Questão de Português — Interpretação de Textos — Prefeitura de Cacimbinhas - AL 2015
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq148024
- Banca
- Prefeitura de Cacimbinhas - AL
- Órgão
- Prefeitura de Cacimbinhas - AL
- Ano
- 2015
- Nível
- Superior
- Cargo
- Professor de Ciências
Rios sem discurso- João Cabral de Melo Neto.Quando um rio corta, corta-se de vezo discurso-rio de água que ele fazia;a água se quebra em pedaços,poços de água, em água paralítica.Em situação de poço, a água equivalea uma palavra em situação dicionária:isolada, estanque no poço dela mesma,e porque assim estanque, estancada;e mais: porque assim estancada, muda,e muda porque com nenhuma comunica,porque cortou-se a sintaxe desse rioo fio de água por que ele discorria.O curso de um rio, seu discurso-rio,chega raramente a se reatar de vez;um rio precisa de muito fio de águapara refazer o fio antigo que o fez.Salvo a grandiloquência de uma cheialhe impondo interina outra linguagem,um rio precisa de muita água em fiospara que todos os poços se enfrasem:se reatando, de um para outro poço,em frases curtas, então frase e frase,até a sentença-rio do discurso únicoem que se tem voz a seca ele combate.MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989Sobre o poema Rios sem discurso de João Cabral de Melo Neto, podemos inferir que:
- AEm sua primeira ocorrência, cortar significa "interromper", "cessar". Em sua segunda ocorrência, significa "secar", "deixar de correr".
- BO fluxo do rio deriva da ligação de muitos fios de água que correm juntos, engrossando-se reciprocamente até o "discurso-rio". Da mesma forma o discurso com as palavras, que se conectam duas a duas, três a três, desenvolvendo frases que se encadeiam no fluxo do discurso.
- CNo poema "Rios sem discurso", João Cabral de Melo Neto institui uma analogia entre o fluxo dos rios e o fluxo das palavras. Aludindo aos rios do Norte, o poeta mostra como a fragmentação do curso da água se equipara ao isolamento das palavras: num e noutro caso, como não há inter-relacionamento, não há fluxo, não há discurso.
- DInterrompido o fluxo do rio, a água se torna "paralítica", imóvel nas poças que não se comunicam e, por isso, não há fluxo. Encerradas umas das outras, as palavras restringem-se ao seu "estado dicionário", conotativo, sem estabelecer o fluxo das frases, em que, das relações, nasce o discurso.
- ECurso é o modo arcaico do particípio de correr. Dis é prefixo que indica "em todas as direções". Logo, discorrer é, em sentido figurativo, "correr em diversas direções". Discurso é, por conseguinte, "o que fluiu em várias direções".