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Questão de Português — Interpretação de Textos — FAFIPA 2014

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qq052784
Banca
FAFIPA
Órgão
Câmara de Paranapoema - PR
Ano
2014
Nível
Superior
Vandalismo ortográficoÉ vandalismo ortográfico o que propõem os “simplificadores” da ortografia que contam com a simpatia de senadores da Comissão de Educação do Senado. Dizem que, com a “simplificação”, se resolve o problema do analfabetismo. Iludem os desavisados com números cabalísticos. Afirmam que hoje se gastam 400 horas com o ensino de ortografia e que, com sua poção mágica, tudo se reduziria a 150 horas, com uma economia de R$ 2 bilhões/ano! De que cartola tiraram estes números, ninguém sabe. Não apresentam nem sequer um estudo objetivo. Ninguém em sã consciência pode levá-los a sério.Não se conhecem os detalhes da proposta. Aqui e ali se lê que pretendem eliminar o h inicial, abolir o hífen, substituir todo ch por x, reduzir a um simples s as sequências ss, ç, sc, sç, xc. Falam em tornar lógica a ortografia. É difícil, porém, captar o seu conceito de “lógica”. Algumas vezes, parece que “lógico” seria fazer corresponder a cada som uma só letra. Outras vezes, parece que não é som, mas fonema. Uma balbúrdia conceitual: só se pode concluir que o forte desses “simplificadores” não é a fonologia elementar.Esses “simplificadores” parecem desconhecer também o saber técnico de como se constroem as ortografias. Referem-se a uma “ortografia fonética”. Mas não se pode adotar um critério fônico para organizar uma ortografia em razão da grande diversidade de pronúncias que caracteriza a língua. Um critério fônico produziria o caos ortográfico, com a multiplicação desordenada de grafias para cada palavra, perdendo-se a utilidade e a funcionalidade da ortografia.Fazem também uma mixórdia, criticando como antipedagógicas (“decoreba”, dizem eles) as normas de organização da ortografia. Não sabem que normas técnicas existem para balizar a construção do sistema ortográfico, e não para ensinar a ortografia?Uma proposta, portanto, com achismo demais e conhecimento de menos. A prevalecer o bom senso, seu destino será a lata de lixo. Foi assim no século 19, com proposta quase idêntica em Portugal. Esses “simplificadores” se apresentam com ares de alta modernidade, mas apenas requentam o projeto de Barbóza Leão, de 1878!Que consequências haveria se fosse em frente uma tal reforma, alterando a grafia de um enorme contingente de palavras? A primeira: em pouco tempo, nossas bibliotecas estariam obsoletas. O resultado do vandalismo ortográfico é, sem mais nem menos, um ato de lesa-cultura. Precisa dizer mais? Ou pior: para ler um livro qualquer anterior a essa tresloucada reforma, as nossas crianças teriam de aprender não uma, mas duas ortografias! Teriam de saber que “eseso” (ou seria “esesu”?) é o mesmo que “excesso”; que “ezato” (ou seria “izatu”, ou “ezatu”?) é o mesmo que “exato”; que “jeso” (ou seria “jesu”?) é o mesmo que “gesso”. E vá o leitor multiplicando a lista para sentir o drama.E a consequência para nós, que já somos alfabetizados? Amanheceríamos semialfabetizados: perderíamos o saber acumulado e teríamos de voltar à leitura silabada.Os “simplificadores” parecem ignorar como se dá o processo de leitura. Quando lemos, nos orientamos por um léxico ortográfico mental que registra a forma gráfica da palavra e nos permite ler não letra por letra ou sílaba por sílaba, mas identificando a palavra visualmente mais que fonicamente. Este mesmo léxico ortográfico mental é ativado quando grafamos as palavras. É para sua consolidação cognitiva que a pedagogia da alfabetização deve encaminhar os alfabetizandos, ajudando-os a superar a hipótese cognitiva ingênua de que a ortografia representa a fala.Por fim, tal reforma, que afeta um volume grande de palavras, teria custos astronômicos (pense se só na adaptação de um dicionário como o Houaiss) e efeitos educacionais e culturais desagregadores.É uma proposta recoberta por um discurso populista que abertamente desqualifica o saber técnico. Vale lembrar, então, que uma das pessoas que mais batalhou contra o analfabetismo e pela inclusão social via educação, Paulo Freire, nunca apontou a ortografia como problema. Entendia do riscado.FARACO, Carlos Alberto. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/Este texto é um(a):
  1. ACarta de Reclamação – o locutor escreve para um interlocutor específico, denominado “simplificadores”.
  2. BCarta do Leitor – o autor do texto escreve para um jornal de grande circulação, apontando comentários a respeito de uma matéria sobre Política.
  3. CResenha Crítica – o autor do texto escreve um resumo dos assuntos mais comentados na Política e critica, de maneira impessoal, a temática “ortografia”.
  4. DArtigo de Opinião – o autor do texto expõe sua opinião a respeito da proposta de senadores da Comissão de Educação do Senado para simplificar a ortografia do português brasileiro. O autor considera tal proposta um “vandalismo ortográfico”.
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GabaritoD — Artigo de Opinião – o autor do texto expõe sua opinião a respeito da proposta de senadores da Comissão de Educação do Senado para simplificar a ortografia do português brasileiro. O autor considera tal proposta um “vandalismo ortográfico”.

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