Questão de Português — Interpretação de Textos — FUNCAB 2016
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq181072
- Banca
- FUNCAB
- Órgão
- Câmara de Linhares - ES
- Ano
- 2016
- Nível
- Médio
Os urubus— Estou esperando!— Não quero!— Deixá-lo passar!— Naufragou!Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquele trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão formoso, onde se amontoam as coisas lúgubres da cidade - a Santa Casa, o Necrotério, o serviço de enterramentos. [...] Dois olhavam com avidez os bondes que vinham da rua do Passeio; dois estavam totalmente voltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bonde, um magrinho bradou:— Largo!Prestei atenção. Do tramway em movimento saltou um cavalheiro defronte do Necrotério.[...]A um tempo falavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço empapado de suor e de lágrimas, murmurava, como se estivesse a receber pêsames:— Muito obrigado! Muito obrigado!Aproximei-me de um dos funcionários do serviço mortuário.— Que espécie de gente é essa?— Oh! não conhece”? São os urubus!— Urubus?— Sim, OS corvos... E o nome pelo qual são conhecidos aqui os agenciadores de coroas e fazendas para o luto. Não é muito numerosa a classe, mas que faro, que atividade!Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo que lisonjeiam sempre os informantes e nada exprimem de definitivo. Ele sorriu, tossiu e falou. Foi prodigioso.— Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa é luxo. Logo que tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o que for necessário para o enterro, com a condição de se lhes comprarem as coroas. [...]. E os títulos dessas casas davam para um tratado de psicologia recreativa. Há os poéticos, os delicados, os floridos, os babosos, os fúnebres — Tributo da Saudade, Coroa de Violetas, Flor de Lis, Bogari, A Jardineira, Coroa de Rosas...— Mas... e estes homens aqui?— Estes homens, são os urubus de Santa Luzia, serviço especial e maçônico. Três ficam à entrada principal da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!Se o tipo não tem casa de enterro: não quero! Deixá-lo passar. Se o homem vem de tilburi, correm até aqui a acompanhá-lo... Se o tilburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar donde não saíram os outros. E interessante ouvir-lhes o diálogo. Tu é que não correste! Conheço o homem; Antes fosse, era meu o negócio...— Mas é horrível!— É avida, meu caro.[...]Os urubus devem ter nome?— Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? E o Chico Basílio. Há cerca de trinta anos exerce a profissão. Está vendo aquele grupo? Encontra lã o Brasilino, o Caranguejo, o Bilu, o Espanhol da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim, o Tatuí, o Paulino, o Cá e Lá, o Buriti, o Manduca...[...]Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que urubus, naquele pedaço da cidade que cheira a cadáveres e a morte?Não há terra onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício e dos parasitas que não trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem bem, chegam a ter opiniões, sistema moral, ideias políticas.[...]Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.— Estiveram contando coisas a nosso respeito”?— Não, absolutamente.— Que se há de fazer? A comissão é tão pequena! Quando quiser uma coroa...— Deus queira que não! —fiz assustado.E apertei a mão do homem-urubu com um tremor de superstição e de susto.RIO, João do. Os urubus. In: ANTELO, Raúl (Org). A alma encantadora do Rio. São Paulo: Companhia das Letras, 1977.No contexto do último período do texto, o sentido da expressão destacada em “Dois olhavam COM AVIDEZ os bondes que vinham da rua do Passeio” é equivalente ao da expressão:
- Acom despretensão.
- Bcom desapego.
- Ccom desinteresse.
- Dcom ganância.
- Ecom generosidade.