Questão de Português — Interpretação de Textos — IF-SP 2019
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq510582
- Banca
- IF-SP
- Órgão
- IF-SP
- Ano
- 2019
- Nível
- Superior
«Olá, guardador de rebanhos,Aí à beira da estrada,Que te diz o vento que passa?»«Que é vento, e que passa,E que já passou antes,E que passará depois.E a ti o que te diz?»«Muita coisa mais do que isso,Fala-me de muitas outras coisas.De memórias e de saudadesE de coisas que nunca foram.»«Nunca ouviste passar o vento.O vento só fala do vento.O que lhe ouviste foi mentira,E a mentira está em ti.»(PESSOA, F. O eu profundo e outros eus: antologia poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980).“Com efeito, os heterônimos são, pode dizer-se, uma invenção nova na história da poesia europeia, embora no desenvolvimento de uma tendência antiga. Podemos talvez compreendê-la supondo que cada heterônimo corresponde a um ciclo de atitudes como que experimentais. O heterônimo Alberto Caeiro reage em verso prosaicamente livre contra o transcendentalismo saudosista, mostrando que ’o único sentido oculto das coisas / é elas não terem sentido oculto nenhum‘, e contra o farisaísmo, então concorrentemente jacobino e devoto, da poesia compassiva sentimental”.(SARAIVA, A. J.; LOPES, Ó. História da literatura portuguesa. 26. ed. Porto: Porto Editora, 1996).O poema de Fernando Pessoa, excerto de O guardador de rebanhos, vincula-se ao heterônimo Alberto Caeiro e estrutura-se em forma de diálogo entre dois sujeitos com percepções distintas sobre o vento. Considerando o trecho citado de Saraiva e Lopes em História da literatura portuguesa, a oposição entre as vozes que realizam o diálogo no texto de Pessoa-Caeiro relaciona-se:
- Aà incapacidade de diálogo entre o guardador de rebanhos e o sujeito que o interpela, pela diferença de nível de linguagem.
- Bao sentimentalismo transcendental associado ao vento pelo sujeito que interpela o guardador de rebanhos.
- Cao farisaísmo do guardador de rebanhos, que procura impor uma visão de mundo que não se sustenta em suas ações.
- Dà discordância dos dois sujeitos em relação ao sentido oculto da passagem do vento, admitido por ambos.