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Questão de Português — Interpretação de Textos — IF-RS 2016

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qq210852
Banca
IF-RS
Órgão
IF-RS
Ano
2016
Nível
Superior
Cargo
Professor - Letras: Português/Inglês
Leia o poema abaixo, de Gregório de Matos Guerra:À negra Margarida que acariciava um mulato1 Carina, que acariaisaquele Senhor Joséontem tanga de guiné,hoje Senhor de Cascais:vós, e outras catingas mais,outros cães, e outras cadelasamais tanto as parentelas,que imagina o vosso amor,que em chamando ao cão SenhorIhe dourais suas mazelas.2 Longe vá o mau agouro;tirai-vos desse furor,que o negro não toma cor,e menos tomará ouro:quem nasceu de negro couro,sempre a pintura o respeitatanto, que nunca o enfeitade outra cor, pois fora aborto,é, como quem nasceu torto,que tarde, ou nunca endireita.3 A nenhum cão chamais tal,Senhor ao cão? isso não:que o Senhor é perfeição,e o cão é perro neutral:do dilúvio universala esta parte, que édesde o tempo de Noé,gerou Cão filho malditonegros de Guiné, e Egito,que os brancos gerou Jafé.4 Gerou o maldito Cãonão só negros negregados,mas como amaldiçoadossujeitos à escravidão:ficou todo o canzarrãosujeito a ser nosso servopor maldito, e por protervo;e o forro, que inchar se quer,não pode deixar de serdos nossos cativos nervo.5 Os que no direito expertospenetram termos tão finos,bem sabem, que os libertinosdistam muito dos libertos:se há brancos tão inexpertos,que dão benignos, ou bravosalforrias por agravos:os que destes são nascidos,por libertinos são tidos,porém são filhos de escravos.6 O filho da minha escrava,e dos meus vizinhos velhos,que eu vejo pelos artelhos,que ontem soltaram da trava;porque tanto se depravacom tal brio, e pundonor,que quer Ihe chamem Senhor:se consta o seu senhoriode um bananal regadio,que cavou com seu suor!7 E se são justos os briosdaqueles, que escravos têm,nisso a mor baixeza vêm,pois têm por servos seu tios:e se algum com desvariosdiz, que o ter por naturalsangue de branco o faz tal,nisso a condenar-se vêm,porque se o branco faz bem,como o negro não faz mal?8 Tomem de leite um cabaço,lancem-lhe um golpe de tinta,a brancura fica extinta,todo o leite sujo, e baço:assim sucede ao madraço,que com a negra se tranca;do branco o leite se arranca,da negra a tinta se entorna,o leite negro se torna,e a tinta não se faz branca.9 Mas tornando a vós, Carira,que ao negro Senhor chamais,porque é Senhor de Cascais,quando vos casca, e atira:crede, amiga, que é mentiraser branco um negro da Mina,nem vós sejais tão menina,que creiais, que ele não crê,que é negro, pois sempre vêem casa a mãe Caterina.10 Dizei ao Vosso Senhorentre um, e outro carinho,que o negro do seu focinhoé cor, que não toma cor:e que dê graças a Amorque vos pôs os olhos tortospara não ver tais abortos,mas que há de esbrugar mantenhadaqui até que Deus venhajulgar os vivos, e mortos.(RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2014, p. 115-118.)Considere as seguintes afirmações sobre o poema.I. A sonoridade de “cão”, na terceira estrofe, possibilita que associe os negros a Cam, filho amaldiçoado de Noé.II. Da segunda estrofe à oitava ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma, pois há omissão do sujeito a quem o eu-lírico se dirige no poema, já exposto na primeira estrofe:“Carina”.III. A metáfora do leite e da tinta, presente na oitava estrofe, associa-se ao critério de limpeza de sangue, pois a ideia, no mundo colonial, é a de que a mestiçagem não branqueava o sangue negro, mas enegrecia o sangue branco.IV. O poema começa com a crítica à negra Carina, que dedica seus afetos a um mulato, que, por ser livre, afasta-se de seus familiares maternos, ainda escravos, já que devia ser filho de escrava com algum senhor branco.V. A metonímia é a figura de linguagem que o poeta usa para caracterizar seus desafetos. Exemplos são: “tanga”, “catingas” e “outros cães, cadelas” presentes na primeira estrofe.Assinale a alternativa em que todas as afirmativas estão CORRETAS:
  1. AApenas II, III, IV.
  2. BApenas I, II, IV, V.
  3. CApenas I, II, III, V.
  4. DApenas I, III, IV, V.
  5. EApenas II, III, V.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Apenas I, III, IV, V.

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