Questão de Português — Interpretação de Textos — IF-MS 2016
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq207232
- Banca
- IF-MS
- Órgão
- IF-MS
- Ano
- 2016
- Nível
- Superior
- Cargo
- Professor - Português/Espanhol
SEXA— Pai...— Hmmm?— Como é o feminino de sexo?— O quê?— O feminino de sexo.— Não tem.— Sexo não tem feminino?— Não.— Só tem sexo masculino?— É. Quer dizer, não. Existem dois sexos.Masculino e feminino.— E como é o feminino de sexo?— Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.— Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino efeminino.— O sexo pode ser masculino ou feminino. Apalavra "sexo" é masculina. O sexo masculino, osexo feminino.— Não devia ser "a sexa"?— Não— Por que não?— Porque não! Desculpe. Porque não. "Sexo" ésempre masculino.— O sexo da mulher é masculino?— É. Não! O sexo da mulher é feminino.— E como é o feminino?— Sexo mesmo. Igual ao do homem.— O sexo da mulher é igual ao do homem?— É. Quer dizer... Olha aqui. Tem o sexomasculino e o sexo feminino, certo?— Certo.— São duas coisas diferentes.— Então como é o feminino de sexo?— É igual ao masculino.— Mas não são diferentes?— Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Mudao sexo, mas não muda a palavra.— Mas então não muda o sexo. É sempremasculino.— A palavra é masculina.— Não. "A palavra' é feminino. Se fosse masculinaseria "o pal..."— Chega! Vai brincar, vai.O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:— Temos que ficar de olho nesse guri...— Por quê?— Ele só pensa em gramática.Luís Fernando Veríssimo – Crônicas para se ler na escolaO final inesperado da crônica de Veríssimo possibilita a indagação sobre que conceito de gramática está em jogo no texto. Autores como Sírio Possenti, em “Passeio gramatical dirigido”, e Irandé Antunes em “Aula de Português: encontro e interação”, definem diferentes abordagens de gramática. Dentre as noções apresentadas pelos autores, a que mais se aproxima da noção que a crônica deixa entrever é:
- Aa gramática legisla sobre o que se pode ou não dizer, o que afeta basicamente o cotidiano dos cidadãos que desejam alguma posição de destaque na sociedade, porque se considera que sua “correção” da linguagem funciona como cartão de visitas.
- Bo conhecimento que o falante tem das regras que especificam o uso da língua é um conhecimento intuitivo, implícito, ou seja, não requer, em princípio, que se saiba explicitá-lo ou explicá-lo. No entanto, esse saber implícito acerca do uso da língua, pode ser enriquecido ou ampliado com o conhecimento explícito dessas mesmas regras. O menino da crônica revela ter esse conhecimento implícito e age como observador da linguagem.
- Ca gramática reflete as diversidades geográficas, sociais e de registro da língua, premissa levada em conta pelos personagens da crônica.
- Dexistem regras e descrições gramaticais que particularizam o uso da norma-padrão da língua ou o uso linguístico do grupo de prestígio da sociedade. Um ensino eficiente deve pautar pela inclusão de grupos marginalizados em grupos de prestígio.
- Epela análise das atitudes do pai, personagem da crônica, pressupõe-se a necessidade do ensino de uma gramática focada no ensino da nomenclatura gramatical, a fim de que os fenômenos da língua sejam interpretados e corrigidos.