Questão de Museologia — Conceitos Fundamentais — FUNRIO 2015
MuseologiaConceitos Fundamentais
- Código
- qq125157
- Banca
- FUNRIO
- Órgão
- UFRB
- Ano
- 2015
- Nível
- Superior
- Cargo
- Museólogo
“Então não eram realmente os mesmos, esses negros, não tinham as mesmas caras galhofeiras que exibiam na festa, não pertenciam a ninguém, como lá sempre pertenceriam. E pelo menos hoje podiam bater seus tambores, pois haviam ido embora o barão, a baronesa e seus convidados." (RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007. p.166). O trecho da obra de João Ubaldo Ribeiro se refere a manifestações da cultura negra no Brasil, um país construído a partir de dicotomias diversas entre a cultura dita “oficial" e culturas subalternas. A constituição de um patrimônio nacional brasileiro se deu, em diversos momentos da nossa história recente, por meio da disseminação da noção contraditória de que as diferenças são compartilhadas no bojo de uma cultura única e homogênea. Sobre o processo de legitimação do patrimônio nacional e o reconhecimento da cultura produzida pela diáspora africana no Brasil, é possível afirmar o seguinte:
- Aa diáspora africana no Brasil foi definida a partir das zonas de contato com a cultura hegemônica europeia desde a colônia, quando o discurso patrimonial já tornava evidente o sincretismo religioso.
- Bsomente a partir do movimento modernista, na década de 1920, que começa-se a conceber um discurso patrimonial unificado no âmbito do qual a cultura africana passa a ser interpretada como um traço positivo da cultura nacional.
- Ccomo expresso no trecho da obra Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, a cultura produzida na diáspora africana acabou tendo que se manifestar de forma subterrânea, sem interferir nos processos culturais desenvolvidos desde a colônia pela matriz europeia predominante
- Dconsiderando que, desde a criação do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937, o referencial do nacional estava condicionado pela crença no compartilhamento das diferenças, os movimentos pela evocação do patrimônio ressaltaram aspectos do hibridismo, da mistura e da mestiçagem dentro das fronteiras estabelecidas pelo Estado-nação.
- Ecom a criação do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937, a cultura da diáspora africana foi 'apagada' em detrimento da exaltação do patrimônio material que remetia às matrizes culturais europeias. É somente com o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a criação do DPI – Departamento do Patrimônio Imaterial, mais recentemente, que essas manifestações foram valorizadas.