Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg728581
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia
Durante angiografia diagnóstica realizada para investigação de sangramento pélvico, o paciente apresenta dor súbita e intensa no membro inferior direito após manipulação do cateter. A angiografia subsequente demonstra redução abrupta do fluxo arterial femoral, associada a defeito de enchimento mural focal, sem evidência de extravasamento de contraste.Qual complicação técnica mais provavelmente explica esse achado?
APerfuração arterial com extravasamento ativo.
BVasoespasmo arterial induzido por cateter.
CEmbolização iatrogênica por trombo ou placa.
DDissecção arterial iatrogênica.
EFenômeno de roubo de fluxo (“steal”) por colaterais pélvicas.
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GabaritoD — Dissecção arterial iatrogênica.
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Complicações vasculares do cateterismo: dissecção arterial iatrogênica
Gabarito: letra D. O quadro descrito — dor súbita e intensa no membro inferior direito durante manipulação do cateter, com redução abrupta do fluxo arterial femoral e defeito de enchimento mural focal, sem extravasamento de contraste — é a apresentação clássica da dissecção arterial iatrogênica, uma complicação mecânica do procedimento em que a parede do vaso é lesada pelo cateter, criando uma falsa luz. A ausência de extravasamento de contraste afasta a perfuração (letra A), e o defeito de enchimento mural (na parede, não intraluminal) é o achado angiográfico que distingue a dissecção da embolização (letra C).
A dissecção arterial é uma complicação conhecida do cateterismo cardíaco e da angiografia diagnóstica, especialmente quando se utiliza o acesso femoral. Ela ocorre quando o cateter ou o fio-guia, ao ser manipulado, lesa a íntima do vaso, permitindo que o sangue penetre entre as camadas da parede arterial (íntima e média), criando uma falsa luz que pode comprimir a luz verdadeira e reduzir ou interromper o fluxo sanguíneo distal. O mecanismo é puramente mecânico e está diretamente relacionado à técnica de manipulação do cateter, sendo mais comum em vasos com aterosclerose, tortuosidade ou calcificação, que tornam a parede mais frágil e menos complacente.
O diagnóstico angiográfico da dissecção se baseia em achados característicos: a presença de um defeito de enchimento linear ou focal na parede do vaso (a "aba" da íntima dissecada), frequentemente associado a uma redução abrupta do fluxo no vaso acometido. Diferentemente da embolização, em que o defeito de enchimento é intraluminal e obstrutivo, na dissecção o contraste pode preencher a falsa luz, criando uma imagem de duplo contorno ou de estreitamento excêntrico do lúmen. A ausência de extravasamento de contraste para fora do vaso é um dado crucial, pois afasta a perfuração arterial, que cursaria com sangramento ativo e acúmulo de contraste no tecido adjacente.
O vasoespasmo (letra B) é uma complicação frequente do cateterismo, mas geralmente se manifesta como um estreitamento difuso e transitório do vaso, sem um defeito de enchimento mural focal, e costuma ser autolimitado, com resolução espontânea ou após a retirada do cateter. A embolização iatrogênica (letra C) por trombo ou placa ateromatosa também pode causar oclusão aguda, mas o defeito de enchimento seria intraluminal, não mural, e frequentemente associado a um vaso de aspecto normal proximalmente. O fenômeno de roubo de fluxo (letra E) é um mecanismo hemodinâmico que ocorre quando há uma circulação colateral significativa desviando o fluxo de um território para outro, não sendo uma complicação mecânica aguda do cateterismo e não explicando um defeito de enchimento focal.
A distinção entre essas complicações é fundamental para a conduta imediata. Enquanto o vasoespasmo pode ser manejado clinicamente com vasodilatadores, a dissecção e a embolização podem exigir intervenção endovascular (angioplastia, stent) ou cirúrgica, dependendo da gravidade da isquemia. A perfuração, por sua vez, pode necessitar de compressão, embolização ou cirurgia para controle do sangramento. Portanto, o reconhecimento preciso do achado angiográfico é o passo decisivo para a escolha terapêutica correta.
Guarde a fronteira entre defeito de enchimento mural (dissecção) e defeito de enchimento intraluminal (embolização), e entre extravasamento de contraste (perfuração) e ausência de extravasamento (dissecção, embolização, vasoespasmo): é exatamente nesses critérios que as alternativas se dividem.
Complicações do cateterismo: Dissecção arterial (gabarito) (defeito de enchimento MURAL, redução abrupta do fluxo, sem extravasamento); Perfuração (extravasamento de contraste); Embolização (defeito de enchimento INTRALUMINAL); Vasoespasmo (estreitamento difuso e transitório); Roubo de fluxo (mecanismo hemodinâmico, não mecânico)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A perfuração arterial com extravasamento ativo é caracterizada pela saída de contraste para fora do lúmen vascular, formando um extravasamento que se acumula no tecido adjacente. O enunciado afirma explicitamente que não há evidência de extravasamento de contraste, o que exclui essa complicação. Além disso, a perfuração costuma cursar com hematoma, dor local e, em casos graves, instabilidade hemodinâmica, mas o achado angiográfico decisivo é o extravasamento, que está ausente no caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O vasoespasmo arterial induzido por cateter é uma complicação comum, mas sua apresentação angiográfica típica é um estreitamento difuso e concêntrico do vaso, sem um defeito de enchimento mural focal. O vasoespasmo é geralmente transitório e autolimitado, podendo ser revertido com a retirada do cateter ou com o uso de vasodilatadores. A presença de um defeito de enchimento focal na parede do vaso é um achado muito mais específico de dissecção do que de vasoespasmo, que tende a ser mais difuso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A embolização iatrogênica por trombo ou placa ateromatosa pode causar oclusão arterial aguda, mas o defeito de enchimento seria intraluminal, ou seja, um material obstrutivo dentro do lúmen do vaso, frequentemente com um aspecto de "menisco" ou de oclusão abrupta. No caso descrito, o defeito de enchimento é mural (na parede), o que é mais característico de uma dissecção, onde a íntima é elevada e cria uma falsa luz. Além disso, a embolização costuma ocorrer pela migração de material de um sítio proximal, enquanto a dissecção é uma lesão localizada no ponto de manipulação do cateter.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A dissecção arterial iatrogênica é a complicação que melhor explica o quadro. A manipulação do cateter pode lesar a íntima do vaso, criando uma falsa luz que se manifesta angiograficamente como um defeito de enchimento mural focal (a "aba" da íntima dissecada) e uma redução abrupta do fluxo distal. A ausência de extravasamento de contraste é consistente com a dissecção, pois o sangue não sai do vaso, mas sim penetra na parede. A dor súbita e intensa no membro inferior é consequência da isquemia aguda causada pela obstrução do fluxo pela falsa luz.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O fenômeno de roubo de fluxo ("steal") é um mecanismo hemodinâmico em que o fluxo sanguíneo é desviado de um território para outro através de colaterais, geralmente em situações de obstrução crônica ou de fístulas arteriovenosas. Não é uma complicação mecânica aguda do cateterismo e não explicaria um defeito de enchimento mural focal na angiografia. O roubo de fluxo não causa lesão direta da parede do vaso, mas sim uma redistribuição do fluxo, o que não se encaixa no quadro descrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre dissecção e embolização, duas complicações que podem causar oclusão arterial aguda. A chave está no termo "defeito de enchimento mural focal": na dissecção, o defeito é na parede do vaso (a íntima elevada), enquanto na embolização o defeito é intraluminal (um trombo ou placa dentro do lúmen). Além disso, a ausência de extravasamento de contraste afasta a perfuração, e o caráter focal do defeito diferencia da embolia. Com treino, você enxerga essas distinções de longe 💪.