. A deterioração clínica e laboratorial descrita é explicada pelo acúmulo sistêmico de citrato devido à metabolização hepática insuficiente, e o principal indicador a ser monitorado é a relação cálcio total / cálcio iônico — que, quando elevada (> 2,5), indica toxicidade por citrato. O quadro clínico de irritabilidade, hipotensão refratária e prolongamento do intervalo QT, associado à acidose metabólica persistente, é a assinatura clássica dessa complicação da anticoagulação regional com citrato.

A anticoagulação regional com citrato é uma estratégia utilizada na CRRT para prevenir a coagulação do circuito sem expor o paciente aos riscos de sangramento sistêmico. O mecanismo é engenhoso: o citrato é infundido no início do circuito, onde quela o cálcio iônico do sangue que entra no filtro, formando citrato-cálcio. Como o cálcio ionizado é um cofator essencial na cascata de coagulação, sua queda local impede a formação de coágulos no hemofiltro. Antes do sangue retornar ao paciente, uma infusão de cálcio é administrada para repor o cálcio quelado e restaurar os níveis fisiológicos.

O citrato que não se liga ao cálcio é normalmente metabolizado pelo fígado, rim e músculo, em um processo que consome íons hidrogênio e gera bicarbonato. Por isso, em condições normais, a anticoagulação com citrato é uma fonte de alcalinização. O problema surge quando a metabolização é insuficiente — como em pacientes com disfunção hepática, choque, baixo débito cardíaco ou insuficiência renal grave (todos presentes no caso: pós-operatório de cirurgia cardíaca complexa, síndrome de baixo débito e LRA anúrica). Nessa situação, o citrato se acumula no sangue, quelando o cálcio iônico sistêmico (causando hipocalcemia funcional) e gerando uma acidose metabólica (pois o citrato não metabolizado é um ácido).

O diagnóstico é feito pela discordância entre o cálcio total e o cálcio iônico: o cálcio total está normal ou elevado (porque o citrato-cálcio é medido como cálcio total), mas o cálcio iônico está baixo (porque está quelado). A relação cálcio total/cálcio iônico normal é < 2,25; valores > 2,5 indicam acúmulo de citrato. O tratamento consiste em reduzir ou interromper a infusão de citrato, aumentar a reposição de cálcio e, se necessário, aumentar a depuração (mais diálise ou hemofiltração).

A pegadinha central desta questão é a interpretação do cálcio total normal-alto com cálcio iônico baixo. O candidato desatento pode pensar em hipocalcemia simples (alternativa C) ou em erro na solução de diálise (alternativa E), mas o padrão laboratorial é patognomônico de toxicidade por citrato. A alternativa B (coagulação do filtro) não explica o padrão laboratorial, e a alternativa D (sepse) é uma coincidência que não explica a relação cálcio total/cálcio iônico elevada.

Guarde a tríade que decide a questão: hipocalcemia iônica + cálcio total normal/alto + acidose metabólica em paciente em CRRT com citrato = toxicidade por citrato até prova em contrário. É exatamente essa combinação que separa a alternativa correta das demais.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta alternativa identifica corretamente a toxicidade por citrato como causa da deterioração. O acúmulo de citrato ocorre porque a metabolização hepática está insuficiente — no caso, devido à síndrome de baixo débito e ao pós-operatório de cirurgia cardíaca, que comprometem a perfusão hepática. O citrato acumulado quela o cálcio iônico (causando hipocalcemia funcional e os sintomas neurológicos/cardíacos) e, por não ser metabolizado, não gera bicarbonato — resultando em acidose metabólica. O aumento da relação cálcio total/cálcio iônico é o marcador diagnóstico: o cálcio total mede tanto o cálcio livre quanto o quelado pelo citrato, então está normal ou alto, enquanto o cálcio iônico está baixo. O monitoramento dessa relação é essencial para detectar precocemente a toxicidade e ajustar a terapia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A coagulação do filtro (trombose do hemofiltro) levaria à perda de eficiência na depuração, mas não explicaria o padrão laboratorial de cálcio iônico baixo com cálcio total normal-alto. A coagulação do circuito causaria aumento da pressão no filtro, diminuição do retorno e possível ativação inflamatória, mas não a quelação sistêmica de cálcio nem a acidose metabólica com essa assinatura laboratorial. Além disso, a anticoagulação com citrato é justamente para prevenir a coagulação do filtro; sua ocorrência seria uma falha do método, não uma consequência esperada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A hipocalcemia simples (por exemplo, por reposição inadequada) não explica o cálcio total normal-alto. Na hipocalcemia verdadeira, tanto o cálcio total quanto o iônico estariam baixos. Aqui, o cálcio total está normal-alto (2,6 mmol/L) porque o cálcio quelado pelo citrato é contabilizado na dosagem total. Tratar apenas com aumento da infusão de cálcio seria insuficiente e potencialmente perigoso, pois não aborda a causa (acúmulo de citrato) e pode mascarar o quadro. A alternativa ignora o dado laboratorial crucial que aponta para a toxicidade por citrato.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A piora da sepse pode causar depressão miocárdica e acidose lática, mas não explica o padrão laboratorial de cálcio iônico baixo com cálcio total normal-alto. A sepse não causa quelação de cálcio nem essa discordância entre as dosagens. Atribuir os achados a uma "coincidência" é um raciocínio que desconsidera a fisiopatologia específica da anticoagulação com citrato. Embora o paciente possa ter sepse, a explicação mais precisa para o quadro é a toxicidade por citrato, que é uma complicação conhecida e previsível da CRRT com citrato em pacientes de risco.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Um erro na composição da solução de diálise com baixo bicarbonato causaria acidose metabólica, mas não explicaria a hipocalcemia iônica com cálcio total normal-alto. A acidose por si só tende a aumentar o cálcio iônico (por diminuir a ligação às proteínas), não a diminuí-lo. O padrão laboratorial é específico da quelação pelo citrato. Além disso, a solução de diálise é padronizada e um erro de composição seria uma hipótese menos provável e menos precisa para explicar todos os achados clínicos e laboratoriais.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a discordância entre cálcio total e cálcio iônico. O candidato que vê "cálcio iônico baixo" pensa em hipocalcemia simples (alternativa C) e erra. A chave é notar que o cálcio total está normal-alto — isso só faz sentido se houver cálcio "escondido" (quelado pelo citrato). Sempre que a CRRT com citrato cursar com essa dissociação + acidose, pense em toxicidade por citrato, não em hipocalcemia comum.

PEGA ESSA DICA!

Na prova, memorize a tríade da toxicidade por citrato: cálcio iônico baixo + cálcio total normal/alto + acidose metabólica. A relação cálcio total/cálcio iônico > 2,5 é o gatilho para reduzir ou parar o citrato. Compare com a hipocalcemia comum (ambos os cálcios baixos) e com a alcalose esperada quando o citrato é metabolizado normalmente.

Gabarito: letra A

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