Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — INSTITUTO AOCP 2026
Medicina›Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
qg728668
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
SES-SC
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área Reumatologia Pediátrica
Menina de 4 anos é levada à consulta na UBS com relato de que, há aproximadamente três meses, apresenta episódios de quedas frequentes, fadiga e dificuldade para realizar atividades físicas mais intensas. Os responsáveis relatam lesões arroxeadas em pálpebras, além de rash malar, e descrevem o aparecimento de áreas eritematosas sobre as articulações metacarpofalângicas. No exame físico, observa-se fraqueza muscular proximal, dificuldade para subir na escada da maca e presença de sinal de Gowers ao levantarse. Considerando o quadro clínico descrito, qual é o diagnóstico mais provável?
APolimiosite.
BDermatomiosite juvenil.
CMiastenia gravis.
DDistrofia muscular de Duchenne.
EDoença de Kawasaki.
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GabaritoB — Dermatomiosite juvenil.
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Dermatomiosite juvenil: miopatia inflamatória com manifestações cutâneas características
Gabarito: letra B. O quadro descrito — fraqueza muscular proximal, sinal de Gowers, lesões arroxeadas em pálpebras (heliotropo), rash malar e pápulas eritematosas sobre as articulações metacarpofalângicas (pápulas de Gottron) em uma criança de 4 anos — é a apresentação clássica da dermatomiosite juvenil, uma miopatia inflamatória autoimune que cursa com envolvimento cutâneo característico. A combinação de fraqueza muscular proximal com as lesões de pele específicas é o que diferencia essa condição das demais alternativas.
A dermatomiosite juvenil (DMJ) é a principal miopatia inflamatória idiopática da infância, caracterizada por inflamação crônica do músculo esquelético (miosite) e da pele (dermatite). A doença tem pico de incidência entre 5 e 14 anos, com predomínio no sexo feminino, e sua etiologia envolve uma resposta autoimune desencadeada por fatores genéticos e ambientais, como infecções virais. O processo inflamatório é mediado por linfócitos T CD4+ e células B que infiltram o tecido muscular, levando à degeneração e necrose das fibras musculares, com consequente fraqueza.
A fraqueza muscular é o sintoma central e tem padrão proximal e simétrico, acometendo principalmente a cintura pélvica e escapular. Isso explica as quedas frequentes, a fadiga, a dificuldade para atividades físicas e o sinal de Gowers — manobra em que a criança usa as mãos para "subir" pelas próprias pernas ao levantar-se do chão, compensando a fraqueza da musculatura proximal dos membros inferiores. A dificuldade para subir na escada da maca é outro marcador clássico desse padrão de fraqueza.
As manifestações cutâneas são o diferencial diagnóstico e incluem:
Heliotropo: lesão eritematosa ou violácea (arroxeada) em pálpebras, frequentemente acompanhada de edema periorbitário — é o sinal mais específico da doença.
Pápulas de Gottron: lesões eritematosas ou violáceas, levemente elevadas, sobre as superfícies extensoras das articulações, especialmente metacarpofalângicas e interfalângicas proximais.
Rash malar: eritema em região malar, que pode mimetizar o lúpus, mas na DMJ costuma ser mais violáceo e pode se estender para a região periorbitária.
Outros: eritema em área de exposição solar (sinal do xale, sinal em V), calcinose cutânea (mais comum na forma juvenil), úlceras cutâneas e fenômeno de Raynaud.
O diagnóstico é essencialmente clínico, confirmado por dosagem de enzimas musculares (CK, aldolase, LDH, TGO/TGP), eletroneuromiografia, ressonância magnética muscular e, quando necessário, biópsia muscular. A presença de autoanticorpos como anti-Mi-2, anti-p155/140 e anti-NXP2 auxilia na caracterização de subtipos. O tratamento baseia-se em corticosteroides (prednisona) como primeira linha, associados a imunossupressores (metotrexato, azatioprina, micofenolato) nos casos refratários ou graves, além de fotoproteção rigorosa.
A principal distinção que a banca explora é entre dermatomiosite e polimiosite: ambas são miopatias inflamatórias com fraqueza muscular proximal, mas a polimiosite não apresenta manifestações cutâneas. A presença do heliotropo e das pápulas de Gottron é o que fecha o diagnóstico de dermatomiosite. Outra confusão possível é com a distrofia muscular de Duchenne, que também cursa com fraqueza proximal e sinal de Gowers, mas é uma doença genética ligada ao X, com início mais precoce (antes dos 3 anos), acomete predominantemente meninos, apresenta pseudohipertrofia de panturrilhas e não tem lesões de pele. A miastenia gravis cursa com fraqueza flutuante, ptose e diplopia, sem envolvimento cutâneo. A doença de Kawasaki é uma vasculite aguda com febre prolongada, conjuntivite, mucosite e adenopatia cervical, sem fraqueza muscular proximal.
Guarde a tríade que decide a questão: fraqueza muscular proximal + heliotropo + pápulas de Gottron = dermatomiosite juvenil. É exatamente essa combinação que separa a alternativa correta das demais.
Critério
Dermatomiosite Juvenil (correta)
Polimiosite (A)
Distrofia de Duchenne (D)
Miastenia Gravis (C)
Doença de Kawasaki (E)
Fraqueza muscular proximal
Sim (sinal de Gowers)
Sim (sinal de Gowers)
Sim (sinal de Gowers)
Flutuante, fatigável
Ausente
Manifestações cutâneas
Heliotropo, pápulas de Gottron, rash malar
Ausentes
Ausentes
Ausentes
Exantema polimorfo, conjuntivite, mucosite
Idade/sexo típicos
5–14 anos, predomínio feminino
Adultos (rara na infância)
Meninos < 3 anos
Qualquer idade, pico 20–40 anos
Crianças < 5 anos
Outros marcadores
Enzimas musculares elevadas, autoanticorpos
Enzimas musculares elevadas
Pseudohipertrofia de panturrilhas, herança ligada ao X
Ptose, diplopia, anticorpos anti-AChR
Febre ≥ 5 dias, adenopatia cervical, risco de aneurisma coronariano
Dermatomiosite juvenil: Fraqueza muscular proximal (Sinal de Gowers, Dificuldade p/ subir escada); Manifestações cutâneas (Heliotropo (pálpebras), Pápulas de Gottron (MCF), Rash malar); Diagnóstico (Clínico, CK e aldolase, Eletroneuromiografia); Tratamento (Corticosteroide, Imunossupressor)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A polimiosite é uma miopatia inflamatória que também causa fraqueza muscular proximal, mas não apresenta manifestações cutâneas. O enunciado descreve lesões arroxeadas em pálpebras (heliotropo), rash malar e pápulas sobre as metacarpofalângicas (Gottron) — achados cutâneos que são exclusivos da dermatomiosite. Além disso, a polimiosite é rara na infância, sendo muito mais comum em adultos. A presença de envolvimento cutâneo é o erro específico desta alternativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A dermatomiosite juvenil é a miopatia inflamatória mais comum na infância e reúne todos os elementos do caso: fraqueza muscular proximal (sinal de Gowers, dificuldade para subir na escada), heliotropo (lesões arroxeadas em pálpebras), rash malar e pápulas de Gottron (áreas eritematosas sobre as metacarpofalângicas). A idade de 4 anos, o sexo feminino e o início insidioso há três meses são compatíveis com o perfil epidemiológico da doença. O diagnóstico é clínico, com confirmação por enzimas musculares e eletroneuromiografia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A miastenia gravis é uma doença autoimune da junção neuromuscular que causa fraqueza muscular flutuante e fatigável, com piora ao longo do dia e melhora com repouso. O envolvimento típico é ocular (ptose, diplopia) e bulbar (disfagia, disartria), e não há manifestações cutâneas nem sinal de Gowers. O quadro descrito é de fraqueza persistente e proximal, não flutuante, o que afasta o diagnóstico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A distrofia muscular de Duchenne é uma miopatia genética ligada ao X, causada por mutação no gene da distrofina. Acomete quase exclusivamente meninos, com início antes dos 3 anos, e cursa com fraqueza proximal, sinal de Gowers e pseudohipertrofia de panturrilhas. A paciente é do sexo feminino, tem 4 anos e apresenta lesões cutâneas características (heliotropo, Gottron), que não fazem parte da distrofia. A ausência de envolvimento cutâneo e o padrão genético afastam essa hipótese.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A doença de Kawasaki é uma vasculite sistêmica aguda que acomete crianças pequenas, mas com quadro clínico completamente diferente: febre alta prolongada (≥ 5 dias), conjuntivite bilateral, hiperemia oral e faríngea, eritema e edema de mãos e pés, exantema polimorfo e adenopatia cervical. Não há fraqueza muscular proximal nem sinal de Gowers. O risco principal é o desenvolvimento de aneurismas de artérias coronárias, não o envolvimento muscular.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre dermatomiosite e polimiosite — ambas causam fraqueza muscular proximal, mas a presença de lesões de pele (heliotropo e pápulas de Gottron) é o que define a dermatomiosite. Outra armadilha é a distrofia de Duchenne, que também tem sinal de Gowers, mas é uma doença genética de meninos, sem manifestações cutâneas. Ao ver fraqueza proximal em criança, pergunte-se: há lesões de pele? Se sim, é dermatomiosite.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as miopatias na prova, monte um quadro mental: fraqueza proximal + pele = dermatomiosite; fraqueza proximal sem pele = polimiosite; fraqueza proximal + panturrilhas pseudohipertróficas + menino = Duchenne; fraqueza flutuante + ptose = miastenia. O sinal de Gowers é inespecífico — aparece em qualquer miopatia proximal —, então o que decide é o que acompanha a fraqueza.