Questão de Medicina — Nefrologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Nefrologia
Código
qg728360
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Nefrologia Pediátrica
Uma criança de 7 anos apresenta, 2 semanas após um episódio de amigdalite bacteriana (cultura de orofaringe positiva para Streptococcus pyogenes), inchaço facial (edema periorbital), urina escura (“cor de Coca-Cola”) e elevação da pressão arterial. Os exames laboratoriais mostram elevação da ureia e creatinina, além de consumo do complemento sérico (C3 baixo) e ASLO elevado. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável?
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica (GNPE)
Gabarito: letra A. O quadro clínico descrito — criança com síndrome nefrítica (edema periorbital, hipertensão, hematúria macroscópica "cor de Coca-Cola") 2 semanas após amigdalite bacteriana por Streptococcus pyogenes, com ASLO elevado e C3 baixo — é a apresentação clássica da glomerulonefrite pós-estreptocócica (GNPE). O diagnóstico é eminentemente clínico-laboratorial, e a tríade "infecção estreptocócica recente + síndrome nefrítica + hipocomplementemia" fecha o caso.
A GNPE é a doença mais característica da síndrome nefrítica, que se define pela associação de hematúria (macroscópica ou microscópica), edema, hipertensão arterial, proteinúria (geralmente < 3,0 g/24h) e redução do volume urinário e da taxa de filtração glomerular. O quadro costuma surgir 1 a 3 semanas após uma infecção de orofaringe ou de pele pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A. No caso, a criança teve amigdalite bacteriana confirmada por cultura positiva, e o intervalo de 2 semanas é o período de latência típico entre a infecção e o início dos sintomas renais.
O mecanismo fisiopatológico envolve a deposição de imunocomplexos circulantes (antígeno estreptocócico + anticorpo) no glomérulo, com ativação da via alternativa do complemento. Isso explica o achado laboratorial central: C3 baixo (hipocomplementemia), com C4 geralmente normal ou levemente diminuído. O ASLO (antiestreptolisina O) elevado é a evidência sorológica de infecção estreptocócica recente, e a urina escura "cor de Coca-Cola" decorre da hematúria macroscópica, consequência da reação da hemoglobina liberada pelas hemácias com ácidos do fluido intratubular, formando hematina de cor marrom.
O tratamento é de suporte: controle da sobrecarga hídrica, da pressão arterial e erradicação da infecção em curso. Nas crianças, o prognóstico é excelente, com recuperação espontânea da função renal em 1 a 2 meses na maioria dos casos. A biópsia renal raramente é necessária, sendo reservada para casos atípicos, como ausência de hipocomplementemia, queda do C3 que persiste além de 8 semanas ou deterioração progressiva da função renal.
A pegadinha central desta questão está na distinção entre a GNPE e a glomerulopatia por C3 (C3G). Ambas cursam com C3 baixo, mas a C3G é uma doença de hipocomplementemia persistente, mediada por autoanticorpos ou mutações na via alternativa do complemento, sem relação com infecção estreptocócica recente e com evolução crônica e progressiva. Na GNPE, o C3 se normaliza em 6 a 8 semanas. Guarde essa fronteira: é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Glomerulopatias com C3 baixo: GNPE (Pós-infecciosa (estreptococo), Autolimitada, C3 normaliza em 6-8 semanas); Glomerulopatia por C3 (C3G) (Desregulação da via alternativa, Crônica e progressiva, C3 persistentemente baixo); Nefrite lúpica (Doença sistêmica (FAN+), Acomete mulheres jovens); Crioglobulinemia (Vasculite, Crioglobulinas positivas)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A GNPE é a hipótese mais provável. Todos os elementos do enunciado convergem: criança em idade escolar (pico de incidência entre 5 e 12 anos), infecção estreptocócica de orofaringe comprovada por cultura, período de latência de 2 semanas, síndrome nefrítica completa (edema periorbital, hipertensão, hematúria macroscópica "cor de Coca-Cola", elevação de ureia e creatinina), ASLO elevado (evidência sorológica de infecção recente) e C3 baixo (ativação da via alternativa do complemento). A associação desses achados é patognomônica da GNPE.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A glomerulopatia por C3 (C3G) também cursa com C3 baixo, mas é uma doença crônica e progressiva, causada por desregulação persistente da via alternativa do complemento (autoanticorpos contra C3 convertase ou mutações em proteínas reguladoras). Não há relação com infecção estreptocócica recente, e o C3 permanece baixo por tempo prolongado, ao contrário da GNPE, em que se normaliza em 6 a 8 semanas. A presença de ASLO elevado e o antecedente de amigdalite bacteriana apontam claramente para GNPE, não para C3G.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A síndrome hemolítico-urêmica (SHU) é uma microangiopatia trombótica caracterizada pela tríade anemia hemolítica microangiopática (esquizócitos no esfregaço), trombocitopenia e lesão renal aguda. O quadro clássico ocorre após diarreia sanguinolenta por E. coli produtora de toxina Shiga (SHU típica). No caso descrito, não há anemia hemolítica, trombocitopenia ou antecedente diarreico; o quadro é de síndrome nefrítica pós-infecciosa, não de microangiopatia trombótica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A nefrite lúpica pode cursar com síndrome nefrítica e C3 baixo, mas é uma doença autoimune sistêmica que acomete predominantemente mulheres jovens, com manifestações como rash malar, fotossensibilidade, artrite, serosite e anticorpos antinucleares (FAN) positivos. No caso, não há nenhum critério clínico ou laboratorial de lúpus eritematoso sistêmico; o antecedente de infecção estreptocócica e o ASLO elevado apontam para GNPE.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A nefrite intersticial aguda (NIA) é uma causa de lesão renal aguda, frequentemente associada ao uso de medicamentos (AINEs, antibióticos, inibidores de bomba de prótons) ou a infecções. O quadro típico inclui febre, rash cutâneo, eosinofilia e eosinofilúria, com sedimento urinário pobre em hematúria dismórfica. Não há síndrome nefrítica completa, hipocomplementemia ou ASLO elevado. A hematúria macroscópica "cor de Coca-Cola" e o C3 baixo são incompatíveis com NIA.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre GNPE e glomerulopatia por C3 (C3G), pois ambas cursam com C3 baixo. A diferença crucial é o contexto: na GNPE há infecção estreptocócica recente comprovada (ASLO elevado) e o C3 se normaliza em 6 a 8 semanas; na C3G, a hipocomplementemia é persistente e não há relação com infecção. Fique atento a esse par — é uma armadilha recorrente em provas de nefrologia.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as glomerulopatias com C3 baixo, monte um quadro mental: GNPE (pós-infecciosa, autolimitada, C3 normaliza em 6-8 semanas), C3G (crônica, C3 persistentemente baixo), nefrite lúpica (doença sistêmica, FAN positivo), crioglobulinemia (vasculite, crioglobulinas positivas). Na prova, o contexto clínico e o tempo de evolução são os critérios que decidem.