Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg728667
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Reumatologia Pediátrica
Paciente do sexo feminino, 5 anos, é atendida no pronto-socorro com dor abdominal em cólica há três dias, associada à artralgia em punhos e tornozelos. Há relato de manchas arroxeadas, palpáveis, distribuídas principalmente em membros inferiores, variando de milímetros a 3 cm, que não desaparecem à digitopressão. No histórico recente, foi atendida há duas semanas com quadro de tosse, rinorreia e dispneia, e recebeu amoxicilina, utilizada por 10 dias, encerrada há cinco dias. Antecedentes pessoais: asma e dermatite atópica.Acerca desse quadro, assinale a alternativa correta.
AÉ necessária biópsia das lesões para confirmação diagnóstica.
BDeve ser prescrita corticoterapia, considerando os diagnósticos mais prováveis.
CTrata-se de provável doença de Kawasaki, devendo ser solicitado ecocardiograma.
DA hipótese diagnóstica mais provável é de farmacodermia secundária ao uso de amoxicilina.
ETrata-se de vasculite por IgA e a conduta no momento deve ser expectante.
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GabaritoE — Trata-se de vasculite por IgA e a conduta no momento deve ser expectante.
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Vasculite por IgA (Púrpura de Henoch-Schönlein) na infância
Gabarito: letra E. O quadro clínico — púrpura palpável em membros inferiores, dor abdominal em cólica, artralgia em punhos e tornozelos, em criança de 5 anos — é altamente sugestivo de vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein), e a conduta inicial, na ausência de complicações graves, é expectante, com analgesia e hidratação. A alternativa E é a única que combina o diagnóstico correto com a conduta adequada.
A vasculite por IgA (anteriormente chamada púrpura de Henoch-Schönlein) é a vasculite mais comum na infância, caracterizada por inflamação de pequenos vasos (arteríolas, capilares e vênulas) com deposição de imunocomplexos de IgA na parede vascular. O quadro clássico é a tríade: púrpura palpável (não desaparece à digitopressão, pois é extravasamento de hemácias), dor abdominal (por vasculite mesentérica, podendo haver sangramento gastrointestinal) e artralgia/artrite (mais comum em punhos, joelhos e tornozelos). O gatilho frequentemente é uma infecção de vias aéreas superiores recente, como a descrita no caso (tosse, rinorreia, dispneia tratada com amoxicilina).
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios classificatórios (púrpura palpável, dor abdominal, artrite/artralgia, comprometimento renal, biópsia com depósito de IgA). A biópsia de pele, quando realizada, mostra vasculite leucocitoclástica com imunofluorescência direta positiva para IgA, mas não é obrigatória para o diagnóstico quando o quadro é típico. O tratamento é sintomático e de suporte: repouso, hidratação, analgesia e anti-inflamatórios não esteroidais para artralgia. Corticoides são reservados para casos com dor abdominal intensa, sangramento gastrointestinal significativo, ou comprometimento renal grave — não são indicados de rotina. O prognóstico é bom, com resolução espontânea na maioria dos casos em 4 a 6 semanas.
A grande pegadinha desta questão é a associação temporal com o uso de amoxicilina. O paciente usou o antibiótico há duas semanas, e as lesões surgiram depois — isso pode levar o candidato a pensar em farmacodermia (reação alérgica a medicamento). No entanto, a farmacodermia geralmente se apresenta com lesões urticariformes, maculopapulares ou bolhosas, não com púrpura palpável típica de vasculite. Além disso, a tríade clássica (púrpura + dor abdominal + artralgia) é muito mais específica de vasculite por IgA. A infecção respiratória prévia é o gatilho mais comum, e o uso de amoxicilina é um fator confundidor — a banca explora exatamente essa confusão entre "reação ao medicamento" e "vasculite pós-infecciosa".
Outra distinção importante é com a doença de Kawasaki, que também é uma vasculite da infância, mas com apresentação bem diferente: febre alta prolongada (>5 dias), conjuntivite bilateral, mucosite, adenopatia cervical, eritema de palmas e plantas, e descamação periungueal. A doença de Kawasaki não cursa com púrpura palpável nem com dor abdominal como manifestação principal — o envolvimento é predominantemente das artérias coronárias, daí a necessidade de ecocardiograma. No caso descrito, não há febre, nem as manifestações mucocutâneas típicas, o que afasta essa hipótese.
Guarde o critério decisivo: púrpura palpável + dor abdominal + artralgia em criança = vasculite por IgA até prova em contrário. É exatamente nessa tríade que as alternativas se dividem — as incorretas ou erram o diagnóstico (Kawasaki, farmacodermia) ou erram a conduta (biópsia obrigatória, corticoterapia de rotina).
Vasculite por IgA (PHS)
1Tríade clássica
Púrpura palpável (MMII)
Dor abdominal (vasculite mesentérica)
Artralgia (punhos/tornozelos)
2Gatilho
Infecção de vias aéreas superiores
Amoxicilina = fator confundidor
3Diagnóstico
Clínico (biópsia não obrigatória)
4Conduta
Expectante (analgesia, hidratação)
Corticoide só em complicações
dor intensa, sangramento, nefrite
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a biópsia das lesões é necessária para confirmação diagnóstica. Isso está errado: o diagnóstico de vasculite por IgA é clínico, baseado na tríade característica (púrpura palpável, dor abdominal, artralgia) e nos critérios classificatórios. A biópsia de pele é um exame complementar, indicado em casos atípicos ou duvidosos, e não é obrigatória quando o quadro é clássico. A banca troca o caráter facultativo pelo obrigatório — uma inversão clássica de pegadinha.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Propõe corticoterapia como conduta inicial. Na vasculite por IgA, os corticoides não são indicados de rotina — o tratamento de primeira linha é expectante, com analgesia e hidratação. A corticoterapia é reservada para complicações específicas: dor abdominal intensa, sangramento gastrointestinal significativo, ou glomerulonefrite grave. Prescrever corticoide para todo paciente com vasculite por IgA seria conduta inadequada e potencialmente prejudicial, pois a maioria dos casos é autolimitada. A alternativa erra ao generalizar a indicação de corticoide para todos os casos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diagnostica doença de Kawasaki e solicita ecocardiograma. O quadro descrito não é compatível com Kawasaki: falta a febre alta prolongada (>5 dias), a conjuntivite bilateral, a mucosite, a adenopatia cervical e o eritema de palmas/plantas. A doença de Kawasaki é uma vasculite de médios vasos que acomete predominantemente as artérias coronárias, e sua manifestação cutânea típica é o eritema polimorfo, não a púrpura palpável. A dor abdominal e a artralgia podem ocorrer, mas não são o quadro dominante. A banca troca o diagnóstico de vasculite de pequenos vasos (IgA) por vasculite de médios vasos (Kawasaki) — uma confusão entre os dois tipos de vasculite da infância.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Levanta a hipótese de farmacodermia secundária à amoxicilina. Embora o paciente tenha usado o antibiótico recentemente, a apresentação clínica é típica de vasculite por IgA, não de reação medicamentosa. A farmacodermia geralmente se manifesta com urticária, exantema maculopapular, eritema multiforme ou lesões bolhosas — não com púrpura palpável. Além disso, a tríade púrpura + dor abdominal + artralgia é patognomônica de vasculite por IgA. O uso de amoxicilina é um fator confundidor que a banca insere para testar se o candidato consegue diferenciar a reação alérgica a medicamento da vasculite pós-infecciosa. A infecção respiratória prévia (tosse, rinorreia, dispneia) é o gatilho mais comum da vasculite por IgA, e não o antibiótico.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Identifica corretamente o quadro como vasculite por IgA e indica conduta expectante. O diagnóstico é clínico, baseado na tríade clássica (púrpura palpável em membros inferiores, dor abdominal em cólica, artralgia em punhos e tornozelos) em criança de 5 anos, com gatilho infeccioso recente. A conduta expectante é a mais adequada: a maioria dos casos é autolimitada e resolve espontaneamente em 4 a 6 semanas, com tratamento sintomático (analgesia, hidratação, repouso). A alternativa espelha exatamente o que a literatura preconiza para o caso descrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca insere o uso recente de amoxicilina para induzir o candidato a pensar em farmacodermia (alternativa D). Mas a tríade púrpura palpável + dor abdominal + artralgia é muito mais específica de vasculite por IgA, e a infecção respiratória prévia é o gatilho clássico. Outra armadilha é a doença de Kawasaki (alternativa C): a ausência de febre alta prolongada e de manifestações mucocutâneas típicas afasta esse diagnóstico. Fique atento: a banca adora trocar o diagnóstico de vasculite de pequenos vasos (IgA) por vasculite de médios vasos (Kawasaki) — com treino, você reconhece a tríade clássica de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as vasculites da infância, monte um quadro mental com os três principais diagnósticos: (1) Vasculite por IgA — púrpura palpável + dor abdominal + artralgia, sem febre alta; (2) Doença de Kawasaki — febre >5 dias + conjuntivite + mucosite + adenopatia + eritema palmo-plantar, com risco de aneurisma coronariano; (3) Farmacodermia — lesões urticariformes/maculopapulares/bolhosas, sem a tríade clássica. Na prova, a presença da tríade púrpura + abdome + articulação aponta diretamente para vasculite por IgA.