Questão de Medicina — Oncologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Oncologia
Código
qg728496
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Oncologia Clínica
Durante uma reunião multidisciplinar, uma residente pergunta ao oncologista por que tumores com mutação em TP53 apresentam elevada instabilidade genômica. Com base nos mecanismos moleculares envolvidos na manutenção da integridade genômica, assinale a alternativa que apresenta corretamente o papel de TP53 nesse processo.
AEstímulo direto da recombinação homóloga como mecanismo fisiológico.
BRegulação de pontos de checagem do ciclo celular e indução de reparo ou apoptose.
CAumento global da metilação do DNA em regiões promotoras.
DParticipação em processos de modulação da cromatina por interação com reguladores epigenéticos.
EAtivação de vias de metástase com redução da instabilidade cromossômica.
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GabaritoB — Regulação de pontos de checagem do ciclo celular e indução de reparo ou apoptose.
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TP53 e a manutenção da integridade genômica
Gabarito: letra B. A proteína TP53 (p53) é o "guardião do genoma": diante de dano ao DNA, ela regula os pontos de checagem do ciclo celular, bloqueando a progressão para permitir o reparo ou, se o dano for irreparável, induzindo a apoptose — é exatamente essa função que a alternativa B descreve. Tumores com mutação em TP53 perdem essa salvaguarda, acumulam mutações e exibem instabilidade genômica.
A p53 é um fator de transcrição que atua como supressor tumoral, e sua função central é coordenar a resposta celular ao estresse genotóxico. Quando o DNA sofre dano (por radiação, agentes químicos ou erros de replicação), a p53 é estabilizada e ativada por modificações pós-traducionais, acumulando-se no núcleo. Lá, ela transcreve genes-alvo que promovem três desfechos principais: (1) parada do ciclo celular nos pontos de checagem G1/S e G2/M, dando tempo para os mecanismos de reparo atuarem; (2) ativação de vias de reparo do DNA; e (3) indução de apoptose quando o dano é extenso demais para ser corrigido. Essa triagem é o que mantém a integridade do genoma: células com mutações não reparadas são eliminadas antes de se tornarem malignas.
Na prática, imagine uma célula epitelial exposta à luz ultravioleta, que gera dímeros de pirimidina no DNA. A p53 detecta o dano, interrompe o ciclo na fase G1 e recruta as maquinarias de reparo por excisão de nucleotídeos. Se o reparo falha, a p53 ativa a transcrição de proteínas pró-apoptóticas (como as da família BAX), levando a célula à morte programada. Sem p53 funcional — como nos tumores com mutação em TP53 — a célula danificada continua proliferando, acumula mais mutações e ganha vantagem seletiva, resultando na elevada instabilidade genômica observada nesses cânceres.
A distinção que importa aqui é entre o papel da p53 e o de outras proteínas de manutenção do genoma. Enquanto a p53 é um regulador mestre que decide o destino celular (parar, reparar ou morrer), proteínas como BRCA1/BRCA2 atuam diretamente na recombinação homóloga, e as proteínas do complexo de reparo por excisão de bases trabalham na correção de lesões específicas. A p53 não recombina DNA diretamente, não metila o genoma e não modula a cromatina como função primária — ela orquestra a resposta, não executa o reparo em si.
A pegadinha que a banca explora neste tema é atribuir à p53 funções que pertencem a outras proteínas: recombinação homóloga (BRCA), metilação do DNA (DNA metiltransferases) e remodelação da cromatina (complexos como SWI/SNF). O candidato que confunde o papel regulador da p53 com o papel executor de outras proteínas cai nas alternativas A, C e D. A alternativa E, por sua vez, inverte completamente a lógica: a p53 suprime a instabilidade, não a reduz via metástase — metástase é consequência da instabilidade, não sua causa.
Guarde a fronteira: p53 = decisão (checkpoint, reparo, apoptose); outras proteínas = execução (recombinação, metilação, remodelação). É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
TP53 (guardião do genoma): Função central (Regula checkpoints (G1/S e G2/M), Induz reparo do DNA, Induz apoptose (dano irreparável)); Consequência da perda (Acúmulo de mutações, Instabilidade genômica); Não executa (confundir com) (Recombinação homóloga (BRCA), Metilação do DNA (DNMTs), Remodelação da cromatina (SWI/SNF))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a p53 estimula diretamente a recombinação homóloga. Isso é função de proteínas como BRCA1 e BRCA2, que participam do reparo de quebras de dupla fita por recombinação homóloga. A p53 não executa a recombinação; ela regula a resposta ao dano, podendo inclusive inibir a recombinação homóloga em certos contextos para favorecer outros mecanismos de reparo. A alternativa troca o papel regulador pelo papel executor.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve com precisão a função da p53: regulação dos pontos de checagem do ciclo celular (G1/S e G2/M) e indução de reparo ou apoptose. É exatamente isso que a p53 faz ao ser ativada por dano ao DNA — ela para o ciclo, permite o reparo e, se necessário, elimina a célula por apoptose. Essa é a função canônica do "guardião do genoma" e a razão pela qual sua perda leva à instabilidade genômica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a p53 aumenta globalmente a metilação do DNA em regiões promotoras. A metilação do DNA é catalisada por DNA metiltransferases (DNMTs) e está envolvida no silenciamento gênico, não sendo uma função da p53. Embora a p53 possa interagir com a maquinaria epigenética em contextos específicos, o aumento global da metilação não é seu papel. A alternativa confunde a p53 com enzimas de metilação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a p53 participa da modulação da cromatina por interação com reguladores epigenéticos. Embora a p53 possa recrutar complexos remodeladores de cromatina para ativar a transcrição de seus genes-alvo, essa não é sua função primária na manutenção da integridade genômica. A alternativa descreve um aspecto secundário e o apresenta como papel central, desviando do mecanismo principal (checkpoint e apoptose).
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a p53 ativa vias de metástase com redução da instabilidade cromossômica. Isso é duplamente errado: (1) a p53 não ativa vias de metástase — ela suprime a tumorigênese; (2) a redução da instabilidade cromossômica é consequência da função de checkpoint/apoptose, não de vias metastáticas. A alternativa inverte a lógica causal: a instabilidade genômica é o que leva à metástase, e a p53 combate a instabilidade, não a promove.
Gabarito: letra B — a p53 regula os pontos de checagem do ciclo celular e induz reparo ou apoptose, função essencial para a manutenção da integridade genômica.