Questão de Medicina — Nefrologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Nefrologia
Código
qg728339
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Nefrologia Pediátrica
Um paciente em diálise, com potássio sérico de 7,8 mEq/L, apresenta no monitor cardíaco um eletrocardiograma com ondas T altas e apiculadas, além de alargamento do complexo QRS. Qual é a primeira medida terapêutica, de efeito imediato, que deve ser instituída para a estabilização cardiológica desse paciente?
AIniciar hemodiálise de urgência.
BAdministrar solução polarizante (glicoinsulina).
CAdministrar resina de troca iônica via oral.
DIniciar salbutamol inalatório.
EAdministrar Gluconato de Cálcio 10% intravenoso.
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GabaritoE — Administrar Gluconato de Cálcio 10% intravenoso.
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Hipercalemia grave: estabilização cardiológica de urgência
Gabarito: letra E. Na hipercalemia grave com alterações eletrocardiográficas (ondas T apiculadas e alargamento do QRS), a primeira medida, de efeito imediato, é a administração de Gluconato de Cálcio 10% intravenoso — o cálcio antagoniza os efeitos do potássio na membrana celular cardíaca, estabilizando o miocárdio em poucos minutos, sem reduzir a concentração sérica de potássio. As demais medidas (glicoinsulina, salbutamol, resina, hemodiálise) atuam na redistribuição ou remoção do potássio, mas não têm efeito imediato sobre a cardiotoxicidade.
A hipercalemia é uma emergência médica que pode levar a arritmias fatais e parada cardiorrespiratória. O potássio elevado altera o potencial de repouso da membrana celular, tornando o miocárdio mais excitável e predispondo a arritmias. As manifestações eletrocardiográficas progridem com o aumento do potássio: inicialmente, ondas T altas e apiculadas (simétricas); depois, alargamento do QRS, alargamento do intervalo PR, desaparecimento da onda P e, finalmente, uma onda senoidal que precede a assistolia. A presença de alterações no ECG indica cardiotoxicidade iminente e exige intervenção imediata.
O tratamento da hipercalemia grave segue uma sequência lógica de medidas, cada uma com um objetivo específico:
Estabilização da membrana cardíaca (cálcio intravenoso) — efeito imediato, em poucos minutos, mas de curta duração (30-60 min). Não reduz o potássio sérico, apenas antagoniza seus efeitos na membrana.
Redistribuição do potássio para o intracelular (glicoinsulina, salbutamol, bicarbonato) — efeito em 15-30 minutos, com duração de horas. Transloca o potássio do espaço extracelular para o intracelular.
Remoção do potássio do organismo (diuréticos de alça, resinas de troca iônica, hemodiálise) — efeito mais lento, mas definitivo. A hemodiálise é o método mais eficaz, especialmente em pacientes com disfunção renal.
A tabela abaixo resume as principais medidas, seus efeitos e observações:
Intervenção
Início de ação
Mecanismo
Observação
Cálcio (gluconato 10%)
Poucos minutos
Antagoniza efeitos de membrana (cardioproteção)
Tratamento inicial, especialmente se anormalidades no ECG. Não reduz [K+]
Insulina + glicose
15 min
Transloca K+ para o intracelular
Monitorizar glicemia capilar horária por 6 horas
Salbutamol inalatório
30 min
Transloca K+ para o intracelular
Dose 4-8x maior que para broncodilatação; atentar para eventos adversos
Bicarbonato de sódio
5-10 min
Transloca K+ para o intracelular
Eficácia limitada; atentar para sobrecarga volêmica
Resina de troca iônica
2-6 horas
Troca intestinal de cátions por K+
Pouco útil no manejo agudo; risco de necrose intestinal
Hemodiálise
Variável
Remove K+ do organismo
Indicada em disfunção renal grave ou refratariedade ao tratamento conservador
A pegadinha desta questão está em confundir a medida de estabilização imediata com as medidas de redução do potássio. O paciente apresenta potássio de 7,8 mEq/L com alterações no ECG — isso indica cardiotoxicidade iminente. A primeira medida deve ser o cálcio intravenoso, que protege o coração em poucos minutos. As demais medidas (glicoinsulina, salbutamol, resina, hemodiálise) são importantes, mas não têm efeito imediato sobre a cardiotoxicidade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre estabilização da membrana e redução do potássio. O cálcio é a única medida que age em minutos para proteger o coração, sem reduzir o potássio. As outras opções (glicoinsulina, salbutamol, resina, hemodiálise) são medidas de tratamento da hipercalemia, mas não são a primeira medida de estabilização cardiológica. O candidato que não domina a sequência do tratamento pode marcar a hemodiálise (opção A) por ser o método mais definitivo, ou a glicoinsulina (opção B) por ser uma medida clássica — mas ambas não têm efeito imediato sobre a cardiotoxicidade.
1Cálcio IV (estabiliza membrana)
2Glicoinsulina (redistribui K+)
3Salbutamol (redistribui K+)
4Resina (remove K+)
5Hemodiálise (remove K+)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A hemodiálise é o método mais eficaz para remover o potássio do organismo, sendo indicada em pacientes com disfunção renal grave ou refratários ao tratamento conservador. Porém, seu início de ação não é imediato — requer preparo do acesso vascular e da máquina, levando um tempo considerável. Na hipercalemia grave com alterações no ECG, a hemodiálise deve ser programada após a estabilização inicial com cálcio, mas não é a primeira medida de efeito imediato.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A solução polarizante (glicoinsulina) é uma medida de redistribuição do potássio para o intracelular, com início de ação em cerca de 15 minutos e duração de 4-6 horas. É uma medida importante no tratamento da hipercalemia, mas não tem efeito imediato sobre a cardiotoxicidade. A insulina transloca o potássio para o meio intracelular, mas o efeito demora alguns minutos — tempo precioso em um paciente com QRS alargado. O cálcio deve vir primeiro.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A resina de troca iônica (poliestirenossulfonato) atua no trato gastrointestinal, trocando cátions por potássio, com início de ação em 2-6 horas. É uma medida de remoção do potássio, mas de efeito lento e pouco útil no manejo agudo da hipercalemia. Além disso, apresenta risco de necrose intestinal. Definitivamente não é a primeira medida em um paciente com cardiotoxicidade iminente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O salbutamol inalatório (β2-agonista) é uma medida de redistribuição do potássio para o intracelular, com início de ação em cerca de 30 minutos e pico em 90 minutos. Seu efeito é mais lento que o da glicoinsulina e do cálcio. Além disso, pode causar taquicardia e angina em pacientes com doença coronariana prévia. Não é a primeira medida de estabilização cardiológica.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O Gluconato de Cálcio 10% intravenoso é a primeira medida de estabilização da membrana cardíaca na hipercalemia grave com alterações no ECG. O cálcio antagoniza os efeitos do potássio na membrana celular, protegendo o miocárdio em poucos minutos. Seu efeito é de curta duração (30-60 minutos), mas é o suficiente para ganhar tempo até que as medidas de redistribuição e remoção do potássio façam efeito. É importante ressaltar que o cálcio não reduz a concentração sérica de potássio — ele apenas estabiliza o coração.