Questão de Português — Interpretação de Textos — IF-RS 2016
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq210860
- Banca
- IF-RS
- Órgão
- IF-RS
- Ano
- 2016
- Nível
- Superior
- Cargo
- Professor - Letras: Português/Inglês
Um mitoPor Sirio PossentiO mito mais renitente sobre as línguas é o de que teria havido, em algum momento, línguas perfeitas. Em cada país – ou cultura – há quem lamente sua decadência. As pessoas estariam falando muito mal, ninguém mais respeita as regras, a gramática precisa “voltar” a ser ensinada, quem sabe até mesmo o latim, já que isso ajudaria a melhorar as coisas, da grafia ao sentido, passando pelas regências e concordâncias. As queixas são generalizadas.A primeira versão desse mito que conhecemos é a história de Babel, embora no livro não se diga que se falava corretamente, mas apenas que se falava uma só língua e todos se compreendiam. O castigo foi a diversidade linguística. Antes disso, o livro informara que Adão deu a cada criatura um nome adequado. Não se fala em sintaxe, concordância, regência, muito menos em correção, mas apenas na adequação dos nomes, que, diga-se, é hoje um tópico de muitas queixas.Na verdade, o mito da decadência (o avesso do da perfeição antiga) vigora em muitos outros campos: os escritores eram melhores, havia verdadeiros filósofos, os políticos tinham mais compostura (e eram melhores oradores), o casamento era para valer, as mulheres, então... etc.O dado mais curioso sobre a questão é que as queixas são bem antigas. Cícero já se queixava da mesma coisa, e conhece-se o Appendix Probi, que fazia uma lista de palavras corretas e de sua contraparte “errada” (por exemplo, condenava oricla, de que derivou orelha, defendendo auris; condenava rivus, contra rius, de onde obviamente veio rio; condenava socra (sogra) em vez de socrus; defendia ansa contra a forma nova asa etc.). Ou seja, já naquele tempo se faziam listas de erros, que hoje é um esporte bem lucrativo.O curioso é que, a cada época, os defensores do seu padrão não se dão conta de que ele foi condenado anteriormente (quem deixaria de dizer rio, asa ou sogra?). Há queixas gerais, pura repetição de clichês, e queixas específicas, que tematizam questões particulares. As queixas começam pela grafia, sem que os críticos se deem conta de que uma lei pode mudá-la. A “invenção” de palavras consideradas desnecessárias ou o emprego das atuais em sentido “corrompido” também é um alvo muito comum.Disponível em:<http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/3113/n/um_mito> Acesso em: 04 out. 2016O texto de Sirio Possenti aborda uma questão recorrente quando o assunto é a língua portuguesa: o mito da decadência. Na obra “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, Marcos Bagno apresenta outros mitos relacionados a essa temática. Analise as afirmações a seguir e assinale a alternativa que desenvolve, de maneira INCORRETA, as ideias apresentadas por Sirio no texto acima e por Bagno na obra citada.
- AUma ilustração das queixas específicas, mencionadas por Possenti, pode ser o fato de que é comum ouvir que as regências estão sendo abandonadas. Do ponto de vista dos autores, é possível afirmar que casos como “assistir o jogo”, por exemplo, não implicam abandono de regência, mas sua mudança.
- BUm mito apresentado por Bagno e alinhado ao mito citado no texto acima é o de que “brasileiro não sabe português”. Ele estaria relacionado à compreensão de que uma raça que não é “pura” não poderia falar uma língua “pura”.
- CA afirmação de que “As queixas começam pela grafia, sem que os críticos se deem conta de que uma lei pode mudá-la” pode ser relacionada ao decreto nº6.583, de 29 de setembro de 2008, que promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990.
- DPossenti lembra que, em “Babel”, o castigo foi a diversidade linguística. Relacionado a esse tema, Bagno apresenta outro mito, a saber: “a língua falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente”. O autor salienta que, embora sério, este mito é um dos menos prejudiciais à educação.
- EOutro mito que compõe a mitologia do preconceito linguístico é o que afirma que “o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”. Segundo Bagno, este mito está bastante relacionado a sérias questões sociais e à ideia de que se trata de “dar uma língua” aos “sem-língua”.