Questão de Português — Gêneros Textuais — IBADE 2017
PortuguêsGêneros Textuais
- Código
- qq272029
- Banca
- IBADE
- Órgão
- Prefeitura de Ji-Paraná - RO
- Ano
- 2017
- Nível
- Superior
Texto para responder à questãoEscreverA estudante perguntou como era essa coisa de escrever. Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse.Primeiro, evite estes coloquialismos de “fofo” e “moleza”, passe longe das gírias ainda não dicionarizadas e de tudo mais que soe mais falado do que escrito. Isto aqui não é rádio FM. De vez em quando, [...] aplique uma gíria como se fosse um piparote de leve no cangote do texto, mas, em geral, evite. Fuja dessas rimas bobinhas, desses motes sonoros. O leitor pode se achar diante de um rapper frustrado e dar cambalhotas. Mas, atenção, se soar muito escrito, reescreva.Quando quiser aplicar um “mas”, tome fôlego, ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, peça autorização ao bispo de plantão e, por favor, volte atrás. É um cacoete facilitador.Dele deve ter vindo a expressão “cheio de masmas”, ou seja, uma pessoa cheia de “não é bem assim”, uma chata que usa o truque de afirmar e depois, como se fosse estilo, obtemperar.[…]É mais ou menos por aí, eu disse para a menina que me perguntou como é essa coisa de escrever.Para sinalizar o trânsito das ideias, use apenas o ponto e a vírgula, nunca juntos. Faça com que o primeiro chegue logo, e a outra apareça o mínimo possível. Vista Hemingway, só frases curtas. Ouça João Cabral, nada de perfumar a rosa com adjetivos.[…]O texto deve correr sem obstáculos, interjeições, dois pontos, reticências e sinais que só confundem o passageiro que quer chegar logo ao ponto final. Cuidado com o “que quer” da frase anterior, pois da plateia um gaiato pode ecoar um “quequerequé” e estará coberto de razão. A propósito, eu disse para a menina, perca a razão quando lhe aparecer um clichê desses pela frente.Você já se livrou do “mas”, agora vai cuidar do “que” e em breve ficará livre da tentação de sofistica o texto com uma expressão estrangeira. É out.Escreva em português. Aproveite e diga ao diagramador para colocar o título da matéria na horizontal e não de cabeça para baixo, como está na moda, como se estivesse num jornal japonês.[…]De vez em quando, abra um parágrafo para o leitor respirar. Alguns deles têm a mania de pegar o bonde no meio do caminho e, com mais parágrafos abertos, mais possibilidades de ele embarcar na viagem que o texto oferece. Escrever é dar carona. Eu disse isso e outro tanto do mesmo para a menina. Jamais afirmei, jamais expliquei, jamais contei ou usei qualquer outro verbo de carregação da frase que não fosse o dizer. Evitei também qualquer advérbio em seguida, como “enfaticamente”, “seriamente” ou “bemhumoradamente”. Antes do ponto final, eu disse para a menina que tantas regras, e outras a serem ditas num próximo encontro, serviam apenas de lençol. Elas forram o texto, deixam tudo limpo e dão conforto. Escrever é desarrumar a cama.SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Escrever. Veja, jan 2011. (Fragmento). Disponível em https://veja.abril.com.brO fragmento em análise, de Joaquim Ferreira dos Santos, em que há referência a um fato sócio-histórico — a escrita —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao:
- Aevocar, de maneira humorística, a realidade escritora, visando informar sobre a escrita no cotidiano, para manter as pessoas informadas.
- Bcontar história direcionada na solução de um mistério, construindo os personagens física e psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
- Cdissertar sobre o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de uma coisa por meio de outra.
- Drecriar a realidade, distanciando-a das verdades cotidianas e dos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.
- Evaler-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético